Sala Michael Oakeshott

Notas sobre a “Torre de Babel”, de Michael Oakeshott

OAKESHOTT, Michael Joseph. The Tower of Babel.
In: Rationalism in politics and other essays. New and Expanded Edition, Liberty Fund, Carmel, Indiana, United States, 1991. pp 465-487.

Comecei a leitura do ensaio de Michael Oakeshott (MO) sobre a vida moral no mesmo período em que ocorria o “Interfaith Symposium” – uma iniciativa do Shalom Hartman Institute, respeitada organização com sede em Jerusalém, dedicada ao pensamento judaico e educação pluralista a líderes comunitários, rabinos e educadores em Israel e na América do Norte. Durante uma das palestras, a narrativa do texto bíblico sobre a Torre de Babel foi interpretada como decisão divina pela diversidade e pluralismo. Segundo essa teologia, o divino não quer a uniformidade, a unidade de todos os humanos traz riscos demais e as várias línguas expressam e reconhecem a necessidade de diferentes modos de vida – uma pluralidade determinada pelo único poder supremo.

No ensaio em exame, a construção da Torre de Babel é interpretada como busca da perfeição, que ele considera adequada como atividade individual, mas não social. O objetivo do autor é considerar a forma da vida moral e, em particular, a forma da vida moral da civilização ocidental contemporânea. A questão prática colocada: que tipos de iniciativas podem ser designadas como certas ou erradas? E a pergunta filosófica: qual a natureza dos critérios morais? MO declara que esse interesse precisa ser filosófico e histórico, não prático, porque nem a sociedade nem o indivíduo têm a oportunidade de fazer uma escolha expressa da forma da vida moral (p. 467). Nesse texto, ele trata do assunto sob o aspecto filosófico, enquanto em texto posterior, de 1983, ele aciona a perspectiva histórica.

“A vida moral é afeto humano e o comportamento é determinado, não pela natureza, mas pela arte” (p. 466). Ele transmite a ideia de que temos escolha diante de várias alternativas de ação, que a vida moral é predominantemente prática e a arte expressa uma escolha que não precisa ser consciente ou refletida. Essa linha de pensamento associa o comportamento moral ao exercício de uma habilidade adquirida.

MO propõe-se a considerar duas formas de vida moral, que, separadamente ou em combinação, compõem a forma da vida moral do mundo ocidental: o hábito e a autoconsciência, tratados como tipos ideais extremos ao longo do texto.

O hábito é conduta sem reflexão, mais facilmente identificada em situações de urgência, quando agimos de forma imediata. Trata-se de responder às situações recorrentes da vida normal, uma conduta possível quase automática. Para MO, a maioria das situações de vida não aparecem como ocasiões evocadoras de julgamento, ou como problemas que requerem soluções. Não há comparação entre alternativas ou ponderações sobre as consequências, não há incertezas, hesitações ou dilemas. Nada além de seguir as tradições nas quais fomos educados.

O hábito provém de um tipo de educação. Adquirimos hábitos de conduta convivendo com outras pessoas, do mesmo jeito que aprendemos um idioma nativo. Não aprendemos pelo estudo de regras e preceitos. O que começa através de exemplos continua como uma conformidade seletiva em relação a uma rica variedade de comportamentos habituais. MO considera esse tipo de educação inevitável e aponta seus limites. Pelo hábito, podemos aprender um jogo e jogá-lo sem infringir as regras, mas nós não adquirimos um conhecimento sobre as regras sem formulá-las ou vê-las formuladas. É o tipo de educação que dá o poder para agir apropriadamente, mas que não dá a habilidade de explicar nossas ações em termos abstratos ou defender nossas ações como emanações de princípios morais.

MO argumenta que o hábito oferece estabilidade para a vida moral, tanto do ponto de vista do indivíduo como da sociedade. A estabilidade inerente a essa forma de vida moral deriva da sua elasticidade e da sua habilidade de mudar sem ruptura. As mudanças são contínuas, não há nada fixo. Hábitos da conduta moral não evidenciam mudanças revolucionárias, porque eles nunca estão estagnados. MO acha importante destacar que essas mudanças não provêm da reflexão sobre princípios morais e não equivalem a uma autocrítica moral. Consequentemente, se uma vida moral desse tipo degenera em superstição, é difícil recuperá-la.

MO complementa:

“(…) numa moralidade do modo habitual de comportamento, a influência do excêntrico moral pode ser intensa, mas necessariamente oblíqua, e a atitude da sociedade em relação a ele é necessariamente ambivalente. Ele é admirado, mas não copiado, reverenciado, mas não seguido, bem-vindo, mas condenado ao ostracismo.” (p. 472)

A segunda forma de vida moral pode ser considerada, em vários aspectos, o contrário da primeira. Nessa forma, a atividade é determinada não por um hábito de comportamento, mas pela aplicação reflexiva de critérios morais. Ela aparece em duas variedades: (i) como a busca de ideais morais pela autoconsciência, e (ii) pela observância de regras morais.

A primeira variedade começa pela escolha de palavras para expressar aspirações morais. Os atos posteriores deveriam corresponder às palavras. A ação emerge do julgamento. Na segunda variedade, a aplicação de uma regra não é fácil, requer interpretação a ser elaborada. MO considera que ideais morais podem se tornar familiares e se transformar em hábitos. Além disso, “um ideal moral pode encontrar sua expressão em um tipo de caráter humano – como o caráter do cavalheiro – gentleman – e a conduta se transforma na aplicação imaginária do ideal de caráter para a situação.” (p. 474).

Essa forma de vida moral, não menos que a primeira, depende de uma educação apropriada. Antes de tudo, é necessário um treinamento intelectual para detectarmos ideais morais; depois um treinamento na arte da gestão intelectual desses ideais; e, em terceiro lugar, demandamos treinamento na aplicação dos ideais a situações concretas. A arte de traduzir e a arte de escolher os meios adequados para atingir os objetivos que nossa educação inculcou. Verifica-se pouco espaço para mudanças. A resposta resulta de interpretação, mas a amplitude de respostas é fechada e severa. Quando a resistência à mudança é quebrada, o que acontece é revolução, não mudança. Rejeição e reposição. Além disso, todos ideais morais são, potencialmente, obsessões.

“Muitas vezes, a busca excessiva de um ideal conduz à exclusão de outros, talvez todos os outros: em nossa ânsia de realizar justiça, esquecemos a caridade, e a paixão pela correção fez de muitos homens mais duros e impiedosos.” (p. 476).

MO finaliza essa parte do texto afirmando que a busca de ideais morais conduz à desilusão, que cada ideia admirável tem seu oposto, não menos admirável. Liberdade ou ordem, justiça ou caridade, espontaneidade ou determinação, princípio ou circunstância, “eu” ou outros – são tipos de dilemas com os quais essa forma de vida moral nos confronta. Ele considera essa forma de vida moral perigosa para um indivíduo e desastrosa para uma sociedade.

A quarta parte do texto começa com a lembrança de que hábito e reflexão autoconsciente configuram duas formas extremas ideais de vida moral, e que nenhuma delas sobrevive sozinha. A seguir, MO imagina a vida com predominância de cada uma dessas formas extremas. Embora reconheça algumas limitações, sua preferência pela moralidade predominantemente determinada pelo hábito fica evidente. Para ele, na moralidade pelo estabelecimento de ideais, o criticismo e a especulação podem se impor quando a ação é necessária. Além disso, a busca da perfeição pode impedir uma tradição moral estável e flexível e se realizar por meio de respostas únicas para todas as sociedades, revelando uma tendência à uniformização e à formação de pensamentos totalitários. O defeito mais radical atribuído à forma reflexiva é a “negação do caráter poético de todas as atividades humanas” (p. 479).

Na quinta e última seção, o autor explicita um diálogo entre cristãos e se refere a uma forma de vida moral do cristianismo contemporâneo, em que predomina a busca consciente de ideais morais. Ele descreve um mundo atordoado, “onde nunca soubemos menos sobre como nos comportar tanto em público como em privado” (p. 481). MO associa esse atordoamento à falta de hábitos de comportamento moral – algo que possuímos, mas que, muito frequentemente, nossa busca autoconsciente nos impede de desfrutar – e ao domínio de opiniões morais. Essa forma gera uma instabilidade contrabalanceada pela seleção de alguns ideais que são transformados em motes autoritários. Uma ideologia moral é formulada e oferece condições para a perseguição de excêntricos. Mas essa ideologia não é remédio, ela simplesmente acoberta a corrupção da consciência. “Um homem que fracassa na prática do seu discurso não nos perturba; nós sabemos que o discurso se refere a ideais morais e que ninguém é capaz de praticá-lo com perfeição.” (p. 482).

Para MO, o domínio dessa moralidade não decorre da escolha, mas é consequência das circunstâncias históricas a partir dos primeiros quatro séculos da era cristã. Ele considera essa situação uma falta de sorte e ilustra como essa moralidade emergiu e se transformou em voz dominante na Europa, associada ao iluminismo. Sua crítica faz referência à perda de espontaneidade e ao risco da obsessão. Portanto ele sugere que conheçamos os seus defeitos para fazer o melhor diante de uma situação inevitável.

Algumas reflexões e comentários

MO publicou o texto analisado depois da II Guerra Mundial, em 1948. Seu artigo não faz menção a essa grande crise de moralidade, tampouco a qualquer outro fato social. Parece propor-se a uma abstração completa, sem fazer referência a qualquer realidade factual. Depreende-se um modo de exercício da filosofia. Como se pudéssemos construir um pensamento puro, sem contaminação pelos fatos.

Exercita uma diferenciação entre duas formas de vida moral, usando o idioma que construiu ao longo de sua atividade acadêmica. O pressuposto é a alternativa de escolha humana, o arbítrio. Objetivo, medo, punição e recompensa são palavras estranhas ao léxico. MO descreve o homem diante da vida diária e ideais morais. Ele situa sua reflexão na Inglaterra, defende com clareza a tradição, a continuidade com mudanças graduais. Destaca a preferência pelo comportamento inscrito no hábito de uma tradição e a educação como processo central na formação da conduta moral. A cada forma de vida moral corresponde um tipo de educação.

Mais uma vez, vejo-me diante de um pensamento que raramente dialoga ou revela a influência de outros intelectuais. No seu texto, ele faz referências explícitas e implícitas à tradição judaica, aponta o domínio da perspectiva cristã e classifica o caráter do gentleman como expressão de um ideal moral. A interação com proposições de Kant é revelada. MO demonstra perplexidade e até indignação diante da aceitação da inconsistência entre discurso e prática na sociedade contemporânea. Interpreto uma visão idealizada de um ser humano racional, em busca de fazer boas escolhas, guiado pelo ideal de perfeição.

Tendo em vista o seu apreço pela formação do hábito e sua proposição de que, quanto mais inserido na tradição, mais equilibrado seria o convívio social, levanto a dúvida sobre como pensar situações políticas em que estão presentes hábitos e tradições diversas. Embora MO não utilize o termo cultura, em uma aparente obsessão por construir um idioma filosófico que se sustente de forma autônoma, parece-me que ele dirige o discurso aos seus, em um universo destituído da preocupação com a interação de hábitos de múltiplas tradições e culturas.

[1] OAKESHOTT, Michael Joseph. The Tower of Babel. In: Rationalism in politics and other essays. New and Expanded Edition, Liberty Fund, Carmel, Indiana, United States, 1991. pp 465-487. 1a publicação no Cambridge Journal, Volume II, 1948.

Imagem: Michael Oakeshott (autor não identificado)

Sobre o autor

Ruth Steuer

Mestre e Doutora em Serviços de Saúde na Faculdade de Saúde-Pública da USP. Pós-Doutorado em Estudos Organizacionais na EAESP – FGV. Integrante do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.