Sala Michael Oakeshott

Notas sobre a “A Voz da Poesia na Conversação da Humanidade”, de Michael Oakeshott

OAKESHOTT, Michael Joseph. The voice of poetry in the conversation of mankind.
In: Rationalism in politics and other essays. New and Expanded Edition, Liberty Fund, Carmel, Indiana, United States, 1991.

No encontro realizado em 12 de fevereiro de 2021, a temática trazida por Luiz Carlos Zeferino girou em torno da conceituação, importância poética (estética[1]) do ponto de vista filosófico e mesmo político. Apesar do debate, que se seguiu após a apresentação, ter caminhado para outras temáticas correlacionadas, o ponto crucial foi poética.

Inicialmente, na apresentação, Luiz Carlos se dedicou a demonstrar a estética enquanto campo epistemológico “autônomo”, diferenciando-se de fundamentos filosóficos anteriores clássicos (essencialistas) e posteriores modernos (racionalistas). Isto porque a estética, do ponto de vista platônica-aristotélico, medieval e mesmo positivista, não permitia este olhar autônomo sobre ela. Fundamentada na concepção oakeshottiana, a estética seria um campo epistemológico, por assim dizer, específico, o que daria a ela uma “liberdade” das amarras silogísticas e racionalistas.

Luiz Carlos destacou autores como Shakespeare e Montaigne, pensadores estudados por Oakeshott ainda na sua juventude, o que demonstraria seu interesse pelo renascentismo e romantismo[2], dois movimentos que, por definição, seriam críticos de todo e qualquer tipo de delimitação essencialista e racionalista.

Na perspectiva apresentada por nosso pesquisador, Oakeshott faz uma crítica a este racionalismo herdado do pensamento filosófico, que iria transbordar para a política, e, aqui, especialmente para a estética, eliminando o caráter experiencial – o caráter empírico do indivíduo. É nesse sentido que a estética seria autônoma diante do racionalismo, uma vez que está fundamentada antes de tudo na experiência. Luiz Carlos faz a seguinte citação: “se valorizar o fruto da experiência e não a flor do imediatismo imprudente”[3]. Sob esse aspecto, a estética permitiria uma constante experimentação não limitadora, mais próxima do subjetivismo do que do objetivismo. Luiz Carlos complementa com: “a Estética resignou os interesses próprios, mas abraçava o individualismo epicurista radical”. Ainda tratando da estética enquanto experiência não limitada pelo racionalismo, cultura e arte seriam uma forma de “jogo” (Huizinga), ou seja, a estética não teria outra finalidade além do ato de ser experimentada – a finalidade da estética (como a arte) é o próprio ato experiencial.

Retornando ao início, é nessa perspectiva que a poética seria, como dito na apresentação, o fundamento inicial da política, e não o contrário. A poética seria a origem do pensamento livre, contrário ao “discurso argumentativo”. A fala deveria levar à ação, e este último seria fundamentalmente o campo da política, tendo em vista que o discurso (diálogo, debate, teoria) fomenta a ação, e não o contrário.

Assim, tanto o artista como o religioso vivem a “plenitude da vida”, a “fruição”, ou seja, uma constante experimentação do hoje; e este hoje não se limita a regras definitivas e limitadoras, já que ocorre no campo da experimentação que é, por definição, subjetiva e ilimitada. Faz-se a analogia de que todo diálogo, toda conversação, é “um encontro num jantar”. O diálogo, como um jantar, não ocorre a partir de regras definidas e limitadoras, antes pela experimentação dos presentes – ele simplesmente flui – e este é o campo da poética (estética). E é por isso que a filosofia e a poética não deveriam ser “politizadas”, uma vez que as duas primeiras não podem se submeter à última; tanto a filosofia como a poética são campos abertos, não estanques, enquanto a política ocorre no campo pragmático das ações imediatas. “A extensão da arte não nos causa desânimo, pois não temos consciência da brevidade da vida” (Oakeshott, 1993). A fruição é a vivência do presente, mas não limitada aos interesses políticos deste mesmo presente. A politização da poética, a fruição da linguagem, fez com que esta mesma linguagem se tornasse cada vez mais “erística”, um ambiente de conversação sem fruição.

Oakeshott nos mostra, no capítulo em exame, que a politização da poética (estética) trouxe malefício para ambas, já que a política, como já citado, não é fundamentação da poética, ao contrário; ao passo que a poética, para existir, precisa de fruição e não de delimitações imediatistas, muito menos racionalistas. Não à toa Oakeshott prefere apresentar suas ideias de forma ensaística.

Finalmente, podemos compreender que Oakeshott advoga a liberdade da experimentação, do diálogo, da subjetividade, da fruição, e é neste lugar que encontramos a arte, a poética, a estética.

Bibliografia

  • Bell-Villada, Gene. Art for Art, Sake and Literary Life, 1941, p. 47.
  • Marchiori Neto, Daniel Lena. Os fundamentos da civilidade no pensamento conservador de Michael Oakeshott. 2012.
  • Oakeshott, Michael. Religion and the world, Religion, Politics and the moral life, 1993, p. 34.
  • Oakeshott, Michael. John Locke. Cambridge review, n 54, 1932, p. 73.
  • Oakeshott, Michael. The meaning of culture. Cambridge review, n 51, p. 367.
  • Oakeshott, Michael. Cain. N 30, 1921, p. 61.
  • Podoksik, Efraim. The voice of Poetry in the Thought of Michael Oakeshott. Journal of the History of Ideas, vol 63, 2002, pp. 717-733. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/3654168?read-now=1&refreqid=excelsior%3Af8944e22faa7c7aaff3a3ce8aa24cf9d&seq=2#page_scan_tab_contents
  • Sullivan, Andrew. Intimations pursued. Tese Harvard, 1990.

[1] Vale ressaltar que o termo estética (arte) não é o presente no texto, mas foi utilizado por diversas vezes na apresentação, o que seria análogo à ideia de experimentação ou sensação, que culmina no conceito de “poética” (este sim utilizado por Oakeshott); já que poética faz parte da estética. Em Oakeshott, a poética ocorre como conversação, fala, diálogo, pensamento livre.

[2] Como se sabe, a Renascença foi um momento histórico propício para o surgimento de críticos a pensadores do medievo, como os escolásticos (silogismo). O mesmo ocorreria no Romantismo, ao criticar a forma racionalista de leitura de mundo. Luiz Carlos cita John Ruskin e Walter Pater, assim como Friedrich Nietzsche e Johan Huizinga, que sustentariam as críticas ao vitorianismo feitas por Oakeshott.

[3] Oakeshott, Michael. The meaning of culture. Cambridge review, n 51, p. 367.

Imagem: Michael Oakeshott (autor não identificado)

Sobre o autor

Fabiano Mina

Formado em Filosofia, mestre em Filosofia da Religião. Coordenador da pós-graduação da Faculdade Exato. Professor da pós-graduação da Faculdade Teológica Batista de São Paulo (História e Metodologia) e do Ensino Médio do Colégio Batista e Rede Pública Estadual. Pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.