A crise do amadurecimento na contemporaneidade

O peso do falso ser – Parte 2

Relacionamentos: o “novo” produto contemporâneo


Na falta de vivências traumáticas da ordem da frustração e do baixo repertório experiencial nos relacionamentos, a juventude tenta comprar o amor e, como resultado, temos instituições endurecidas e que, assim como itens da vida moderna, foram criadas para estragar e serem trocadas quando não mais servirem.

“Eu não aguento ver meu filho querendo namorar. O menino é lindo, com todo um futuro pela frente. Somos ricos, ele acabou de ganhar um carro, vai morar sozinho e fazer faculdade em outra cidade. Tem que pegar e não se apegar, ainda mais com esse monte de menininha fácil por aí. Pra que vai ficar se enfiando em namoro?”

Com essas palavras, proferidas por uma senhora com pouco menos de 50 anos, começo este artigo. Poderia aqui descrevê-la com alguns adjetivos e características, mas não preciso. Posso resumir tudo em: RESSENTIMENTO.

Não é novidade que a sociedade de consumo na qual vivemos e da qual nos beneficiamos está chegando ao seu ponto mais complexo. Novas gerações se formam sob os argumentos do individualismo e do capital como únicos fundamentos da existência.

Diversos estudos e pesquisas giram em torno desses jovens que não convivem socialmente, usam redes sociais compulsivamente, isolam-se em seus quartos e deixam de crer em Deus, em todas as suas formas. Para a psicóloga Jean Twenge,

O fosso religioso entre os pais e seus filhos universitários se alargou nos últimos anos; embora os estudantes universitários sempre fossem um pouco menos propensos do que os pais a se ligar a uma religião, o racha agora se tornou um abismo (TWENGE, 2018).

Além disso, contestam toda a experiência religiosa única e exclusivamente a partir das respostas que encontram nas duras teclas e telas de seus celulares. Posso dizer que pensam de forma pragmática, dura, muitas vezes sem os contornos que a vida oferece e podem, assim, segundo a filosofia, ser classificados como niilistas. Esses jovens criam realidades paralelas perfeitas e finalizam seus argumentos para quem discorda deles de forma cirúrgica, com a expressão, recorrente nas redes sociais, “OK, BOOMER” – que para ele distancia o outro pelo espaço de tempo, como se aquele que o contesta automaticamente desconhecesse o tempo presente.

Os mesmos pais que incentivam seus filhos a serem independentes, empreendedores e livres de relacionamentos, também encorajam seus pupilos a olharem para si como seres únicos da sociedade e que precisam ser servidos, como sempre foram em casa. Assim são formadas personalidades infantis (narcísicas), pois esses jovens chegam aos 28 anos e, ao serem repreendidos pelo chefe, têm crises de raiva ou depressão.

A régua subiu e não basta existir. Hoje, é necessário ser bonito, inteligente, esperto, divertido, descolado, ter boas notas, falar cinco idiomas, conquistar uma boa colocação no ingresso à Universidade, ter opinião política (que agrade aos pais), ser aluno referência na graduação, desenvolver suas teses de mestrado, doutorado e pós-doutorado e, durante ou depois disso tudo, ainda ser bem-sucedido na área escolhida pelos terapeutas e consultores contratados antes mesmo desse indivíduo nascer.

Parafraseando Zygmunt Bauman, no livro Vida para o Consumo, não existe a possibilidade de não preencher as expectativas da sociedade de consumo. Todos estão submetidos o tempo inteiro aos padrões que foram estipulados pelo mercado. Isso acontece justamente para a venda de produções monstruosas de tudo aquilo que não compõe o ser, mas que promove a sensação de que ele existe – pois possuindo esses itens ele tem a impressão de que pertencerá ao grupo e assim conseguirá existir.

Não é de surpreender que Twenge traga em seu livro relatos cada vez mais corriqueiros de adolescentes que não querem perder tempo de suas vidas entrando em um relacionamento. Eles convivem diariamente com casamentos fracassados ou rompidos e, apesar disso fazer parte da vida moderna, nem tudo é realmente tão prático, doce ou facilmente digerido e aceito.

A ruptura do casamento quebra também todas as expectativas e sonhos daqueles que o observaram, gerando grande desgaste emocional e traumas, mesmo que encobertos pela indiferença, resolutividade ou aceitação.

Os orientais costumavam restaurar suas peças de porcelana utilizando ouro nas emendas, para que o reparo nunca seja esquecido e também para reforçá-las. A partir disso, gostaria de levantar uma questão: Em tempos de descarte, seja por algum “defeito” ou pelo cansaço, será que existe a capacidade de compreensão do conserto das coisas e das instituições? Será que os envolvidos, infantilizados pela existência contemporânea, conseguem enxergar esses indícios como algo valioso?

A maior referência dos jovens é a instituição familiar que ele integra – independentemente de sua formação, pois já sabemos que, para eles, a sexualidade não é um problema. Será que a família que o mundo contemporâneo normalizou – em conflito ou separada – é realmente tão bem absorvida pelos seus membros?

Os casamentos têm sido baseados nas metas pretendidas por ambos os lados. Esposas querem maridos viris, lindos e ricos, e estes, por sua vez, desejam esposas que se pareçam com a Isabella Fiorentino e tenham elegância para sustentar as joias que eles precisam mostrar terem condições de comprar.

Na sociedade contemporânea, Bauman traz à luz uma vida constituída para o consumo e a transformação das pessoas em mercadoria. Nada mais claro para exemplificar isso do que os relacionamentos idealizados.

Com expectativas muito altas e sem recursos para sustentar adversidades, a existência do ser contemporâneo se complexifica e se organiza exatamente de maneira que o seu falso self esteja no front em tempo integral. Acordar, viver e dormir sendo alguém que preenche expectativas de diferentes núcleos da vida leva à exaustão. E na fuga dessa exaustão os millenials soçobraram, seja pela falta de vivência e de experiências adquiridas ou pelo excesso de pretensões. Acabaram por elevar à décima potência tudo aquilo de que um dia eles próprios tentaram se afastar.

Todos os dias alguém cria uma nova fórmula para o sucesso, para a vida plena, para a riqueza e por aí vai. Como zumbis, a sociedade do não-lugar é tomada também pelo não-eu e, por consequência, geraria uma não-sociedade e um não-viver.

São tantas libertações, que os jovens da geração seguinte, os iGen ou centennials, se voltam para dentro, pedem calma e iniciam uma busca por sentido. Creio que não estejamos falando aqui de uma busca fantasiosa, e sim real. Eles precisam e querem descobrir suas habilidades, experimentar as dores e, na ausência de lares que possam respaldar suas agonias, voltam-se para a fé. Não essa fé como produto que temos visto, mas a fé no outro, a fé de que algo pode mudar, a fé de que existe outro alguém além daqueles pais que estabeleceram suas metas. A fé como esperança.

Enquanto a sociedade de consumo detecta todas as lacunas dessa nova geração, ela vai criando e formando desde o berço os critérios e obrigações que aquela mãe e aquela criança terão e que, sem perceber o abandono das dicas da avó, são substituídos por tutoriais de do it yourself (“faça você mesmo”, em inglês), que já tratam esses filhos como mais um produto, oriundo de outro produto que foi o casamento.

O que não está sendo notado é que tudo foi criado para perecer, para ser destruído descartado e substituído. Para Bauman,

(…) a Síndrome Consumista envolve velocidade, excesso e desperdício. Entre as preocupações humanas, ela coloca as precauções da vinculação e do comprometimento de longo prazo e encurta radicalmente a expectativa de vida do desejo e a distância temporal entre a satisfação e o depósito de lixo (BAUMAN, 2008).

Baseado nessa análise do sociólogo polonês, faço uma observação: a repetição desse modus operandi nas relações interpessoais, sejam elas de ordem familiar, amorosa ou de trabalho.

A sociedade dos millennials se formou a partir das ideias de “deu errado, separa”, “quebrou, joga fora”, “não te faz feliz, troca”, e isso foi levado para a vida além das etiquetas de preço. Com valores que deixam de existir pelo respeito, pela fé e pela humanidade, tudo está sendo trocado o tempo todo, pois sempre haverá algo melhor esperando.

As trocas de way of life (“estilo de vida”, em inglês) dos jovens dizem muito sobre a necessidade deles de encerrar os ciclos e renascer. O grande problema é que o renascimento para a geração da tecnologia se dá em tamanha velocidade que nenhum vínculo consegue se estabelecer.

A hipocrisia da vida perfeita está invadindo a alma e misturando sombra e ser, colocando uma geração de zumbis nas ruas, consumindo vidas como se fossem camisetas.

Reportagem do Universa, site de comportamento jovem no grupo UOL, contém os seguintes dados:

[segundo] um estudo das universidades de São Francisco, na Califórnia, e de Widener, na Pensilvânia, em média, jovens americanos têm hoje 53 relações sexuais por ano, no lugar de 65 relações sexuais por ano, na década de 90. Já a revista “Archives of Sexual Behavior” aponta que 15% dos jovens americanos com idades entre 20 e 24 anos não tiveram nenhum parceiro sexual desde os 18 anos – situação que na década de 60 era registrada com apenas 6% das pessoas nesta mesma faixa etária.

Pela apuração de Jean Twenge, a nova geração, os iGen ou centennials, são menos propensos a fazer sexo na adolescência e no início da vida adulta, o que se justifica, segundo a autora, pelo medo da vulnerabilidade física e emocional acarretada pelo ato e pelos possíveis resultados indesejados como a gravidez. Sendo assim, temos, em paralelo, pais e mídia amedrontando os jovens sobre a vida sexual e, ao mesmo tempo, cobrando que eles vivam aqueles riscos assinalados. Talvez a necessidade que os mais velhos têm de que os jovens façam sexo esteja cada vez mais ligada à sua frustração por não terem experimentado tudo que gostariam, fazendo com que derramem seus traumas de não-vida sobre eles.

Podemos estar tratando de algo problemático em uma sociedade que envelhece, morre e pouco se renova. Observamos isso na política, inclusive, que é uma grande forma de enfrentamento e expressão desses jovens que foram criados para terem um olhar humanizado da vida e da sociedade, mas hoje são cobrados a integrarem uma engrenagem de consumidores que defendem seu poder de compra. Vale lembrar que esse tipo e comportamento são introjetados como modas na busca pelo reconhecimento, sendo também abarcados pelo mercado que os dissemina através da grande mídia e, em especial, pelo Lifestyle dos tão comentados influenciadores digitais, a nova onda midiática contemporânea. Sendo assim, cuidar do outro é mais um produto de marketing do que algo da ordem do consistente ou construído pela empatia.

Trocando em miúdos, esses pais ensinaram seus filhos a serem humanos, a respeitar as diferenças e os diferentes com educação e compaixão. Dentro das suas limitações, buscaram formar pessoas, mas hoje, soterrados de tanto ressentimento, estão impossibilitados de perceber que esses jovens são exatamente tudo o que eles ensinaram. Essa nova geração foi instruída a não passar por cima de ninguém e hoje é questionada justamente por pensar no outro.

O jovem tende a buscar fora de si aquilo tudo que falta em sua existência. Sendo assim, em uma sociedade moderna de poucos sentimentos vividos mas muito falados, pouco contato e muita tecnologia, muita pornografia e pouco sexo, os jovens podem estar buscando o que lhes falta: SENTIMENTO. No sentido mais inocente da palavra, sentir algo por alguém além da ganância e dos anseios pela conquista de um novo cargo.

O jovem implora por viver traumas e age como o adolescente que ele é, apesar de ser cobrado como se fosse um idoso (por viver e ter experiências de todos os tipos…). A sociedade das metas não está permitindo que a vida seja vivida e experimentada, o cuidado e o zelo viraram regras e fórmulas. A adolescência tem sido vivenciada de forma traumática, no sentido desse engessamento sob supervisão contínua, algo que o paralisa e impossibilita de vivê-la criativamente.

REFERÊNCIAS

GENERATION WEALTH. Lauren Greenfield. Amazon Prime.

BAUMAN, ZYGMUNT (1925-2017) Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria; Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

TWENGE, J. M. IGen: por que as crianças de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a idade adulta. Trad. Thaís Costa. 1ª ed. São Paulo: nVersos, 2018.

WINNICOTT, D.W. (1896-1971) Tudo começa em casa. Trad. Paulo Sandler. 5ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Conteúdo de internet

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2018/06/20/jovens-da-geracao-y-transam-menos-mas-tem-vida-sexual-de-melhor-qualidade.htm

Imagem: autor não identificado

Sobre o autor

Maycow Montemor

Jornalista, graduando em Psicologia e pesquisador dos grupos "Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade" e "Cultura do Consumo, Sociedade e Tendências" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.