A crise do amadurecimento na contemporaneidade

Como capturamos o mundo: como homens ou como elefantes?

Logo no início da graduação o aluno de psicologia pode ser apresentado à parábola dos seis cegos que tateiam um elefante a fim de descrevê-lo. É uma maneira elegante de os docentes enfatizarem a pluralidade de teorias sondando a realidade sem abarcá-la por completo, bem como de aplacar a necessidade da juventude de tomar partido de pronto. Serve também para fingir que todos os professores se dão bem em reuniões de departamento, muito cônscios da amplitude do elefante diante das mãos humanas. A brincadeira em sala de aula, menos mentirosa, é que ninguém quer apalpar o rabo do elefante, mas há certa disputa pela tromba – nada mais freudiano.

Paradoxalmente, a cegueira é uma das metáforas mais frequentes para falarmos em visões de mundo e da nossa dificuldade em chegarmos a qualquer acordo. Thomas Sowell, economista e intelectual público influente no cenário norte-americano, com especial didática, descreve duas visões filosóficas do ser humano que funcionam como o concreto-armado dos debates morais e políticos. “Todos nós temos visões”, escreve Sowell, e elas não são simples impulsos emocionais: elas têm consistência lógica e “são as moldadoras silenciosas de nossos pensamentos” (SOWELL, 2012, p. 13).

Visões, na perspectiva de Sowell, “são como mapas que nos guiam através de um emaranhado de complexidades desconcertantes” (SOWELL, 2012, p. 17) e são indispensáveis, porém perigosas, porque as confundimos com a própria realidade, sendo que cada uma delas parte de uma concepção diferente – senão oposta – acerca da natureza humana.

Para a visão restrita, por exemplo, o homem tem limitações morais, é inerentemente egocêntrico, lida com trocas e não com soluções: o homem da visão restrita quer contrapartidas. Já a visão irrestrita acredita no potencial humano, o homem é perfectível mediante progresso racional: o homem da visão irrestrita encontra soluções.

Obviamente que as duas visões não convivem muito bem uma com a outra. Não apenas porque divergem no pensamento, mas principalmente porque divergem na ação. A guerra, para a visão irrestrita, é contrária à natureza humana e é provocada pelas instituições. Para a visão restrita, a guerra tem origem na natureza humana e é contida pelas instituições. O crime ocorre porque as pessoas são pessoas, enquanto, na outra visão, o crime ocorre porque as pessoas são forçadas a cometê-lo por razões especiais, sociais ou psiquiátricas. O criminoso, na visão irrestrita, é vítima e requer reabilitação. A visão irrestrita localiza o mal, a visão restrita acha isso uma grande perda de tempo.

O conflito é, pois, inevitável. Estamos dispostos a nos sacrificar por nossas visões, diz Sowell, “fazemos praticamente qualquer coisa por nossas visões, exceto pensar a respeito delas” (SOWELL, 2012, p. 14). O pediatra e psicanalista inglês D.W. Winnicott escreve que, na psicanálise, “o tratamento começa quando é dada a primeira interpretação trazendo para a consciência algum elemento do material apresentado, capaz de ser explicitado, mas não inteiramente aceito pelo paciente” (WINNICOTT, 1990, p. 109).

Algo muito parecido com a proposta subjacente em Sowell: “o convite à reflexão que Sowell nos faz pode trazer incômodos” (AMED, 2011). “Em poucas palavras, o mundo quase sempre não se ajusta aos nossos desejos mais cândidos, mesmo que eles venham perigosamente travestidos de beleza e bondade” (AMED, 2011, p. 49). E a visão irrestrita carrega o charme do otimismo debruçado na suposição de uma perfectibilidade humana capaz, inclusive, de lidar bem com seus semelhantes, consigo mesma e com as contingências. Sowell não pede para perdemos as esperanças: ele pede para sermos céticos.

Segundo o economista, “uma vez que alguém fica emocionalmente comprometido ou é publicamente associado a determinada teoria, seu fracasso diante da evidência representa custos psíquicos que podem ser dolorosos” (SOWELL, 2012, p. 244). O modo como deve agir o analista, para Winnicott, de colocar as coisas em palavras e tolerar o conflito (WINNICOTT, 1990, p. 110), é tarefa difícil para todo mundo.

“Um colega tão revolucionário e desconfortável para os psicanalistas quanto fora para os pediatras” (escreveu M. Masud R. Khan, na introdução da obra “Da pediatria à psicanálise”, p. 14), Winnicott dava valor à realidade psíquica. Para ele, a fantasia apresentada pelo paciente é real em seu próprio sentido (WINNICOTT, 1990, p. 113). “O controle onipotente da realidade implica em fazer fantasias sobre a mesma. O indivíduo chega à realidade externa através de fantasias onipotentes elaboradas no esforço de escapar da realidade interna” (WINNICOTT, 2000, p. 14). Assim, “a fantasia é uma parte dos esforços do indivíduo para lidar com a realidade interna” (WINNICOTT, 2000, p. 200).

Vale destacar que a realidade interna é construída no curso de sua relação com a realidade externa. “O mundo interno é dotado de uma estabilidade própria, mas as mudanças que nele ocorrem estão relacionadas a experiências do self global no mundo dos relacionamentos externos” (WINNICOTT, 1990, p. 104).

Afinal, como nós capturamos o mundo? Como homens ou como elefantes?

Antes um empréstimo de um episódio entre Masud Khan e Winnicott: “É claro que estava brincando”, reflete o psicanalista paquistanês-britânico na introdução da obra “Da pediatria à psicanálise” (WINNICOTT, 2000, p. 17), sobre a resposta de Winnicott à sua insistência para ler um determinado livro[1]. Winnicott “estava brincando tanto comigo quanto consigo mesmo, e para isso ele era um tanto endiabrado. Mas estava dizendo a verdade, e a verdade conosco, seres humanos, só funciona através da metáfora ou do paradoxo”.

Por falar em metáforas, há uma piada escrita pelo psicólogo Steve Andreas, no livro Six Blind Elephants,que inverte a parábola dos cegos tateando o elefante: seis elefantes cegos queriam descobrir como era um homem sábio (SHAFFER, 2017, p. 95). O primeiro elefante cego sentiu o homem sábio e concluiu que os “homens sábios são chatos”. Então os outros elefantes cegos sentiram o homem sábio e eles todos concordaram: “homens sábios são chatos”.

Traçando uma aproximação entre as visões de Sowell e as fantasias de Winnicott, será que poderíamos fazer um paralelo com dois cegos tateando a mesma parte do mesmo elefante? Provavelmente, sim. Andreas conclui sua piada com um trecho do físico alemão Werner Heisenberg: “o que nós observamos não é a natureza em si mesma, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento” (SHAFFER, 2017, p. 95).

E a verdade, ao que parece, é que nós só concordamos uns com os outros quando capturamos o mundo como elefantes: pisoteando homens.

Referências bibliográficas

Amed, F. Thomas Sowell: da obrigação moral de ser cético. Coordenação Luiz Felipe Pondé, curadoria Jorge Feffer. 1 ed., São Paulo: É realizações, 2011.

Shaffer, D. W. Quantitative Ethnography. Estados Unidos: Cathcart Press, 2017.

Sowell, T. Conflitos de visões: origens ideológicas das lutas políticas. Trad. Margarita Maria Garcia Lamelo. São Paulo: É realizações, 2012.

Winnicott, D.W. Natureza humana. Trad. Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1990.

_____________. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas; com uma introdução de Masud M. Khan. Trad. Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2000.

[1] “Não adianta me pedir para ler nada, Masud. Se o livro me aborrece, caio no sono no meio da primeira página. E se me interessa, eu começarei a reescrevê-lo no fim daquela página” (WINNICOTT, 2000, p. 17).

Imagem: Heritage Library

Sobre o autor

Carolina Rabello Padovani

Pós-doutora em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Doutora e Mestre em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Especialista em Neuropsicologia pelo CEPSIC do HCFMUSP. Psicóloga, bacharel e licenciada pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político e pós-doutoranda no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.