Arte sacra contemporânea: religião e história

Assunção de N. Senhora: na Dormição a morte não é o fim de tudo

Os Evangelhos não falam sobre o fim da vida de Maria, porém existe uma antiga Tradição Patrística com informações provindas dos apócrifos que deu base ao Ofício Litúrgico do dia 15 de agosto.

Enquanto no Ocidente a Solenidade se denomina “Assunção da Virgem Maria”, no Oriente, em grego ou eslavo, é a Dormição da Mãe de Deus que se refere aos últimos instantes terrenos da Virgem, quando, segundo a Tradição, os apóstolos se reuniram ao seu redor e Cristo veio buscar sua alma.

A Dormição é a última das grandes festas do ano litúrgico bizantino. Na Igreja Católica Ortodoxa, o Ano Litúrgico começa em 8 de setembro, com a Natividade da Virgem, e termina em 15 de agosto, com a Dormição.

Figura 1: Dormição de Maria. Ícone. Monastério de Santa Catarina, Monte Sinai, Egito. Século XIII.


Essa festa permaneceu comum no Oriente e no Ocidente por mais de um milênio. Há representações iconográficas na Basílica Santa Maria Maior e na Basílica Santa Maria in Trastevere, ambas em Roma. O termo Assunção, que provém da França, é bem mais tardio.[1]

Figura 2: Pietro Cavallini. Dormição da Virgem. Mosaico. Basílica de Santa Maria in Trastevere, Roma, Itália. Séculos XIII-XIV.


As narrativas da Dormição fazem parte dos escritos apócrifos do Novo Testamento, que constituem uma literatura florescente nos primeiros séculos da Igreja. O desenvolvimento destes relatos sobre a morte da Mãe de Deus deve-se ao Concílio de Éfeso (431), que fixou a atenção sobre a eminente dignidade da Virgem Maria. Nesse Concílio, Maria recebeu o título de Theotokos, quer dizer,a Mãe de Deus.

O relato geral sobre o destino de Maria é semelhante nesses textos apócrifos, apenas com certas variações. Maria recebe o anúncio da sua morte, pelo Arcanjo Gabriel, que lhe dá uma palma. Ela prepara então tudo o que é necessário e profere a sua última oração. Os apóstolos e discípulos são milagrosamente transportados pelas nuvens. Os doentes reúnem-se perto da casa de Maria em Jerusalém, onde muitas maravilhas se manifestam. Jesus aparece para acolher a sua mãe, acompanhado por falanges celestes. Recebe então a alma de Maria.

O Papa Pio XII, em 1º de novembro de 1950, definiu o Dogma da Assunção da Virgem Mãe de Deus à glória celeste de alma e corpo. Na Constituição, o Pontífice usou a riqueza das fontes das liturgias orientais em muitas referências, dentre as quais afirma que: “E na liturgia bizantina a assunção corporal da virgem Maria é relacionada diversas vezes não só com a dignidade da Mãe de Deus, mas também com os outros privilégios, especialmente com a sua maternidade virginal”.[2]

Na Constituição do Papa Pio XII, é relatado um breve hino extraído também de uma festa bizantina recitada pelos cristãos de tradição constantinopolitana: “Deus Rei do Universo, concedeu-vos privilégios que superam a natureza; assim como no parto vos conservou a virgindade, assim no sepulcro vos preservou o corpo da corrupção e o conglorificou pela divina translação.”[3]

No mesmo documento, Pio XII cita São João Damasceno, pois o Santo Doutor da Igreja “se distingue como pregoeiro dessa tradição”, e lembra também São Germano de Constantinopla, que é autor do hino das vésperas que se segue: “Vinde de todos os confins do Universo, cantemos a bem-aventurada trasladação da Mãe de Deus. Nas mãos do Filho ela depositou a sua alma sem pecado, com a sua Santa Dormição o mundo é vivificado, e é com salmos e cânticos espirituais, em companhia dos anjos e dos apóstolos que Ele a celebra na alegria.”[4]

No ícone, a alma de Maria está nas mãos de Cristo, como está escrito no livro da Sabedoria 3,1: “a alma dos justos está nas mãos de Deus”. Cristo tem nas mãos a alma de sua Mãe, e a segura com a mesma ternura com a qual ela tinha nos braços o Deus encarnado, o Menino Jesus. Observamos a realidade da morte: a alma sai do corpo, mas não desce ao sheol, aos infernos, como corresponderia a concepção hebraica, nem mesmo sai direto para o céu.

Existe algo surpreendente e dogmático e mais profundo no ícone. A Mãe de Deus não está na cena central subindo aos céus. Ao contrário, é Cristo que desce à Terra em Glória, cercado de querubins, assim como será no final dos tempos.

E a passagem desta vida a outra se efetua, portanto, por meio de Cristo, da sua Presença. Por sua Mãe, a última vinda de Cristo é de certa forma antecipada, porque Maria é o escathon,quer dizer, a última perfeição da Criação. Assim, a Igreja encontra aqui a sua melhor expressão para a Segunda Vinda de Cristo à Terra: é a realidade do futuro que se espera, porém para os Santos está sempre já presente.

A Dormição da Mãe de Deus é a expressão firme desta esperança, plena de certeza. O significado de tal ícone pode ser expresso por este pensamento de Cristo: “se a Mãe me deu um corpo físico agora eu lhe dou a vida eterna”.[5] De fato, se a figura central no ícone da Natividade era a Virgem, aqui, Cristo tem nos braços a Mãe como uma criança, isto é o novo nascimento da Virgem.

Figura 3: Marko Ivan Rupnik. Dormição. Santuário Nacional de Mátraverebély-Szentkút, Hungria, 2014.
Figura 4: Marko Ivan Rupnik. Dormição. Santuário Nacional de Mátraverebély-Szentkút, Hungria, 2014.


Deus é amor (1Jo 4,8) e tudo o que está envolvido no amor passa para a eternidade porque está escrito: que o amor dura eternamente (I Cor 13, 8). Passa-se para a eternidade com cada gesto de amor realizado, pois cada gesto de amor passa de fato à eternidade, para a memória eterna de Deus. O amor torna eternas as coisas. Maria, que pelo fiat, na Anunciação, foi penetrada pelo amor divino, não poderia ter seu corpo subjugado à corrupção da terra. A Dormição é o grande mistério, pleno de esperança para todos os nossos pequenos gestos de amor.[6]

Figura 5: Marko Ivan Rupnik. Dormição da Virgem. Igreja Madre Nostra. Pistoia, Itália, 2018.


A liturgia da festa não se limita a assinalar a morte de Maria, ultrapassa essa dimensão ao celebrar a passagem de Maria ao céu em corpo e alma. Isso está claramente representado no ícone da Dormição. Maria pode ser considerada como aquela que tem uma morte santa, ela é o nosso modelo na prova da morte. A passagem de Maria em corpo e alma ao céu é uma antecipação da ressurreição geral. É a festa da natureza humana: todo crente deve tomar Maria como modelo para alcançar a deificação.

A Assunção “comemora um fato e atualiza a doutrina e projeta sobre a nossa vida transitória uma luz de eternidade. Esse fato, embora não relatado pela Escritura, se tornou uma realidade na consciênciada Igreja através da Tradição. Maria, que é mulher e que morre na terra como todo ser humano, alcança o seu Filho que é Deus e que está no céu. Ademais, esta mulher que podemos legitimamente chamar de representante da humanidade enquanto Nova Eva, mulher perfeita enquanto Pura Mãe de Deus, não perdeu nenhum de seus atributos naturais, não se abstraiu em alguma alegoria impalpável: ela permanece Maria. Mas o que ela é, no resplendor do seu ser real, as festas no-lo desvelam”.[7]

Contemple as imagens acima apresentadas, cujos símbolos unem o mundo sensível ao suprassensível, reduzem a distância e permitem viver um tipo de contemporaneidade. É uma realidade espiritual onde espiritual é tudo o que, na ação do Espírito Santo, se fala de Deus, se recorda de Deus, se comunica com Deus e se conduz a Deus.

[1] DONADEO, 1988, p. 67.
[2] Constituição Apostólica do Papa Pio XII – Munificentissimus Deus – sobre a definição do dogma da Assunção de Nossa Senhora em corpo e alma ao céu.
[3] Idem.
[4] DONADEO, 1988, p. 66.
[5] RUPNIK, Marko Ivan.; ŠPIDLÍK. p. 103.
[6] Cf. RUPNIK, Marko Ivan.; ŠPIDLÍK. La fede secondo l’icona. p. 104.
[7] DONADEO, 1988, pp. 66-67.

Bibliografia

DONADEO, Maria. O ano litúrgico bizantino. São Paulo: Editora Ave Maria,1988.

DONADEO, Maria. Os ícones de Cristo e dos Santos. São Paulo: Editora Ave Maria, 1997.

MARCOS, José João dos Santos. A beleza da Virgem Maria: 12 catequeses sobre Nossa Senhora. Lisboa: Paulus Editora, 2017.

RAVASI, Gianfraco. Os rostos de Maria na Bíblia. Tradução Maria Pereira. Lisboa: Paulus Editora, 2008.

RUPNIK, Marko Ivan.; ŠPIDLÍK, Tomas. La fede secondo le icone.  Roma: Lipa, 2000.

Créditos das imagens

Figura 1: Dormição de Maria. Ícone. Monastério de Santa Catarina. Monte Sinai, Egito. Século XIII.
Disponível em <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Koimesis_Icon_Sinai_13th_century.jpg>

Figura 2: Pietro Cavallini. Dormição da Virgem. Mosaico. Santa Maria in Trastevere. Roma, Itália. Séculos XIII-XIV.
Disponível em <https://it.wahooart.com/@@/8Y35YM-Pietro-Cavallini-Arco-absidale:-6.-Dormizione-della-Vergine>

Figuras 3:  Marko Ivan Rupnik. Natividade. Santuário Nacional  de Mátraverebély- Szentkút, Hungria. 2014.
Disponível em  <https://www.centroaletti.com/opere/santuario-nazionale-matraverebely-szentkut-2014/>           

Figuras 4:  Marko Ivan Rupnik. Dormição. Santuário Nacional de Mátraverebély- Szentkút, Hungria. 2014.
Disponível em <https://www.centroaletti.com/opere/santuario-nazionale-matraverebely-szentkut-2014/>

Figura 5: Marko Ivan Rupnik. Dormição da Virgem. Igreja de Maria Madre Nostra. Pistoia, Itália. 2018.
Disponível em <https://www.centroaletti.com/opere/chiesa-di-maria-madre-nostra-a-pistoia-2018/>

Imagem de abertura: Marko Ivan Rupnik/Centro Aletti

Sobre o autor

Wilma Steagall De Tommaso

Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS SP). Membro Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Coordenadora do grupo de pesquisa Imagem de Deus: Religião, História e Arte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.