Núcleo de Filosofia política

Por que o Brexit foi inevitável?

O vício da reflexão política contemporânea reside em lançar uma excessiva visão sobre o futuro e um escasso olhar sobre o passado” – Michael Oakeshott.

A saída do Reino Unido da União Europeia (UE), fenômeno conhecido mundialmente como Brexit, é um dos temas mais relevantes da atualidade no escopo das relações internacionais e da filosofia política. Diante disso, o objetivo deste artigo é entender as motivações e as razões desse processo. Dois pensadores ingleses podem nos ajudar nessa empreitada, Michael Oakeshott (1901-1990) e Roger Scruton (1944-2020), os filósofos conservadores mais bem-sucedidos desde Edmund Burke (1729-1797). A partir de Oakeshott, veremos se o Brexit foi uma política de fé ou de ceticismo, enquanto as abordagens de Scruton demonstram as raízes do Brexit por meios históricos, sociais, culturais e institucionais.

Na concepção de Michael Oakeshott e Roger Scruton, os tomadores de decisão britânicos, na maioria das vezes, preferiram reformas graduais à revoluções de caráter radical, pautando suas ações em princípios sólidos que sobreviveram aos testes do tempo e foram lapidados no decorrer da história – inclusive no que diz respeito à preservação da soberania nacional e das instituições tipicamente britânicas, rejeitando proposições racionalistas, no sentido oakeshottiano da palavra. Ambos concordam que a sociedade inglesa é governada de modo endógeno, por tradições, costumes, compromissos e pelo hábito da razoabilidade, que é a antítese do racionalismo. Mas antes de iniciar as análises filosóficas sobre o Brexit, faz-se necessário demonstrar qual foi o curso do processo na prática.

Em 2013, o então Primeiro-Ministro conservador David Cameron prometeu convocar um referendum caso seu partido vencesse as eleições de 2015, objetivando descobrir a opinião pública sobre a permanência do Reino Unido da União Europeia. Com sua vitória eleitoral, realizou o referendum, em 2016,  no qual 52% dos votantes foram favoráveis à saída da UE. Cameron, por ser contrário a essa proposta, renunciou ao cargo de Primeiro-Ministro, sendo sucedido por Theresa May, também do Partido Conservador.

Theresa May objetivava uma saída negociada. Durante três anos, May negociou os possíveis acordos para o Brexit, interna e externamente. Os parlamentares favoráveis ao Brexit sofreram duras críticas dos opositores e, principalmente, das elites que administram o corpo burocrático dos organismos supranacionais pertencentes à União Europeia. Em âmbito nacional, vários foram os embates na Câmara dos Comuns, envolvendo parlamentares conservadores, trabalhistas, liberais-democratas, nacionalistas escoceses e de demais partidos. A falta de convergência e acordo dentro da Câmara dos Comuns culminou no desgaste da imagem de May, que renunciou para a entrada de seu partidário Boris Johnson, em julho de 2019.

As manobras políticas de Boris Johnson, a exemplo da prorrogação do recesso parlamentar, autorizado pela Rainha Elizabeth II, foram cruciais. Esse ato de Johnson serviu para diminuir o tempo de negociação no Legislativo, uma vez que havia certo receio de que este poder desaprovasse o Brexit. Para o Primeiro-Ministro, a saída deveria ocorrer, independentemente de acordo com a União Europeia. Isso demonstra o quanto a opinião pública é forte no Reino Unido, dado o resultado do referendum. Ademais, o fato da Rainha Elizabeth II ter aceitado o pedido de Johnson mostra a importância da Monarquia enquanto instituição fundamental no equilíbrio de poder.

Em outubro, Boris Johnson se viu, então, obrigado a solicitar à União Europeia um novo prazo para o divórcio, que foi concedido pelo bloco, estipulando o dia 31 de janeiro de 2020 como data limite para a saída do Reino Unido. Sem consenso entre os parlamentares, Johnson fez o que muitos consideraram uma jogada de mestre: convocou novas eleições gerais para dezembro. E, sem precisar de coligações, reafirmou-se no cargo de Primeiro-Ministro – o Partido Conservador conquistou uma ampla maioria das cadeiras na Câmara dos Comuns, o que facilitou a conclusão do processo, já que grande parte dos parlamentares conservadores eram favoráveis ao Brexit.

Desde que aderiu à Comunidade Econômica Europeia (antecessora da UE) em 1973, o Reino Unido tem sido um dos principais membros em razão de sua capacidade econômica, know how político e da imagem histórica do país. Valorosos esforços foram feitos por eles no que diz respeito à integração do continente europeu em termos econômicos. Por outro lado, o Reino Unido restringiu algumas iniciativas consideradas idealistas, como o aprofundamento das relações e das instituições políticas supranacionais.

A União Europeia, desde o início, foi visivelmente uma iniciativa Franco-Germânica. O Reino Unido, por sua vez, sempre manteve um postura moderada e prudente, oferecendo contrapontos em diversos assuntos relacionados ao bloco. Enquanto a maioria dos governos da Europa continental tentava parecer favorável às visões europeístas de integração nos mais variados setores, o Reino Unido, em virtude de sua posição geográfica, tradição de política externa, tamanho da economia, costumes, hábitos (composições históricas) e contingências, presava por uma integração mais contida. Os interesses britânicos, em várias ocasiões, diferiam dos anseios da União Europeia, abalando a relação entre a Terra da Rainha e a burocracia de Bruxelas.

A data de 31 de janeiro de 2020 marca o fim do casamento entre Reino Unido e União Europeia. Mas houve um período de transição de onze meses, ou seja, até o final de 2020, o Reino Unido esteve sujeito às normas da União Europeia. Em 2021, o país tornou-se livre para assinar acordos, tratados e realizar negociações, estabelecendo novas relações com os demais países e blocos presentes na sociedade internacional.

Após essa contextualização a respeito do Brexit enquanto processo político, entenderemos, através da filosofia política, os reais motivos dessa escolha feita pelos britânicos. Michael Oakeshott, no artigo Racionalismo na Política, publicado em 1947, expressa a ideia de que o racionalismo político, por ser baseado inteiramente no poder da razão, visa reduzir todas as experiências humanas em um conjunto de valores abstratos e universalistas. A mentalidade racionalista, na concepção oakeshottiana, opõe-se às tradições, aos costumes e hábitos herdados. Oakeshott critica ferozmente o racionalismo, notando a impossibilidade de encaixar a experiência humana em meras abstrações deduzidas por cálculos racionais.

A política, diante disso, não pode ser concebida através de ideias definitivas e universais, ou melhor, a experiência humana, para Oakeshott, jamais pode ser compreendida por meio de métodos reducionistas, visto que estes edificam princípios universais, únicos e estáticos, os quais não se aplicam às micro-realidades concretas. Os racionalistas também são avessos a reformas graduais, tentam encaixar a realidade factual dentro de suas utopias. Eles descartam a prática e acreditam que os arranjos sociopolíticos podem ser escolhidos de modo deliberado, seguindo o receituário ideológico programático (OAKESHOTT, 1991).

Ao rejeitarem o pensamento racionalista segundo o qual haveria apenas uma resposta correta, pautada na potencialização da razão, descoberta pela análise metódica dos fatos e universalmente imposta por meio de princípios abstratos, os britânicos favoráveis ao Brexit se aproximaram daquilo que Oakeshott define como “conhecimento prático”. Este tipo de conhecimento é adquirido pelo hábito, pela observação e pela participação, sendo acumulado ao longo do tempo. Não que o conhecimento técnico – defendido pelos racionalistas e oposto ao prático – seja dispensável, ele também é extremamente importante, mas é incapaz de contemplar tudo.

Ao pensarmos na sociedade inglesa, considerando instituições e cultura, é nítido que a ética se constrói pelo hábito, não por princípios universais. Oakeshott, diante disso, ataca o racionalismo por este desprezar qualquer conhecimento de natureza não lógico-dedutiva, afirmando que a contingência é o oposto lógico do racionalismo. Dessa forma, os conservadores, naturalmente críticos aos racionalistas, dizem que estes eliminam qualquer concepção e reflexão moral presente no corpo social, restando a eles apenas os rastros amargos de valores totalizantes e genéricos. Os vínculos sociais, a condição moral e a experiência humana são dissolvidos pelo império da tecnocracia.

O Brexit foi um modo encontrado pelos britânicos para se reencontrarem com seus hábitos, costumes e modo de vida, elevando a experiência humana em detrimento das “teorias de gabinete”. Eles entenderam que a realidade não se dobra ao cálculo abstrato, ou seja, é impossível construir uma sociedade “ideal” a partir de métodos racionalistas. Oakeshott nos dizia que “um mundo de indivíduos pode compor muitas melodias, mas não pode ser orquestrado por um único compositor ou mesmo uma única equipe de compositores, mesmo se forem geniais”(OAKESHOTT, 2018).

Tendo em vista a exegese oakeshottiana, é importante mencionar que, historicamente, a Inglaterra se desenvolveu de maneira afastada da Europa continental – sua posição insular provocou um desenvolvimento extremamente particular em aspectos políticos e culturais, a exemplo do pioneirismo na limitação do poder real e do Common Law. Além disso, a proeminência do Parlamento e a noção de equilíbrio de poder já estão presentes desde os primórdios da política britânica e, posteriormente, o poderio naval complementou essa tríade que consolidou as bases de sua política externa.

Esses três princípios foram reformados conforme a conjuntura de cada período, o que permitiu a conservação dos mesmos. Esses atributos de política externa não foram constituídos por ideias abstratas, eles se solidificaram de maneira gradual e orgânica, caminhando rumo à continuidade. O pensamento britânico para política externa deriva da identidade nacional, ou seja, dos costumes e instituições herdadas do passado. Seguindo essa lógica, o Brexit não foi nenhuma surpresa.

Percebe-se que o Reino Unido preferiu se afastar, dentro dos limites da realidade, dos incessantes imbróglios que conturbam o continente europeu e, nas vezes em que participou de conflitos armados, teve o intuito de manter o equilíbrio de poder, estabilizando a situação. O tradicional isolacionismo inglês demonstra que o país prioriza a manutenção da soberania e da autonomia ante os movimentos de integração e aprofundamento das relações com a Europa continental. 

Mesmo tendo enfrentado ameaças durante longos períodos da história mundial, marcados por crises, revoluções e guerras, os três pilares da política externa britânica sobreviveram aos testes do tempo, mantendo-se como os principais alicerces que orientam as decisão dos policy-makers. As Guerras Mundiais e os avanços totalitários no cenário mundial não minaram o poder decisório do Parlamento de Westminster, a Ordem Bipolar não solapou as tentativas inglesas de manter, dentro dos limites possíveis, o equilíbrio de poder, e a queda do Império Britânico não resultou na falência do poder naval nacional, nem no esfacelamento da Commonwealth. Essas práticas e instituições referentes à política externa britânica, ao serem pragmaticamente readaptadas conforme as necessidades de cada época, foram lapidadas, resistindo a grandes ameaças.

Ao olharmos para a história inglesa, é possível constatar que as orientações de política externa são frutos do ceticismo. Os fundamentos estão ligados a fatores históricos, institucionais, geográficos, culturais e tradicionais do país. É impossível entender qualquer evento e decisão que envolve a Inglaterra sem considerar valores tipicamente britânicos, a exemplo do direito consuetudinário (Common Law), da limitação do poder real, dos costumes e hábitos, da religião anglicana e da posição insular ocupada no continente europeu. Como já foi mencionado, a disposição política britânica não foi formulada por vontades exclusivas de um único organismo tecnocrático, nem mesmo por burocratas entusiasmados a reinventar os rumos da humanidade. As contingências de cada período histórico, acompanhadas das especificidades nacionais, são refletidas nos parâmetros de ação do Reino Unido em suas decisões no ambiente internacional e doméstico.

Tendo mencionado essas circunstâncias, faz-se necessário recorrer novamente a Michael Oakeshott, complementando a análise através de argumentos presentes na obra póstuma A Política da Fé e a Política do Ceticismo. Para Oakeshott, o primeiro princípio existente na política da fé é o de que a atividade humana consiste na incessante busca pela perfeição. Nesse tipo de política, a racionalidade é aplicada de maneira sistemática pela intervenção do idealizador, sendo este, normalmente, um governo ou um outro aparato burocrático.

A política da fé visa salvar a humanidade dela própria, objetivando um excesso incomum denominado perfeição. Nessa interpretação, o poder e a razão humana são suficientes e ilimitados, sendo capazes de prover a salvação, causando um aumento abrupto de poder. O governo dirige as atividades e tenta adaptar a sociedade ao padrão normativo imposto, desprezando as contingências e os hábitos em prol das abstrações vinculadas aos princípios universalistas. A comunidade se torna uma fábrica, e as atividades corriqueiras devem promover a perfeição. A política da fé é, praticamente, o racionalismo na política (OAKESHOTT, 2018).

Por outro lado, a política do ceticismo, desvincula-se da busca pela perfeição humana, entendendo que esta é uma ilusão. Não sabemos, ao certo, quais são as condições ideias da perfectibilidade. Sendo assim, a política do ceticismo não está baseada em doutrinas sobre a natureza humana, mas em uma leitura sobre a conduta humana. O primeiro objetivo dos céticos é manter a ordem e o curso natural das coisas e, quando possível, aprimorar a gama de direitos e deveres, propondo melhorias. A atividade do governo, portanto, não é determinar as atividades por meio de abstrações, e sim evitar que certas práticas se tornem nocivas à ordem social (OAKESHOTT, 2018).

Em resumo, na política do ceticismo, o governo é como bom humor e sátira; um não nos levará ao céu e o outro não revela a “verdade”, mas o primeiro pode nos salvar do inferno, e o segundo da estupidez (OAKESHOTT, 2018, p. 74).

Governar, na concepção cética, não é entusiasmante, muito menos heroico. No caso britânico, a política do ceticismo está amplamente vinculada a uma herança que menciona instituições que não precisam de nenhum requinte abstrato para preservarem direitos e deveres e manterem a ordem moral em plena vigência. É possível afirmar que, segundo Oakeshott, o exercício do poder jamais estará a serviço da perfeição humana – o que realmente importa são as contingências, ou seja, “a história da reformulação perpétua de uma compreensão do governo para mantê-la relevante às circunstâncias correntes”(OAKESHOTT, 2018).

Desse modo, a política do ceticismo detecta o que está ocorrendo e compreende como o governo deve agir de forma mais econômica em sua função, visando sempre preservar o equilíbrio e a ordem para que as atividades sociais continuem e, por fim, garante a orientação da atividade política para esse propósito. “O governo deve ser como o alho de cozinha, utilizado de forma que apenas sua ausência seja notada” (OAKESHOTT, 2018). Nessa disposição, a noção de rule of law é importantíssima, pois evita abusos de poder e estipula uma associação entre governantes e governados, presente e passado, encorajando a postura prudente como atributo da conservação

Oakeshott tende a defender a política do ceticismo perante a da fé, que está em ascensão, e, para tanto, se vale da figura do “estivador”,“alguém que compreende a tradição política de forma abrangente, não se irritando com suas limitações, mas disposto a considerar novas possibilidades (OAKESHOTT, 2018 ). Para ele, a virtude é a média entre as extremidades. O estivador, seguindo esse raciocínio, mesmo estando mais inclinado ao ceticismo, é capaz de manter o equilíbrio e a moderação, sendo um personagem político complexo e caracterizado como um “servidor do tempo” (OAKESHOTT, 2018).

A política estivadora procura cultivar a prudência e a moderação. Ela se vale do conhecimento prático não com a intenção de chegar com mais rapidez ao destino, mas com o intuito de manter o barco navegando com segurança durante todo o percurso. Talvez a imagem mais bela dessa metáfora seja a de que o destino de todos acaba recaindo nas mãos do mais singelo dos tripulantes, provando que a virtude da política reside na experiência e no comedimento (OAKESHOTT, 2018, p. 222).

Oakeshott, mesmo preferindo o ceticismo, demonstra o quão importante é encontrar o ponto de equilíbrio, de forma que os exageros sejam evitados, “harmonizando um navio que navega em um mar sem limites e abismal” (OAKESHOTT, 2018). Seguindo a linha de raciocínio do autor, pode-se afirmar que prudência e gradualismo são concepções indissociáveis da disposição conservadora. Seguiremos entendendo os fundamentos do Brexit com um conterrâneo de Oakeshott, Roger Scruton.

Na interpretação de Scruton, expressa em sua obra póstuma denominada Brexit: Origens e Desafios, o fato da Inglaterra ocupar uma posição insular, localizada na Ilha da Grã-Bretanha, permitiu o desenvolvimento de leis, costumes e instituições de um tipo particular, compartilhando algumas características semelhantes às da Europa continental, mas exibindo notáveis diferenças em áreas significativas. Inúmeros exemplos da originalidade inglesa podem ser vislumbrados ao olharmos para o passado do país – a proeminência do Parlamento sendo um deles. O Parlamento foi uma das principais instituições que articulou tanto a entrada quanto a saída do Reino Unido da União Europeia. Tradicionalmente, a Inglaterra opõe-se à centralização do poder na Europa, mantendo uma posição cética e receosa em relação aos ânimos continentais.

Para Scruton, diversas são as razões para o surgimento de um movimento favorável à saída do Reino Unido da União Europeia. Vários cidadãos ingleses não se sentem parte da política europeia e, ao olharem para as decisões tomadas por esses “representantes” europeus, não enxergam o reflexo de suas prioridades. Isso contribui para a crise de representatividade da União Europeia, o que causa extrema descrença na funcionalidade dessa organização supranacional. Afinal, o que é ser europeu em um continente repleto de nações e nacionalismos?

O déficit democrático da UE é um ponto crucial na análise de Roger Scruton. Já o Reino Unido, durante a história, soube preservar e remodelar as instituições de modo prudente e pragmático. Nos dias de hoje, as mais variadas camadas sociais são representadas e possuem voz ativa na sociedade britânica. A Monarquia sobreviveu aos testes do tempo, garantindo estabilidade ao país; a aristocrática Câmara dos Lordes foi remodelada, no intuito de ser preservada e continuar dando voz aos lordes temporais e espirituais; a Câmara dos Comuns, principal locus da tomada de decisão política, é composta pelos representantes do povo, consolidando o viés democrático; e os ministros do Gabinete, nomeados pelo Primeiro-Ministro que forma um governo em nome da Rainha, tomam importantes decisões. O sistema de freios e contrapesos no Reino Unido é complexo, porém eficiente, pois evolui de maneira natural conforme as necessidades de cada época.

É possível sintetizar, a partir de Scruton, quatro razões principais que motivaram o Brexit. Primeiramente, é uma questão de identidade. Vale ressaltar que o Reino Unido sempre foi um país “complicado” no que diz respeito ao processo de integração da Europa – a identidade britânica continua sendo colocada pelos nacionais acima da identidade europeia. Os britânicos sempre foram favoráveis ao comércio com a Europa, mas nunca se esforçaram pela integração política, muito menos pelo aprofundamento da União Europeia. Vale lembrar que o Euro não foi adotado, nem integram o Espaço Schengen, ou seja, a adesão à UE foi celebrada “pela metade”.

Scruton, ao retomar a ideia de Burke, diz que os seres humanos são colocados juntos por acidentes que não escolhem e derivam seus afetos não de suas decisões, mas de suas circunstâncias. E o patriotismo discreto impede que o extremismo, o nacionalismo exacerbado e a tecnocracia tomem conta da consciência ordinária. O Brexit, dessa forma, é o retorno ao oikos, ou seja, ao lar, estando em harmonia com aquilo que Burke chamava de “pequenos pelotões”, que são “pontos focais de lealdades locais, porém duráveis” (SCRUTON, 2021).

Em segundo lugar, decorre de fatores históricos. É importante lembrar que o Reino Unido não foi ocupado pelo nazifascismo durante a Segunda Guerra. Sendo assim, entendem que não necessitam de reconciliação, diferentemente dos alemães e franceses, que precisam de uma nova forma de poder – como a UE – para se projetarem no mundo. Por meio da integração europeia atrelada ao aprofundamento das relações entre as nações do velho continente, os germânicos tentam modificar sua imagem afetada pelas atrocidades cometidas pelo III Reich, na Segunda Guerra Mundial, e os franceses continuam na ideia de espraiar os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, abstrações herdadas da Revolução Francesa. Contudo, os britânicos entendem a União Europeia como uma iniciativa franco-germânica. Por não possuir a mácula nazista do trágico passado alemão, nem compartilhar, inteiramente, dos princípios universalistas louvados pelos franceses, buscam defender a soberania nacional e as instituições tipicamente britânicas.

Em terceiro lugar, um propósito jurídico e cultural. É importante relembrar que o tipo de lei e de governo no Reino Unido são extremamente diferentes dos demais países europeus. Na Europa continental, vários países foram invadidos pelo Imperador francês Napoleão Bonaparte, sendo influenciados pela Jurisdição Napoleônica (Código Civil Napoleônico). Esta, inspirada no Direito Romano, utiliza constituições escritas e normas criadas e aplicadas verticalmente. A Grã-Bretanha, todavia, permaneceu intacta durante as Guerras Napoleônicas, preservando seus costumes, a exemplo do sistema jurídico de Common Law. Nas palavras de Scruton, “os princípios consuetudinários não são deduzidos de éditos universais formulados abstratamente, mas emergem com o tempo de soluções descobertas caso a caso”(SCRUTON, 2021).

Diferentemente do que ocorre na UE e na maioria das nações, o direito britânico é baseado em costumes, as leis inglesas surgem a partir de jurisprudências. Após a ocorrência de um fato concreto, um valor é atribuído a ele e, posteriormente, uma lei pode ser criada pelo Parlamento. Mas esta instituição geralmente não ratifica a lei, a jurisprudência e o costume já são suficientes para o bom funcionamento do judiciário. O Common Law é um sistema legal construído de forma horizontal, ou seja, as normas são adequadas ao costume, os cidadãos apresentam a causa ao juiz e este resolve a questão com base em acontecimentos passados semelhantes ao fato novo. A ideia britânica de justiça e autoridade flui de baixo para cima, do cidadão, através dos tribunais, até o Parlamento. É uma disposição advinda desde a Magna Carta de 1215 (SCRUTON, 2021).

Já na UE, o aparato jurídico é inspirado no Direito Romano e no Código Napoleônico, que são extremamente distintos do Common Law do Reino Unido. As leis são escritas, as constituições possuem centenas de páginas e as decisões são tomadas de modo vertical. Essa influência se deve ao fato de grande parte dos países europeus terem sido ocupados pelo Império Romano, na Antiguidade, e por Napoleão Bonaparte, no início da Idade Contemporânea.

Em último lugar, mas não menos importante, pode-se citar uma motivação econômica. O Reino Unido, por ser um país com uma economia dinâmica, contribuía mais recursos para a UE do que auferia benefícios dessa organização. A Crise de 2008 e, posteriormente, a drástica situação de alguns vizinhos europeus, fizeram com que diversos cidadãos britânicos reivindicassem mudanças no status quo, sendo a UE um alvo.

Diante dessas complicações, o Brexit foi uma alternativa para o Reino Unido se inserir, de forma autônoma, soberana e independente, em uma sociedade internacional marcada por constantes mudanças, resgatando, enfatizando e reformando valores tradicionais britânicos que sobreviveram aos testes do tempo e auxiliaram na consolidação dos princípios e instituições que alicerçam aquele país.

As instituições britânicas, formadas organicamente por meio de uma posição cética, diferem-se, em vários pontos, da natureza idealista das instituições que compõem a União Europeia. O pioneirismo no sistema de checks and balances, o Common Law, o poderio naval, as tradicionais relações com nações de outros continentes por meio da Commonwealth e a histórica defesa da Ilha da Grã-Bretanha contra invasores são pontos que garantiram a formação de uma nação peculiar que sempre preferiu se afastar das problemáticas da Europa Continental, na medida do possível.

O Brexit, diante de todas essas questões apresentadas, era inevitável. Os britânicos, ao votarem favoravelmente à saída no referendum, não queriam o retorno a um passado glorioso, nostálgico e fantasioso. Ao incorporarem a disposição conservadora, concordam que a preservação de costumes e instituições são condições necessárias ao desenvolvimento de uma sociedade livre e próspera, uma vez que são produtos de uma sabedoria herdada dos antepassados e reformada pelos vivos, para que seja transmitida aos que ainda irão nascer.

Nas palavras de Oakeshott, podemos dizer que os britânicos, ao optarem pelo Brexit, “preferiram o familiar ao estranho, o tentado ao nunca experimentado, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna” (OAKESHOTT, 2018). Considerando as condições de todo o arcabouço valorativo e dos aspectos históricos, culturais e filosóficos que fundamentaram o Brexit, conclui-se que: às vezes é preciso mudar para que tudo se mantenha o mesmo.

Referências bibliográficas

BUENO, Luiz. Michael Oakeshott e a crítica ao racionalismo produtor de ideologias (I). Estadão: O Estado da Arte, 2017.
Disponível em: <https://estadodaarte.estadao.com.br/michael-oakeshott-e-a-critica-ao-racionalismo-produtor-de-ideologias-i/>. Acesso em: 11 jun. 2021.

BUENO, Luiz. Michael Oakeshott e a crítica ao racionalismo produtor de ideologias (II). Estadão: O Estado da Arte, 2017.
Disponível em: <https://estadodaarte.estadao.com.br/michael-oakeshott-e-a-critica-ao-racionalismo-produtor-de-ideologias-ii/>. Acesso em: 11 jun. 2021.

ELST, Philip Vander. The Principles of British Foreign Policy. Published by The Bruges Group, second edition, 2008.

OAKESHOTT, Michael. A Política da Fé e a Política do Ceticismo. Tradução: Daniel Lena Marchiori Neto. Editora É Realizações, São Paulo. 2018.

OAKESHOTT, Michael. Rationalism in Politics and Other Essays. Liberty Fund, 1991.

SCRUTON, Roger. Brexit: Origens e Desafios. Tradução de Alessandra Bonrruquer. Editora Record, 2021.

Imagem: ChiralJon/wikimedia commons (flickr.com/people/69057297@N04)

Sobre o autor

Alexandre Nogueira Souza

Graduado em Relações Internacionais (UFU), Pós-Graduando em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia (PUC-RS), palestrante e coautor do livro “Branding e Comunicação Empresarial. Pesquisador no Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.