Arte sacra contemporânea: religião e história

A vida espiritual a partir da iconografia do rosto de Cristo na releitura de Pe Marko Ivan Rupnik

A cada Censo do IBGE, notamos o crescimento do número de pessoas que se declaram sem religião – contudo é também notória a significativa busca pela dimensão espiritual, seja ela cristã ou não. Esse fenômeno pós-moderno, nos mostra que muitas pessoas, embora não adeptas de uma religião, vivem a sua dimensão espiritual a partir da religião que receberam por tradição familiar ou a partir da coleta de elementos religiosos diversos, advindos de várias denominações cristãs ou religiões outras, como uma espécie de self-service sincretista da fé.

No âmbito cristão-católico, sobretudo após o Concílio Vaticano II, vimos despontar na Igreja “novas espiritualidades”, Novos Movimentos, Novas Comunidades, Sociedades de Vida Apostólicas, Fraternidades e tantos outros grupos – um verdadeiro alvorecer espiritual de um novo tempo.

No entanto, diante de tantas ofertas de “espiritualidades cristãs” no interior da Igreja, surgem algumas perguntas: O que é a Vida Espiritual e qual a sua finalidade? Quando ela se inicia na vida de um cristão? A Vida Espiritual consiste em cumprir normas e práticas exteriores ou na adesão livre a um Deus pessoal e que ama gratuitamente?

Antes de começarmos a falar sobre a Vida Espiritual, é necessário dizer que, em nosso tempo, segundo a nossa cultura, o termo espiritual é frequentemente associado a tudo o que é imaterial[1], portanto não concreto, abstrato. Essa leitura do termo espiritual leva a uma compreensão fragmentada e equivocada de que o espiritual pertenceria somente à esfera psíquica e racional do homem.

Nesse sentido, para chegarmos a uma compreensão integral da Vida Espiritual, é necessário deixar de procurar no horizonte tantas vezes tumultuado que se apresenta diante de nós e procurarmos na Tradição da Igreja, sobretudo confiando na antropologia cristã dos Padres da Igreja, que tiveram consciência da ação e presença do Espírito Santo.

Ora, uma vez que é o Espírito Santo aquele que nos comunica a vida comunial e relacional, partindo desta realidade, deduzimos que só podemos falar sobre Vida Espiritual a partir do Espírito Santo. Porque a Vida Espiritual é vida no Espírito Santo e com o Espírito Santo[2] – e, neste sentido, é espiritual tudo aquilo que é tocado pelo Espírito Santo – Vida Espiritual é tudo aquilo que me fala do espiritual.

No entanto, o mundo físico, material e corporal pertence à dimensão espiritual, graças à ação e a presença do Espírito Santo, que através da Encarnação assumiu toda a realidade humana. Sendo assim, uma espiritualidade cristã que negasse a matéria e a dimensão corporal do ser humano, negaria o mistério da Encarnação do Verbo de Deus feito carne.

Com isso, todos os seres humanos, enquanto criaturas filiais de Deus, são tocados e envolvidos pelo Espírito. Mas através do Batismo, sepultados com Cristo na sua morte, ressuscitamos com ele para a Vida Eterna. Somos incorporados ao seu Corpo que é a Igreja, nos tornamos templo do Espírito Santo e libertados do mal. Adquirimos não por mérito, mas por graça, a maior dignidade que um ser humano pode ter: a filiação divina, nos tornamos filhos de Deus Pai no seu Filho Jesus Cristo[3]. Portanto, “A experiência batismal é o ponto de início de toda a espiritualidade cristã que se funda na Trindade”[4].

Segundo a visão tricotômica[5] de São Paulo (1 Tes 5,23) e de alguns Padres da Igreja, o ser humano é unidade de espírito, alma e corpo[6]. Este espírito que o homem traz dentro de si, é habitado pelo Espírito Santo, centro vital da pessoa, por meio do qual ela foi criada e participa do amor de Deus Pai. Por isso, quanto mais o espírito humano se abre na acolhida do Espírito Santo, mais o homem se torna espiritual, porque “o verdadeiro fim da nossa vida cristã consiste em possuir o Espírito de Deus[7]”, dizia São Serafim de Sarov. O Espírito de Deus é a realidade mais pessoal do homem.

Através do ícone do rosto de Cristo, podemos entender o movimento e o sentido da vida espiritual. Mas antes vamos conhecer brevemente a sua origem e história:

Perscrutando a Tradição da Igreja, chegamos à conclusão de que o primeiro ícone de Cristo surgiu durante sua vida terrena. Estes ícones se encontram entre as imagens chamadas acheiropoïètes (não feitas por mãos humanas) e teográficas (confeccionadas pelo próprio Deus)[8].

Em vista disso, nos encontramos diante de duas tradições distintas, mas que nos inserem no mesmo mistério. Nas Igrejas Orientais, entre tantas outras histórias, é dito que o rei Abgar de Edessa pediu para fazer uma imagem de Cristo e, para tanto, enviou-lhe pintores, que, no entanto, não puderam retratá-lo. Então o próprio Cristo reproduziu o seu retrato em um lençol, chamado de Aquiropita “não feito por mãos humanas”.

No Ocidente temos o véu de Verônica: a mulher que teria enxugado o sangue do rosto de Cristo com um pano durante sua Paixão. Esta imagem, impressa no tecido, corresponderia ao mesmo desenho impresso pelo Cristo no lençol de Edessa, a imagem Aquiropita “não feito por mãos humanas”.

Figura 1 – Santa Face de Edessa…
Figura 2 – Mosaico Centro de Espiritualidade S. Dorotea em Asolo/Itália



Ao que tudo indica, até o início do século XVI, a Basílica de São Pedro detinha a posse de um véu no qual estaria impresso o rosto de Cristo. Mas esse véu desapareceu, não se sabe ao certo quando – talvez no início da construção da nova Basílica de São Pedro, em 1506, ou no saque de Roma, em 1527 (por tropas rebeldes de Carlos V Imperador do Sacro Império Romano-germânico) –, restando somente a sua memória com a imagem de Santa Verônica que ladeia o altar principal.

Contudo o objeto reaparece, de forma milagrosa, com um estranho peregrino que o leva até à cidade de Manoppello, localidade em que foi primeiramente entregue a um senhor, que o manteve em casa por algum tempo, e, anos mais tarde, em 1646, o vendeu a um médico, que, por fim, fez a doação do véu aos frades capuchinhos. Os frades ainda guardam a relíquia, atualmente exposta para a veneração dos fiéis, de forma permanente, na Igreja de São Miguel Arcanjo em Manoppello.

Trata-se de um tecido fino feito de bisso marinho que não aceita pintura. Pesquisas científicas realizadas pela Universidade de Bari, entre os anos 1998 e 1999, confirmaram que não se encontram traços de tinta no tecido. O véu se comporta, aparentemente, como uma película fotográfica positiva. A imagem colocada em um jogo de luz retrata o Cristo morto e, ao mesmo tempo, o momento de sua ressurreição. Estudos realizados pela irmã Blandina Paschalis Schlömer, pintora e estudiosa dos ícones, concluíram que existe uma relação muito estreita entre a imagem do véu de Manoppello e o rosto impresso no sudário de Turim.

Em 1999, depois de anos de testes, o professor Pe. Heinrich Pfeiffer – jesuíta, um dos maiores especialistas em arte cristã –, comunicou o resultado de suas pesquisas, afirmando que a verônica romana, a famosa imagem do rosto de Cristo acheiropoietos, conhecida em Roma entre os séculos XII e XVII, foi encontrada. Ele também afirma que a figura humana presente no sudário de Turim e o véu de Manoppello são da mesma pessoa. Além disso, a perfeita sobreposição entre as duas imagens, nos leva a admitir que elas se formaram ao mesmo tempo. Segundo Pe. Pfeiffer, o sudário de Turim, seria o lençol de Edessa[9].

Figura 3 – Sagrada Face de Turim e véu de Manoppello sobrepostas em revista 30 dias 04/2009
A – o rosto do sudário de Turim
B – sobreposição do rosto do véu de Manoppello ao rosto do sudário de Turim
C – o rosto do véu de Manoppello


Um terceiro elemento que também deve ser considerado é o fato de que o véu de Oviedo, que teria envolvido a cabeça de Jesus no descendimento da Cruz, quando sobreposto às duas imagens anteriores, se encaixa perfeitamente a elas. Sendo assim, Pe. Pfeiffer concluiu que o sudário de Manoppello e o sudário de Turim são as duas únicas imagens verdadeiras do rosto de Cristo ditas acheropitas, ou seja, “não realizadas por mãos humanas”[10]. Por conseguinte, todos os ícones do rosto de Cristo derivam dessas duas imagens.

Esses ícones foram escritos (pintados) originalmente sob o esquema de quatro círculos concêntricos[11], mesmo esquema encontrado na releitura feita por Pe. Marko Rupnik em seus mosaicos.

Figuras 4 e 5 – Santa face, Santuário Nacional São João Paulo II em Washington-2015


I. Entre os olhos – Designa a participação pessoal do Espírito Santo no espírito humano. É o ponto vivificante a partir do qual o Espírito comunica a vida com o amor e a irradia na psique, no corpo e no cosmos. Portanto, representa a graça dada pelo Criador a cada ser humano de se abrir e acolher a ação divina.

II. Olhos e a fronte – É o círculo da alma. A dimensão psíquica, intelectual, que recolhe as diversas faculdades do ser humano: a inteligência, a vontade e o sentimento.

III. Cabelos, barba e boca – Formam o círculo do Corpo. Representam a dimensão mais sensual, vulnerável do ser humano, exposta à caducidade e à morte. É sobretudo através deste círculo que percebemos o passar dos anos, os cabelos embranquecem e caem, a boca sensual, que exprime a necessidade de comer para sobreviver, se torna cheia de irregularidades.

IV. Aureola – É o círculo mais visível, de ouro mais puro. Indica que, a partir de dentro, a luz do Espírito penetra o mundo psíquico e corpóreo, envolve toda a pessoa no amor e a transfigura, de modo que seja percebida pelos outros[12].

A iconografia do rosto de Cristo nos mostra que o ser humano que se abre à ação do Espírito Santo se torna aquilo que é chamado a ser: um homem aureolado de luz, porque permite que o Espírito leve os frutos da vida divina na história, na humanidade renovada que vive do Espírito e no Espírito. Desse modo, o homem se torna um comunicador de Deus, porque tudo nele – as suas dimensões intelectual, psíquica e corpórea – são permeadas pelo Espírito Santo, todo o seu ser se torna morada do Espírito que comunica a Vida.

Nesse sentido, podemos dizer que a vida espiritual não é alguma coisa que eu, como indivíduo fechado em mim mesmo, possuo sozinho. Tampouco seria uma disciplina ou prática ascética de troca de favores com Deus, ou seja, não vem do esforço humano, muito menos por meio de alguns conhecimentos sobre a fé, como nos alerta o Papa Francisco, quando escreve sobre o mundanismo espiritual na Evangelii gaudium[13]. A vida espiritual é abertura ao Espírito de Deus que vem sobre todo homem para fecundar a terra do seu coração, de modo que o homem se torne uma pessoa capaz de transfigurar o Cosmo, porque repleto daquele Espírito comunial de que tudo leva ao Pai. Nesse caminho nos ajuda São Nicolau Cabasilas, quando nos diz que a nossa única contribuição à Vida Espiritual “consiste em cuidar dos dons que recebemos de Deus, guardar as graças e não jogar fora a coroa que Deus teceu para nós ao preço de muita fadiga e suor[14]”.

A vida espiritual, enquanto é sinergia[15] com o Espírito Santo e arte de fazer frutificar a sua presença em nossa vida, comporta uma postura fundamental: reconhecer o Espírito Santo em um modo assim radical, que isto se torne um habitus interior, que faça com que o ser humano viva uma constante abertura ao outro na vivência do amor kenótico, que se doa, porque reconhece no outro o centro do seu ser[16]. Assim, entendemos que a verdadeira vida espiritual se vive na fé e no amor que abraça todas as coisas com a liberdade do Espírito que de tudo cuida e envolve toda a realidade, mas deixa livre porque é amor que se relaciona.

Desse modo, iluminados pela luz do Espírito Santo, adquirimos o discernimento tão necessário em nosso tempo para identificar os subjetivismos individualistas revestidos de mística promovidos por tantos. A vida espiritual não é, e jamais deve ser confundida com, bem-estar psicológico[17].

A espiritualidade cristã só pode ser cristã se encarnada no chão da vida. Nosso Deus se encarnou e se fez história para que a nossa história nele se tornasse história de salvação. Portanto, como Igreja, Povo de Deus e Corpo de Cristo, somos todos chamados, porque primeiramente, impulsionados pelo Espírito Santo que nos habita, a nos “empenharmos na transformação da realidade e no anúncio do Reino de Deus”[18].

Referências bibliográficas

Catecismo da Igreja Católica, n.1213-1274.

https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html acessado em 03/06/2021.

Francisco, Evangelii gaudium, 93-97. Città del Vaticano: Paoline. 2017.

CNBB, Documento 105, Os Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Brasília: Edições CNBB. 2019.

Cabasilas, N. La vita in Cristo, Roma: Città Nuova, 2017.

Casel, O. O Mistério do Culto no Cristianismo, São Paulo: Edições Loyola 2009.

Rupnik, M.I. Nel fuoco del roveto ardente, Roma: Edizione Lipa. 2015.

Spidilik, T. Manuale fondamentale di spiritualità, Roma: Piemme, 1993.

Spidilik, T. Spiritualità dell’Oriente Cristiano, Roma, Pontificium Institutum Orientale, 1985.

Spidilik, T.; Rupnik. M.I. La fede seconde le icone, Roma: Edizione Lipa, 2011.

Entrevistas com Pe. Heinrich Pfeiffer

O véu de Manoppello, http://www.30giorni.it/articoli_id_21100_l6.htm acessado em 03/06/2021

Indícios da Ressurreição de Jesus, http://www.30giorni.it/articoli_id_21098_l6.htm acessado em 03/06/2021

Bernini ou não, é uma obra-prima, http://www.30giorni.it/articoli_id_4406_l6.htm acessado em 03/06/2021

Da Gerusalemme a Roma, https://www.voltosanto.net/?s=i+P.+Heinrich+Pfeiffer acessado em 03/06/2021

Ma la “Veronica” è a Manoppello, http://www.30giorni.it/articoli_id_13005_l1.htm acessado em 03/06/2021

Para Estudos e pesquisas sobre o Santo Rosto de Manoppello acessar:
https://www.voltosanto.it/studi-e-ricerche/

[1] Cf. Rupnik, Nel fuoco del roveto ardente, p. 8.

[2] Cf. Spidilik, Manuale fondamentale di spiritualità, p. 12.

[3] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n.1213-1274.

[4] CNBB, Documento 105, Os Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, n. 189.

[5] Entende-se por visão tricotômica a unidade de espírito, alma e corpo da pessoa humana.

[6] Cf. M. Rupnik, Nel fuoco del roveto ardente, p. 39.

[7] Cf. T. Spidilik, Spiritualità dell’Oriente Cristiano, p. 30.

[8] Para um aprofundamento sobre a primeira imagem do rosto de Cristo, Cf. W. S. De Tommaso, O Cristo Pantocrator, pp. 56-62.

[9] L. Bianchi, «O véu de Manoppello», in http://www.30giorni.it/articoli_id_21100_l6.htm.

[10] (H. Pfeiffer, in: P. Baglioni, «Bernini ou não, é uma obra-prima», in: 30Dias, nº 9, setembro de 2004, pp. 56-65).

[11] Cf. T. Spidilik, M. Rupnik, La fede seconde le icone, pp. 77-80.

[12] Cf. M.Rupnik, «La lettura spirituale della realtà», pp. 27-31.

[13] Cf. Francisco, Evangelii gaudium, pp. 93-97.

[14] N. Cabasilas, La vita in Cristo, p. 42.

[15] Embora o termo seja mais complexo, entendemos por Sinergia a colaboração humana à graça divina. Uma abertura e um fazer que permite ao Espírito de Deus agir plenamente em nós. Um exemplo concreto de Sinergia é o Sim da Virgem Maria a Deus, sim sem reservas que permitiu que a ação e vontade de Deus se realizassem concretamente.

[16] Cf. M. Rupnik, Nel fuoco del roveto ardente, pp. 37-38.

[17] Cf. O. Casel, O Mistério do Culto no Cristianismo, p. 52.

[18] CNBB, Documento 105, os Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, n. 195.

Imagem de abertura: Marko Ivan Rupnik

Sobre o autor

Padre Mateus Lopes

Mestre e Doutorando em Teologia pela PUG - Pontifícia Universidade Gregoriana. Graduado em Teologia e em Filosofia pela PUC-MG. Bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Especialização em Teologia e arte cristã do Primeiro milênio pelo Centro Aletti-Pontifício Instituto Orienta. Membro do grupo de pesquisa “A imagem de Deus: Religião, História e Arte” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.