Arte sacra contemporânea: religião e história

Nossa Senhora de Filermo – O Retrato Primeiro de Maria

No bairro dos Jardins, em São Paulo, encontra-se a Paróquia Nossa Senhora do Brasil, cuja construção data do início dos anos 40, com projeto de autoria do arquiteto e professor Bruno Simões Magro, catedrático da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Suas paredes são completamente decoradas com azulejaria de autoria do ceramista Antonio Paim Vieira, cuja obra enfatiza a temática e identidade nacionais, utilizando-se de pinturas em tons de azul sobre fundo branco, assemelhando-a às igrejas portuguesas.

Poucos lugares possuem tantas representações de Maria quanto as que podemos encontrar nas paredes, altares e teto dessa igreja. Cada uma dessas imagens merece um capítulo especial, mas trataremos aqui de um detalhe que mesmo os paroquianos mais assíduos parecem desconhecer: a existência de uma capela lateral dedicada a uma das representações mais antigas de Nossa Senhora, a Capela de Nossa Senhora de Filermo.

A Capela do Santíssimo, cuja decoração interna distingue-se totalmente do restante do templo, tem suas paredes revestidas de azulejaria, com imagens de uma história que teve início há quase dois mil anos, exibindo figuras e desenhos em tons avermelhados, cores da Soberana Ordem dos Cavaleiros de São João, ou Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, também conhecida como Ordem de Malta. Localizam-se logo à direita da nave central, sendo a Capela de Nossa Senhora de Filermo uma pequena câmara com acesso pela porta na parede direita da referida Capela do Santíssimo. Dentro dela encontra-se uma pequena imagem representando a Protetora da Ordem de Malta, e é sobre ela que falaremos.

Figura 1: Detalhe das iniciais NSF – Nossa Senhora de Filermo na Igreja Nossa Senhora do Brasil (foto da autora)

Figura 2: Capela de Nossa Senhora de Filermo na Igreja Nossa Senhora do Brasil (foto da autora)

Figura 3: Detalhe da Capela de Nossa Senhora de Filermo na Igreja Nossa Senhora do Brasil (foto da autora)


A protetora da “Ordem Militar e Hospitalar dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, Rhodes e Malta” tem uma longa história. Segundo a tradição da Igreja, esse ícone foi pintado por São Lucas, que o levou para o Egito, para os nazarenos, os primeiros monges do deserto. No século IV, o ícone foi transferido para Jerusalém e, por volta de 440, para Constantinopla, onde estava alojado na Igreja Vlacherna. De lá foi retirado por volta dos anos 700, o que permitiu que sobrevivesse ao período iconoclasta, seguindo pelo Mediterrâneo, até chegar em Jerusalém – ficando em terras da Judéia até a perda de Acre, quando ainda estava sob os cuidados dos Cavaleiros Cruzados.

Após a invasão muçulmana, os Cavaleiros de São João mudaram sua sede para Chipre e posteriormente para Rhodes, e encontraram o ícone em uma capela no Monte Filerimos – daí o nome pelo qual é identificado até hoje –, onde recebia peregrinações e devoções de toda a região do Egeu e Mediterrâneo.

Essa imagem é um dos três tesouros da Ordem, associado a duas relíquias: a mão direita de São João Batista e uma partícula da Santa Cruz. Em meados do século XVI, devido à conquista turca, os Joanitas partiram de Rhodes, levando consigo as três riquezas, que os acompanharam por Catânia, Ferrara e Messina, até que finalmente se estabeleceram em Malta, onde permaneceram até o final de 1798, quando, devido à traição de Napoleão, foram obrigados a abandonar a ilha.

Ao Czar Paulo da Rússia, membro da Ordem de Malta, foram entregues os três relicários cristãos, e ainda o título de Grão-Mestre. Eles foram mantidos em Gatchina até 1917, quando foram transferidos para a Estônia, devido à revolução bolchevique e, em seguida, seguiram para Copenhague com a imperatriz Maria Feodorovna. No leito de morte, a Imperatriz entregou os relicários ao Metropolita da Igreja Russa no Exterior, Antonija Hrapovicki. Ele os colocou na Igreja Russa em Berlim, onde os manteve até 1932, quando os entregou como presente ao rei iugoslavo Alexander Karadjordjevic, como sinal de gratidão por aceitar refugiados russos.

Os relicários permaneceram na igreja da corte, em Belgrado, até a ocupação alemã em 1941. O rei Petar Drugi, antes de fugir dos nazistas decolando de Nikšić para Londres, os escondeu no mosteiro de Ostrog. No outono de 1952, finalmente foram descobertos e levados em segredo ao cofre da inteligência, e, em 1978, a pedido do Metropolitano Danilo, a mão direita de São João e a partícula da Santa Cruz foram destinadas ao mosteiro de Cetinje. O ícone de Filermo foi levado em segurança ao Museu Nacional de Cetinje, onde está até hoje.

Durante sua longa história e nos vários locais pelos quais passou, muitas cópias foram realizadas em substituição à original, sempre com o intuito de manter um retrato da Mãe de Nosso Senhor próximo aos fiéis, que viam nela uma Protetora, um canal de comunicação direto com Deus. Algumas cópias oficialmente reconhecidas encontram-se em vários locais, como, por exemplo, a da Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis, Itália, a cópia do Palácio de Gatchina, Rússia, e outra ainda na Catedral de São João, em Valletta. Nessa Ilha se encontram, na Igreja Ortodoxa Grega, duas imagens cujo modelo é a Nossa Senhora de Filermo: a Madonna Damascena e a Eleimonitria (Nossa Senhora da Misericórdia), que também foram trazidas a Malta a partir de Rhodes, por ocasião da perda da Ilha para os turcos em 1522.

Figura 4: Imagem original de Nossa Senhora de Filermo (foto: Wikimedia)

Figura 5: Cópia Russa de Nossa Senhora de Filermo (1852) – Santa Maria dos Anjos, Assis (Foto: Wikimedia/Shakko)

Figura 6: Nossa Senhora de Damasco (início Séc XII) (foto: Igreja Ortodoxa Católica Grega, Valletta, Malta)

Figura 7: Panaghia Eleimonitria (Misericordiosa Mãe de Deus). Bizantino. Início do século XIV (foto: cortesia da Igreja Greco-Católica em Valletta, Malta)


Ainda pouco conhecida no Brasil, é considerada a Padroeira do Mediterrâneo e muito comemorada no oriente, tanto por cristãos quanto por muçulmanos. A festa da Virgem de Filermo acontece em 8 de setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora e dia em que, em 1565, os turcos desistiram da invasão e abandonaram o cerco de Rhodes, diante de uma visão sobrenatural de Nossa Senhora nos céus, de acordo com os registros documentais da época.

Este retrato da Beatíssima Virgem Maria acompanhou os Cavaleiros Hospitalários por toda a sua história, e tem sido objeto de devoção ao qual foram referenciados diversos milagres – desde a sua chegada relatada na Bula Magistral de 1497, que registra como o ícone veio a Rhodes durante o tempo de Leão III, até as inúmeras vitórias em batalhas, como as duas ocorridas nos cercos turcos a Rhodes, em 1480 e 1503, e a vitória sobre o cerco turco a Malta em 1565, além da vitória na Batalha de Lepanto em 1571, e de ter sido salva inexplicavelmente de um incêndio em Malta em 1532.

Oração da Virgem de Filermo

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por Vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a Vós, Virgem entre todas singular, como a Mãe recorro, de Vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos Vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe de Deus, mas dignai-Vos de as ouvir e de me alcançar o que Vos rogo. Amém.

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Imagem Detalhe das iniciais NSF – Nossa Senhora de Filermo na Igreja Nossa Senhora do Brasil (foto da autora)

Sobre o autor

Suzana Pirani Meyer Castilho Garcia

Artista Plástica pela EPA - Escola Panamericana de Artes. Engenheira Química com ênfase em Produção pela FEI. Advogada pela Universidade Paulista, com especialização em Direito das Artes. Pós-Graduada em História da Arte, Museologia e Curadoria. Técnica em Conservação e Restauro de Obras de Arte Sobre Papel. Pesquisadora do grupo de estudos Arte Sacra Contemporânea: Religião e História, do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.