Estudos Agostinianos

Camus, Santo Agostinho e o sentido da vida

O filósofo argelino Albert Camus deu uma sofisticada contribuição para a filosofia do século XX, o absurdismo, que é a confrontação do homem com o mundo em que vive. Camus começa o seu livro O Mito de Sísifo trazendo o problema do raciocínio absurdo e do suicídio: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia.[1] Desse modo, ele passa a tratar do sentido da vida.

Para entender melhor esse raciocínio, pensemos no homem comum, que levanta cedo, toma seu café, vai à estação de metrô, dirige-se ao seu trabalho. Às 12h00 pausa para o almoço e logo retorna ao seu labor. Termina seu dia, bate o cartão, pega o trem lotado novamente, chega em sua casa, toma banho, janta, assiste ao noticiário e dorme. Outro dia segue a mesma rotina, outro ano também. Esse homem se depara com sua realidade e se pergunta se tudo o que faz tem algum sentido. Torna-se um estrangeiro de si mesmo e se angustia. Percebe que o que ele faz não tem sentido e as pessoas que ele ama tornam-se estranhas. Quando se depara com o dilema do mundo, se encontra com o absurdo. Nesse momento o sentido da vida está em jogo e muitas pessoas morrem por considerar que a vida não tem sentido.

O filósofo diz: “Matar-se, em certo sentido, e como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”[2] Nesse caso, Camus tentará desvendar o mistério sobre o sentido da existência e apresentará uma estética para a vida, que é fazer do homem o artífice da sua própria vivência.

Há outro pensador que, a despeito de ter séculos de distância de Camus, também se preocupou em investigar nossa interioridade e finitude, mas com uma proposta diferente. Na obra Confissões, Agostinho de Hipona fala sobre a inquietação: “Tu incitas, para que goste de te louvar, porque o fizeste rumo a ti e nosso coração é inquieto, até repousar em ti.”[3] Essa inquietação nada mais é que um “motor de busca”, ou seja, o homem foi criado por Deus e tencionado para ele – não obstante, o pecado rompeu essa relação. O Bispo de Hipona reconhece que o homem é miserável e que Deus colocou essa inquietação em seu coração para que a criação se voltasse a Ele. Chestov[4] sugere remeter-nos a Deus, “mesmo que não corresponda a nenhuma de nossas categorias racionais”[5], pois quando não podemos ir pela lógica, nos entregamos ao Criador: “É preciso saltar nele e com esse salto livrar-nos das ilusões racionais.”[6] Camus criticou essa proposta que chamou de “salto”. Enquanto Agostinho sugere remeter-nos a Deus, Camus sugere que esculpamos a argila, que sejamos criadores de nossa própria existência. Para Camus, o absurdo sempre estará presente e o homem deve viver com ele. Sem embargo, Agostinho busca apaziguar a inquietação voltando-se a Deus.  

O Hiponense se condói por não haver conhecido antes o Senhor, lamenta, reconhece que tardou a encontrá-lo: “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”.[7] Antes de conhecer o Deus de sua salvação o Bispo de Hipona tentou encontrar satisfação nas coisas terrestres, mas reconheceu que de nada valeu, as coisas da terra não são tão importantes como a vida eterna, ele escreveu: “Quando me juntar a ti com todo meu ser, nunca mais haverá para mim fadiga e dor, e viva será minha vida, toda plena de ti”.[8] Camus não concordava com essa esperança e propõe que busquemos o sabor da vida como elemento importante para ter uma razão de viver. Ele traz Sísifo para o debate, aquele que foi condenado pelos deuses a empurrar incessantemente uma rocha até o alto da montanha, reiteradamente, porque a pedra, quando chegava ao topo, descia novamente ao mundo inferior.

Sísifo é descrito por Camus como o homem contemporâneo, com suas rotinas diárias. No entanto, elogia-o, designando-o como o mais sábio e prudente dos mortais, o herói absurdo. O desprezo que Sísifo tinha pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida fizeram com que ele pagasse o preço. O herói é consciente, sua respiração é ofegante – assim como tinha seu fardo, o homem contemporâneo também o tem. O personagem nega os deuses e empurra a rocha com fidelidade. A própria luta para chegar ao cume é o suficiente para encher o coração do homem de alegria. O prazer da vida, o gosto é suficiente para viver.

O homem contemporâneo que vive em meio à pandemia global, trancado em casa, sem poder se esquivar, reconhece sua finitude – longe da família e amigos, reconhece sua sensibilidade. Vive num mundo estranho, é confrontado pelo absurdo, mas tenta encontrar prazer no árduo trabalho de levar a pedra até o cume e, quando ela cai, enquanto desce para recuperá-la, encontra a respiração ofegante para continuar. O homem cristão encontra sua esperança em Deus. Alguns acham que foi castigo dele o flagelo, outros se deleitam na sua vontade sabendo que – como Santo Agostinho – se morrer, descansará no Senhor, encontrará prazer ao seu lado. Nesse caso, as coisas terrenais são passageiras, ilusórias e para tudo há um plano divino. Alguns encontram a esperança no Deus que tudo criou, outros tentam encontrar sentido na própria existência tendo como elemento aquilo que os deixam felizes, a alegria de sentir o prazer com aquilo que o mundo dá, mesmo com a pedra sendo levada ao topo todos os dias. Podemos decidir entre aceitar o absurdo e ser o protagonista de nossa existência ou, como Santo Agostinho, aproximar-nos de Deus para apaziguar nossa inquietude.  

Referências

[1] CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record. 21ª edição, p. 17

[2] CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record. 21ª edição, p. 19

[3] AGOSTINHO. Confissões. Companhia das Letras. Livro I, 1

[4] Camus em O Mito de Sísifo fala sobre um comentador que transcreveu uma frase de Chestov: “A única saída verdadeira”, diz ele, “é precisamente onde não há saída no juízo humano. Senão, para que precisaríamos de Deus? As pessoas se dirigem a Deus para obter o impossível. Para o possível, os homens bastam.” O filósofo russo ao se deparar com o absurdo não dirá: “Eis o absurdo” massa sim: “Eis Deus: devemos remeter-nos a ele, mesmo que não corresponde a nenhuma das nossas categorias racionais”.

[5] CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record. 21ª edição, p. 48

[6] CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro – São Paulo: Editora Record. 21ª edição, p. 49

[7] AGOSTINHO. Confissões. Companhia das Letras. Livro X, 38

[8] AGOSTINHO. Confissões. Companhia das Letras. Livro X, 39

Imagem: Gustave Doré (1857)

Sobre o autor

Uiliam Grizafis

Graduando em jornalismo pela faculdade Anhanguera e membro do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos Agostinianos, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.