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Como vencer um campeonato de humildade?

As discussões políticas costumam apresentar um roteiro que passa pela motivação humanista que pode dar suporte a uma visão, defesa ou apoio, bem como servir para o contrário, para o ataque e oposição. Tais debates, que hoje se parecem mais com contendas, valem-se então de argumentos ditos superiores, uma vez que recuperam, de modo explícito, uma tradição iluminista bebida no cristianismo. Com isso, quero dizer que essas discussões passam pela recuperação da razão e acolhem a preocupação com as políticas públicas, com a desigualdade econômica ou com a melhoria dos serviços públicos em geral. Participamos, ouvimos ou lemos comentários sobre política que são balizados por este estado de coisas: cidadãos que se julgam esclarecidos creem ser superiores aos demais, por suporem que há um modo mais adequado de se pensar ou fazer política, o que não é percebido ou conhecido por essas pessoas. Outros cidadãos se ressentem por serem excluídos desse conhecimento e jogam suas fichas no aprendizado que se tem no cotidiano.

Assim, nos cenários recentes que opõem os espectros de direita e de esquerda, o roteiro acima poderia muito bem se ajustar. Em geral, os partidos de esquerda contam com uma espécie de reserva de mercado em relação às causas humanistas, e os de direita tendem a caminhar voltando-se para a concepção de livre-mercado, da necessidade do enriquecimento para que a desigualdade venha a diminuir num segundo momento.

Esta coluna não traria absolutamente nada de original se permanecesse nessa linha de raciocínio, enfim, se partisse desse ponto de vista descrito acima como justificativa do apoio ou da oposição às políticas públicas que visam à diminuição da distância entre os mais pobres e os ricos ou em relação à avaliação que se faz das políticas que pretendem ser implementadas pelos governos. Só que não. Gwyneth McClendon, pesquisadora em Comportamento Político da New York University, tem outras hipóteses que foram apresentadas numa obra, Envy in Politcs (Inveja na Política), da Princeton University Press, de 2018. Ela faz parte de uma série publicada pela Princeton Studies in Political Behavior.

De acordo com Gwyneth, seu livro “toca em três grandes questões políticas: como os cidadãos avaliam as políticas públicas; sob que condições os governantes implementam ou não as suas propostas; porque e sob que condições os cidadãos participam na política?” Mas, de acordo com a autora, o foco do livro não recai exatamente sobre cada uma dessas questões, “mas um insight sobre a psicologia humana pode nos ajudar na reflexão sobre estas três propostas.” McClandon oferece então o seu diferencial, que se trata da preocupação que cada um tem com a manutenção de seu status no interior do grupo social de que participa. “A preocupação com o status aparece de várias formas: a inveja é uma preocupação em diminuir (trazer para baixo) aqueles que são melhores; e a inclinação de manter para baixo aqueles que são piores; a busca pela admiração é a inclinação em despontar nos rankings das opiniões dos outros.

Deparamo-nos, diante disso, com aspectos não previstos e que costumam não ser levados em consideração quando se pretende mapear as motivações pessoais para a defesa de uma corrente política ou outra, assim como descrevemos no início. A pesquisa em comportamento político aparece aqui mais exatamente por introduzir esse tipo de cogitação que se apresenta a partir da motivação por interesses pessoais e do desejo de distinção dentro de um grupo.

Pensemos então que as motivações das discussões podem ser tão somente relativas às preocupações não reveladas – mesmo porque elas resvalam no constrangimento – e que podem simplesmente passar por aspectos pessoais. Será que somos a favor ou contra as políticas de recuperação de perdas salariais – ou mesmo da colocação em prática de planos que visam diminuir diferenças de renda – mais exatamente por conta do desejo de que os mais pobres ou os menos ricos permaneçam mais pobres e menos ricos? O trabalho realizado por McClandon dispõe uma série de pesquisas levadas a cabo em ambientes polarizados como aqueles que opõem brancos e negros nos Estados Unidos e na África do Sul, e ela se deparou com suportes para a sua hipótese.

De uma maneira semelhante, o que motivaria um segmento de um grupo social a defender o aumento dos impostos com vistas a diminuir a discrepância entre uma classe social e outra? Dito de outra forma, por que, exatamente, um indivíduo aceitaria pagar do que recebe com o objetivo de ajudar as pessoas que estão numa situação de carência em relação à posição que eles ocupam? Quanto haverá de franqueza nesse tipo de posicionamento? E, uma vez que nem sempre essas intenções são realizadas, será que essa postura em si não poderia também significar o desejo de manutenção de status num grupo social cuja moeda de troca é o capital humanista?

A situação passível de ser identificada a partir desse viés de abordagem é a de que se pode manifestar um juízo de opinião ou outro, sem que haja grande aprofundamento no que se defende ou ataca. Uma das possibilidades é a de que defendamos um ou outro lado por desejo de manutenção de nosso status dentro de um grupo social. E fazemos algo parecido quando na oposição, a saber, impedir que outras pessoas venham a nos superar no interior do mesmo grupo.

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.