
A ilusão não ‘acompanha’ a história comunista: é constitutiva dela; ao mesmo tempo independente de seu curso, enquanto prévia à experiência, e, no encanto, submetida às suas vicissitudes, uma vez que a verdade da profecia se mantém dentro dos limites do seu desenrolar-se. Ela tem sua base na imaginação política do homem moderno e, contudo, está sujeita ao remanejamento constante que as circunstâncias lhe impõem, como condição de sua sobrevivência. Ela faz da História seu alimento cotidiano, integrando continuamente à crença tudo o que ocorre. Assim se explica que ela só tenha podido desaparecer pelo desaparecimento daquilo de que se nutria a sua substância: crença na salvação pela História, ela só podia ceder a um desmentido radical da História, que tirasse sua razão de ser ao trabalho de remendagem inscrito em sua natureza. François Furet. O passado de uma ilusão: ensaios sobre a ideia comunista no século XX. São Paulo: Siciliano, 1995, p. 12.
Recuperar o percurso de uma ideia e se desdobrar em percebê-la onde quer que tenha obtido novos sentidos e configurações foi o objetivo do historiador François Furet (1927-1997) nessa obra cuja epígrafe foi obtida. O título que a encabeça envolve a todos que se deixam enlevar por uma boa narrativa, que nos absorve e que faz com que se esqueça da necessidade que por vezes nos abate, que é aquela de se vencer o livro iniciado. O autor tem como retaguarda o fato de se sentir à vontade na recuperação das intenções subjacentes ao aparecimento dos eventos que parecem ter sido feitos para que em efemérides viessem a se tornar. Temos aqui uma amostra que é o da legitimação de uma proposta controversa, em que dificilmente podemos nos deparar com qualidades humanitárias e que veio a desaparecer por pura fadiga. Mas que como ideia política, ainda dá o ar de sua presença e demonstra um vigor inconteste junto aqueles que a comungam.
Mitologia política seria um termo acertado ao falarmos da história do comunismo no século XX, uma vez que a quase tudo veio a resistir, inclusive os crimes inafiançáveis que se soube ter capitaneado bem como das mais rudes formas de perseguição e censura que se teve notícia. Nada disso conseguiu dar cabo da permanência de sentido dessa narrativa que para muitos ainda é portadora de uma concepção de pureza, mesmo que jamais alcançada na face da terra. Sobre essa crença, o sentimento de nostalgia pelo futuro é uma expressão que cai bem.
A primavera dos povos, os hinos emotivos e a produção de inúmeras ficções deram oportunidade ao revigoramento desse posicionamento até mesmo em situações de franca eliminação de quem quer que se posicionasse de modo diferente. As biografias estão repletas de exemplos concretos em que se vê que os seus heróis foram feitos da mesma matéria qualquer ser humano.
Nesse sentido, a modernidade veio a erigir um conto político embalado pela crença de que seria possível encontrar contradições nas reflexões que herdamos de pensadores como Maquiavel ou Tocqueville. É o que se tem em mente inclusive quando se compara a sorte que tiveram outras idealizações políticas como o fascismo, que ruiu nos anos 1940 para não mais obter lugar algum no panteão das políticas levadas a sério. O que dizer do comunismo que sempre demonstrou vigor e poder de renascimento?
São esses alguns dos aspectos que nos vêm à mente quando estamos na leitura dessa presente obra. O fato de ter sido escrita por um intelectual francês tem muito a nos dizer sobre a sua validade. Cabe à França a primazia da revolução mais rumorosa que se teve notícia, inclusive porque ela foi reconhecida enquanto tal a partir dos relatos de seus próprios participantes. Muita tinta já se gastou para empreender o entendimento de que as revoluções britânicas tenham atingido mais plenamente os resultados pretendidos, mesmo que sem grande alarde e espetacularização. Aprende-se cedo que uma Revolução Gloriosa bem leva esse nome pela ausência de agitos ou perda de sangue.
O percurso de aceitação do comunismo em solo europeu teve muito a ver com o envolvimento da intelligentsia francesa que se deteve sobre o evento revolucionário ocorrido na Rússia de 1917. Note-se que o movimento foi o de unção de um novo feito a partir da comparação com o que os franceses ofertaram ao ocidente. É por isso que muitos intelectuais enxergaram em Lênin e Trotsky a manifestação do ressurgimento de Danton e Robespierre; para muitos deles, o melhor momento da Revolução Francesa. E as idas e vindas são tão tortuosas que até a reação termidoriana é saudada desta vez como uma grande jogada estratégica da Nova Política Econômica colocada em prática por Lênin.
E dentre os primeiros introdutores da crença no comunismo em solo ocidental, não por acaso, nos defrontamos com intelectuais cuja origem reflexiva se encontrava no cristianismo e que por isso, fizeram migrar sua fé para o empreendimento realizado no leste europeu. O mais curioso de tudo isso, é que também nos deparamos com esses intelectuais quando de sua constatação do fracasso do comunismo a partir da reedição das antigas mazelas lastreadas pelo idealismo político.
Para Furet, na recuperação da aceitação do comunismo pela intelectualidade francesa do século passado, acompanhamos a entronização de um conceito que passará a ser trocado como dogma a partir de então. Não se trata mais de se buscar pelos indícios históricos que dessem suporte e protagonismo para o ocorrido, mas sim de se voltar para ele como um marco equivalente às dimensões sagradas. É então por intermédio de uma quase hagiografia que adentramos a sociabilidade intelectual das décadas de 1910 e 1920 realizada em solo francês e que veio a franquear ao Ocidente o acesso à uma nova dimensão de fé, ela própria, filha da modernidade que lhe deu origem e vasão.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

