Behavior

E se somente pensamos em nós mesmos?

Alguns de nós que estivemos nos bancos escolares nas décadas de 70 e 80 crescemos e tivemos contato paulatino com uma bibliografia que se considerava crítica ao quadro político que até então se dispunha. Escolas de ensino médio, em especial, apontavam para esse estado de coisas. Algumas públicas, localizadas em regiões ou bairros que contavam com uma classe média presente, em São Paulo, nos bairros situados na zona oeste da cidade. Outras privadas e que também primavam por uma perspectiva de ensino que levasse em consideração o que se entendia que fosse a recuperação da tradição filosófica de cunho humanista. Alguns de nós fomos mais permeáveis às humanidades, bem como a um viés bibliográfico em especial.

Em alguma medida, a origem cristã – mais até que a marxista – poderia ser recuperada, em se tratando da abordagem com que nos deparamos naquele período. Há ingredientes que podem ser sacados e que se aproximam desse recorte: a crença assumida de que se tenha alcançado a consciência em relação ao que de fato veio a ocorrer; o expurgo de má consciência, à moda de Nietzsche, por conta da identificação de que se tenha feito parte, em gerações passadas, da classe que veio a oprimir os mais pobres e desfavorecidos; a assunção da persona que se coloca do lado correto, do ponto de vista de uma moral obtida primeiramente no Iluminismo e que se alcançou por intermédio dos locais mencionados acima em que se estudou.

Esse quadro não é tão nítido, nem claro e já se apresenta ao mundo munido de muitos tipos de anteparos e defesas: há uma identificação entre o que se fala, se defende ou ataca e o entendimento de si próprio. Talvez o que venha a explicar o nível de polaridade que se alcança nas controvérsias e confrontos de opinião política. Fosse diferente e não discutiríamos, como não o fazemos quando a disputa passa por uma apreciação de uma comida, ou tipo de carro ou um destino de viagem. A polarização política é um clássico e, no mais das vezes, dispõe duas pessoas que pensam diferente e que possuem soluções para o país.

Aqui em especial, chama-nos atenção a abnegação daquele que, de coração aberto, com franqueza e honestidade, se posta do lado dos que mais necessitam, dos mais desfavorecidos. Tudo isso pode acontecer, sem dúvida, e a história apresenta relatos – poucos é verdade – de pessoas que optaram por correr riscos para proteger ou salvar aqueles que estavam em situação difícil. Mas nos perguntamos sobre o que pode vir a mobilizar e promover a aderência de um número tão grande de pessoas que se postam do lado das causas humanistas, a se crer nas manifestações nas redes sociais.

Adam Smith escreveu um livro que vem equivocadamente sendo deixado de lado, uma vez que somente o seu A riqueza das Nações é lembrado. Talvez um caso emblemático de uma obra das mais mencionadas e das menos lidas da história: a mão invisível do mercado é a expressão-código que é pronunciada para parecer que se conhece o livro. Falamos aqui de Teoria dos Sentimentos Morais (1759). Dentre tantas passagens significativas, uma vem sendo bastante citada e mencionada, e ela se ajusta bem ao que estamos desenvolvendo nessa coluna.

Suponhamos que o grande império da China, com suas miríades de habitantes, fosse subitamente engolido por um terremoto, e consideremos como um homem bondoso na Europa, que não tivesse nenhum tipo de laço com aquela parte do mundo, seria afetado ao ter notícia dessa horrenda calamidade. Ele iria, imagino eu, em primeiro lugar, manifestar muito fortemente sua tristeza pelo infortúnio daquele povo infeliz, faria muitas reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana e sobre a vaidade de todos os labores do homem que podem ser assim aniquilados numa só tacada. Talvez, ainda, caso fosse um homem de especulação, ele entrasse em muitos raciocínios a respeito dos efeitos que esse desastre poderia causar ao comércio da Europa, e aos negócios e empreitadas do mundo em geral. E quando toda essa sutil filosofia se acabasse, quando todos esses belos sentimentos humanos tivessem sido dignamente expressados uma vez, ele continuaria seus trabalhos ou lazer, repousaria ou se divertiria, com a mesma calma e tranquilidade, como se aquele acidente jamais tivesse acontecido. O mais frívolo acidente que lhe sucedesse ocasionaria um distúrbio mais real. Se ele fosse perder o dedo mindinho amanhã, não dormiria essa noite; mas, por nunca tê-los visto ele roncaria com a mais profunda segurança sobre a ruína de cem milhões de seus semelhantes, e a destruição daquela imensa multidão obviamente lhe parece um objeto menos interessante do que esse mísero infortúnio que é só seu.

Os sentimentos morais a que o título faz menção podem ser aproximados da concepção de comportamento que hoje demarcamos. Smith vai dispondo uma série de situações em que estão em jogo posicionamentos, assentimentos ou não, julgamentos, atitudes. Isso tudo vem como manifestação de concepções gerais que o filósofo supôs ter alcançado. Essa obra pode e deve ser lida como meio de fornecimento de situações e casos que podem ser pesquisados sob a ótica do comportamento político contemporâneo, expressamente quando se coloca em relevo o tema clássico da natureza humana.

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.