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Uma causa elegante, mesmo que sem glamour

Um homem, suponhamos, caminha por um atalho de montanha; tropeça e cai num precipício. Foi preciso, para que esse acidente acontecesse, a reunião de um grande número de elementos determinantes. Entre eles, a existência da gravidade, a presença de um relevo, resultante de longas vicissitudes geológicas, o traçado de um caminho, destinado, por exemplo, a ligar uma aldeia a suas pastagens de verão. Será́ portanto perfeitamente legítimo dizer que, se as leis da mecânica celeste fossem diferentes, se a evolução da Terra tivesse sido outra, se a economia alpina não se fundasse na transumância sazonal, a queda não teria acontecido. Pergunta-se porém qual foi a causa? Todos responderão: o tropeço. Não é de modo algum que este antecedente fosse mais necessário ao fato. Muitos outros o eram no mesmo nível. Mas, entre todos, ele se distingue por diversas características mais evidentes; vinha por último, era o menos permanente, o mais excepcional na ordem geral do mundo; enfim, em razão mesmo dessa menor generalidade, sua intervenção parece a que pode mais facilmente ser evitada. Por essas razões, parece ligado ao efeito de uma influência mais direta e não escapamos ao sentimento de que foi ele o único a tê-lo produzido. Aos olhos do senso comum, que, ao falar de causa, tem sempre dificuldade em se livrar de um certo antropomorfismo, esse componente do último minuto, esse componente particular e inopinado se parece um pouco com o artista que dá forma a uma matéria plástica já toda preparada. (Marc Bloch. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002, pp. 155, 156.)

Essa passagem escrita pelo historiador Marc Bloch dirige a nossa atenção para o que julgamos que sejam as causas dos acontecimentos ou eventos históricos – e isto do ponto de vista profissional –, daí o título dessa obra póstuma, escrita às vésperas de seu fuzilamento pela Gestapo, em 1944. Trouxe-a aqui porque ela abre caminhos para uma reflexão que ultrapassa a sua proposta, o que costuma ocorrer com as grandes obras. Poucos entre nós conseguiriam ir tão longe quanto Bloch na exploração das causas possíveis. Mas sua proposta de explicação não é falaciosa do ponto de vista da lógica, uma vez que uma série de eventos tiveram que ocorrer para que o tropeço acontecesse. Sendo então coerente, a listagem das causas possíveis, que poderiam explicar o ocorrido, termina por lançar ao relativismo o que poderíamos compreender e tomar como seu principal motivo. Poderíamos igualmente levar em consideração as consequências, sinalizando então outro aspecto que não o tropeço propriamente dito. Mas se o fizemos, foi porque julgamos como significativo o valor que concedemos à vida humana. Fosse outro o entendimento, uma diferente consequência poderia ser considerada e também aceita.

Causas e consequências são motivo de disputa histórica e, dependendo do acontecimento, podem ser igualmente questionadas a partir do interesse pessoal. Para o nosso exercício de reflexão aqui, a política será a nossa motivação. E isso por percebermos que causas e consequências não ficam imunes ante os embates nessa arena. Esse confronto sem fim se configura no contemporâneo, em expressões igualmente beligerantes, tais como batalhas de narrativas ou guerras culturais. Ambos os neologismos denotam, a partir do próprio fato de serem vistos como novidades, um sinal do afastamento que temos em relação ao passado. Não somente isso, mas, especialmente, uma falta de constrangimento ou escrúpulos em nos remetermos aos acontecimentos de um passado mais distante. De fato, não se nota um cuidado ou afastamento devido em relação àquilo que já ocorreu, e, quando não exercemos o ceticismo, nos movemos de um lado para outro e pendemos para aquele que conta com a nossa preferência pessoal e subjetiva. As causas são disputadas e costumam dizer mais respeito aos interesses de quem as julga mais adequadas. Na Babel das opiniões e sentenças sobre o passado, algumas interpretações se consagram, seja pela profundidade do tratamento junto a um grande número de fontes, ou por ganharem maior legitimação pública. Acima de tudo, nos interessam aqui as explicações mais sofisticadas e que nos conquistem pela elegância.

Assim, um número razoável e possível de motivações pode ser encontrado, sem que com isso se fira o bom senso. Vejamos um caso, citado no livro Os Botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história, dos químicos Penny Le Couter e Jay Burreson (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006). Os autores narram, em síntese, a derrota do exército napoleônico para os russos em 1812, bem como a retirada em direção à França em meio ao rigoroso inverno da região. Para os autores:

Os princípios e ideais da Revolução Francesa de 1789-99 haviam acompanhado o exército conquistador de Napoleão, demolindo a ordem medieval da sociedade, alterando fronteiras políticas e fomentando a ideia de nacionalismo. Seu legado foi também prático. Administração civil geral e os códigos jurídicos substituíram os sistemas extremamente variados e confusos de leis, e introduziram-se regulamentos regionais, ao mesmo tempo que se introduziram novos conceitos de indivíduo, família e direitos de propriedade. O sistema decimal de pesos e medidas tornou-se a norma, em vez do caos de centenas de padrões de medidas. (COUTER; BURRESON, 2006, pp. 7-8).

Mesmo assim, com tudo isso que transparece superioridade, Napoleão conheceu a derrota. Qual seria a causa da derrocada do grande general? Para além de todas as tentativas de explicação, os autores chamam a nossa atenção para uma em especial: os botões dos casacos dos soldados franceses.

Um botão de estanho, para sermos exatos, do tipo que fechava todas as roupas no exército, dos sobretudos dos oficiais às calças e paletós dos soldados de infantaria. Quando a temperatura cai, o reluzente estanho metálico começa a se tornar friável e a se esboroar num pó cinza e metálico – continua sendo estanho, mas com forma estrutural diferente. (…) Estavam os homens de Napoleão, quando os botões de seus uniformes se desintegravam, tão debilitados e gélidos que não tinham mais condições de atuar como soldados? Será que, à falta de botões, passaram a ter de usar as mãos para prender a segurar as roupas, e não mais segurar as armas? (COUTER; BURRESON, 2006, p. 8)

Os próprios autores têm dúvidas em relação a essa hipótese, mas o simples fato dela ser mencionada e de aventarmos a possibilidade de ser válida poderia sim nos predispor ao exercício da dúvida mais constante em relação ao que muitos de nós aceitamos e tomamos como favas contadas. Imaginem se tivéssemos a mesma perspectiva de tratamento para com outros grandes eventos históricos? Estaríamos predispostos a nos deparar com causas que não dessem suporte aos nossos interesses subjetivos configurados em políticos? Em outras palavras, e mais diretas, quem aceitaria uma causa que, de tão simples, não pudesse dar suporte ideológico a um lado ou outro?

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.