Behavior

Os textos clássicos de Filosofia falam de comportamento?

Sim, a filosofia mais clássica aborda o comportamento, mesmo que esta palavra não seja pronunciada de modo explícito. Mas é possível que percebamos que os dilemas humanos se manifestam através de suas posições ou posturas. Assim, é no embate com o cotidiano mais prosaico que o comportamento ganha volume e se torna passível de ser matizado.

Veja este trecho do Novun Organon, de Francis Bacon (1561-1626):

O intelecto humano não é luz pura, pois recebe influência da vontade e dos afetos, donde se poder gerar a ciência que se quer. Pois o homem rejeita as dificuldades, levado pela impaciência da investigação; a sobriedade, porque sofreia a esperança; os princípios supremos da natureza, em favor da superstição; a luz da experiência, em favor da arrogância e do orgulho, evitando parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras; paradoxos, por respeito à opinião do vulgo. Enfim, inúmeras são as fórmulas pelas quais o sentimento, quase sempre imperceptível, se insinua e afeta o intelecto. (BACON, São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p. 43).

Você percebeu o comportamento aí? Bacon desejou tornar patente o fato de que uma pessoa tende a se apegar aquilo que acreditava ser verdadeiro – e por isso ele pode até simular que tenha realizado um exame desinteressado, quando ele verdadeiramente não ocorreu. Além disso, podemos dizer que, nesse exemplo, há um preconceito tornado borrado pela maquiagem da neutralidade. Essa situação disposta pelo filósofo se encontra no campo da epistemologia, ou teoria do conhecimento. Mas ela pode iluminar também uma discussão sobre os debates políticos, quando um eleitor se coloca como neutro em relação à política, sendo que ele esconde um posicionamento que sempre possuiu.

Tomás de Aquino (1225-1274), especialmente nos Sete Pecados Capitais, enuncia um outro exemplo, particularmente quando aborda as filhas e filhos do pecado. Aí está com toda a exuberância a manifestação do vício. Loquacidade desvairada, alegria néscia e expansividade debochada são as filhas da gula e gula não é só comer, mas beber também. Temos aí um comportamento a partir do qual se reconhece o erro. E a sina do caso é que não se consegue agir de modo diferente – temos uma situação em que a pessoa se torna refém deste vício, que, de tão forte, faz com que ela se torne previsível.

A inveja possui cinco filhas: murmuração, detração, ódio, exultação pela adversidade e aflição pela prosperidade. Todos nós já cruzamos com alguns desses comportamentos. Para La Rochefoucauld (1613-1680), “costumamos nos envaidecer das paixões; mas a inveja é uma paixão tímida e vergonhosa que jamais ousamos confessar”. Uma das obras do Princeton Studies in Political Behavior se chama exatamente A inveja na Política – Gwyneth H. McClendon, Envy in Politics. New Jersey: Princeton University Press, 2018.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), nos ensinamentos dados ao Príncipe, coloca a seguinte questão: é melhor para o príncipe, ser amado ou temido?

Pode-se responder que todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las, é bem mais seguro ser temido que amado, caso venha a faltar uma das coisas. Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos; assim, enquanto o príncipe agir com benevolência, eles se doarão inteiros, lhe oferecerão o próprio sangue, os bens, a vida e os filhos, mas só nos períodos de bonança, como se disse mais acima; entretanto, quando surgirem as dificuldades, eles passarão à revolta, e o príncipe que confiar inteiramente na palavra deles se arruinará ao ver-se despreparado para tais revezes. (MAQUIAVEL, N., São Paulo, Penguin e Companhia das Letras, 2010, p. 102).

E de acordo com Nietzsche (1844-1900), “elogiamos ou censuramos, a depender de qual nos dá mais oportunidade de fazer brilhar nosso julgamento”.

Esta, evidentemente, é uma minúscula amostra das possibilidades de se olhar para os ensinamentos filosóficos sob o ponto de vista do comportamento. Alguns dos autores mencionados aqui elaboraram suas reflexões sob a luz do conceito de natureza humana, especialmente Aquino, La Rochefoucauld e Maquiavel. Mas todos eles tinham como princípio a observação e a pesquisa sobre as atitudes, o que hoje chamaríamos de comportamento.

Na pesquisa em comportamento político, tais autores, dentre outros, também nos auxiliam na interpretação dos resultados com que nos deparamos. Há aí uma dose então de imaginação que pode nos auxiliar tanto na análise dos dados obtidos quanto na chegada aos objetos que queremos pesquisar.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.