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Da política e de sua atração

A política é quase tão excitante quanto à guerra e tão perigosa quanto ela. A diferença é que na guerra, você só morre uma vez. Winston Churchill (Ruy Castro, O melhor do mau humor: uma ontologia de citações venenosas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 105)

Aqui no LABÔ, nos grupos de estudo que debatem o tema da política, eu acredito que uma questão seja recorrente: o que faz a política ser um tema atraente? Esse pode sim ser um início apenas retórico e essa pergunta pode ser apenas minha. Sobre vários aspectos, acho a política um tema árido. Quando se entra então nos protocolos e procedimentos de debate e de votação no congresso, nem se fala. Idas e vindas, conversas cifradas e mais conversas, interesses de todos os lados, para dizer o mínimo.

Entra-se na política por algum tipo de idealismo? Talvez. Ou já pode haver alguma intenção na proposta de convencimento de que o sujeito seja de fato um idealista. Mas se a pessoa estiver sendo franca, a política será uma máquina voraz de destruição de crenças – e não exatamente porque estamos supondo que seja um campo execrável de atuação. Apenas não cremos que o idealismo vá resistir perante a necessidade constante de acordos, contatos e experiências que fazem parte da ação política profissional.

Aqueles que passaram parte da vida, mesmo que com pouca idade, na virada da década de 60 para 70, foram incentivados à participação política para que com isso se distanciassem da alienação. Claro que nem todos, mas as pessoas que se sensibilizaram pelos confrontos com a ditadura e que se embalaram pela produção artística do Brasil de então. Havia algo de formador nessa opinião e que era remetido à consciência política, tema presente nas discussões da época.

Resta dizer, à vista disso, que o idealismo grassava, mesmo porque se sonhava com melhores mundos, com primaveras de abertura e liberdade. Recupero esse momento por suspeitar que ele seja um ponto de referência em relação a um tipo de visão sobre a política. Eu me refiro aqui a uma interpretação mais pueril, mais exatamente aquela que confere boas as expectativas à política e que dá suporte e justificativa para as crenças mais otimistas.

Acerca dessa orientação, Jason Brennan, autor de Against Democracy (Princeton University Press, 2017), já citado aqui, possui um entendimento diferente. Para ele, quanto mais nos aproximamos da política, mais tomamos contato com possibilidades espúrias e beirando algum tipo de corrupção. Estaria o autor próximo da verdade sobre o interesse na política? Nessa direção, se desenvolvêssemos mais a sua hipótese, a política interessaria aquelas pessoas que têm uma atração pelo poder, mas não exatamente do ponto de vista do bem público. Política e poder podem despertar a atração simplesmente pelo que são, pelas possibilidades que abrem e que passam por um tipo específico de sociabilidade, de demandas e de envolvimento. Uma pessoa pode ter a disposição de se sentir procurada, de caminhar para desatar nós, de ser aquela que os ata ou ser a encarregada para tanto.

Tratando-se de um país e de uma cultura, já tão mapeada pelos chamados intérpretes do Brasil Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, marcada pela necessidade de uma política menor, dos compadrios, conversas de bastidores ou reconhecimento de serviços prestados junto ao poder, a política acaba tendo tantos outros incentivos que divergem das boas causas. Tendo essa orientação e necessidade, o bem pode ser um capital para o proselitismo, mas nem sempre. Na era das redes sociais, aparentar ser o bad guy pode render muitos frutos. O importante é estar na mídia, ser mencionado, ser linkado a um assunto que está repercutindo e provocando engajamento.

Portanto, um ponto de vista passível de reflexão aqui é o quanto a percepção de que a política possa consistir num bem não mantém o viés de perversão dessa atividade – a partir da associação da política com o idealismo. Mas podemos ter outras afinidades em relação a ela. Algumas pessoas apreciam filmes cuja temática é política, e isso porque o tema passa pelo poder e pela aproximação com um circuito de tomada de decisões. Ainda assim, raramente nos deparamos com propostas que não sejam igualmente infantilizadas, a começar pela definição de bem e mal. Ou então quando se investe na figura de alguém que seja representado por alguma espécie de luta, como se diz, equivocadamente, adiante de seu tempo.

Em vista dessas possibilidades, pode ser que a política somente desperte a atenção e o interesse mais exatamente por ser apresentada de um modo bastante simples e que seja produtor de algum tipo de idealismo. Com certeza, salvo em uma situação profissional, dificilmente poderíamos supor que alguém viesse a gostar da política. No cotidiano mais prosaico, quando nos referimos a alguém em nosso trabalho como sendo político, normalmente tememos pelo que ele possa fazer ou se estamos do lado dele, somos identificados ou não. De alguma forma, parece que mantemos uma diferença com pessoas que têm uma finalidade associada ao próprio trabalho que possuem. Aquele que observamos como sendo político, segue sendo alguém bastante dedicado a outros interesses, na maior parte das vezes, um tanto desconhecidos e obscuros.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.