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“Não olhe para cima” logo será esquecido

A compreensão reconhece à imaginação uma posição essencial na construção da história: transferir esquemas explicativos, experimentados no presente, para uma situação histórica e colocar-se no lugar de quem é objeto de estudo, consiste em imaginar as situações e os homens. Para ilustrar este aspecto, Collingwood citava o exemplo de alguém que, depois de despedir-se do amigo que tinha recebido para jantar, pensava nele, imaginando-o a subir a escadaria de sua casa e procurar as chaves da porta em seu bolso; ao representar-se tais imagens, ele executava uma operação semelhante à do historiador ao construir a história. PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008, p. 153.

Historiadores de ofício reconhecem a imaginação como um item de grande importância para a elaboração de hipóteses e para a abertura de possibilidades e perspectivas explicativas que venham a sustentar uma interpretação. Creio que poucas pessoas contem com essa conexão entre imaginação, hipóteses, pesquisa, explicação e finalmente a construção de uma narrativa. Esquecemos os exemplos oferecidos pela literatura, de modo mais específico, quando ela corteja a história, como nos casos de Vida e Destino, de Vassili Grossman (1905-1964), e de Pastoral Americana,de Philip Roth (1933-2018).

O primeiro livro tem como foco a Batalha de Stalingrado, e o segundo a militância clandestina e radical na década de 70 nos Estados Unidos. Em ambos os casos, a história emoldura a trama e oferece os contornos da tragédia de modo mais pessoal e autoral na caracterização das personagens ou de suas posturas, atitudes e envolvimentos. Para todos esses aspectos, a imaginação ocupou um lugar significativo e resta dizer que se trata de grandes narrativas, uma vez que, mais do que nos reter a atenção ou nos distrair, provocam-nos no desafio de aceitar ou não os desfechos e as continuidades.

Veja que não há necessidade alguma de que sejamos condescendentes com o que lemos. As narrativas não contam com nenhum tipo de aparato de edição ou pirotecnia. E, por serem obras literárias, nossas vias de identificação se dão através do tema, do que poderemos saber sobre os autores e pouco mais do que isso. A imaginação segue sendo um importante ponto de partida, dado que os eventos históricos mapeados e alicerçados pela erudição dos pesquisadores não simplificam as situações e, antes disso, oferecem complexidade à narrativa. Por isso, ela não nos passa a dimensão de ser óbvia ou tomada por clichês, para então poderem ser mais facilmente acessadas por um público mais amplo e que está na busca de entretenimento, ocupação de seu tempo por um produto da indústria cultural, quase um acessório da pizza que se vai comer depois.

A falta de imaginação na elaboração de um roteiro é o que presenciamos em Não Olhe para Cima (2021), filme dirigido por Adam McKay e com as atuações de Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Cate Blanchet, Meryl Streep, Jonah Hill, entre outros. Trata-se de uma proposta catártica ao contrário. O tom caricatural não nos provoca dificuldade alguma na realização das identificações com a política que se faz no mundo contemporâneo, em especial naquelas localidades em que o populismo se destaca. Políticos são cruéis, descaradamente honestos em sua vileza, sem constrangimento em parecerem maus e cínicos. A mídia é formada por pessoas desumanizadas e incapazes de dispor de qualquer tipo de empatia. Acompanhamos, mais uma vez, a hipótese do absurdo e da extinção da humanidade com hora e datas marcadas. Como aconteceu com os dinossauros, a Terra será alvo de um grande cometa que conduzirá o planeta à destruição. No entanto, de modo distinto em relação à suposta primeira vez, a humanidade se divide entre aqueles que estão alheios à derrocada e aqueles que nela acreditam: nada mais obviamente didático para nos dispor o negacionismo em oposição àqueles que sabem. Nada é sutil ou mais sofisticado. Pense nos seus políticos preferidos, se os tiver, ou nos mais malvados, como se fossem vilões das animações da década de 50.

Os atores se destacam, isso é um fato, e estamos cercados deles com boas performances. Constitui-se então em uma obra em que, basicamente, e quase que exclusivamente, esta é a única coisa que se pode obter, nada mais. Há pitadas de Melancholia (2011), de Lars von Triers, com pitadas de A árvore da vida (2011), de Terence Malick. Mas o saldo geral é mesmo de retomada das produções B, japonesas e norte-americanas, aquelas em que o mundo começa a ser destruído por Tóquio ou Washington.

Enfim, nada mais Trump do que a presidente encarnada por Meryl Streep. Nada mais nonsense do que o jornal nacional da vez, com destaque para Cate Blanchet. Nada mais americano do que a retomada da crença na família, com direito a um quase Thanksgiving, com prece e tudo, e com diversidade de gênero e raça. Sobra até espaço para os sem teto.

Brasileiros que viram e gostaram sentem-se de alguma forma com a alma lavada, chegando até a identificar Bolsonaro na trama. Difícil supor que o americano médio saiba onde fica o Brasil no mapa. O próprio mapa já é uma quimera. O filme é sobre os Estados Unidos e para os Estados Unidos. A ideia de que Bolsonaro seja representado trai somente a aspiração provinciana de se ver representado num filme de primeiro mundo. A sensação que se tem é a mesma da eterna esperança de que uma obra brasileira ganhe um Oscar ou um cidadão um Nobel. Quando nada disso ocorre, voltamos a destacar a pouca importância dessas premiações. Agimos então como um auditório de um programa de variedades de domingo.

E por que a menção à catarse ao contrário? Simplesmente porque o cidadão comum, mas que se julga politizado, experimenta a sensação da compreensão da política. Ele realiza isso durante a exibição. Ele se identifica com os mocinhos do filme e contempla a classe política ou a mídia como se tivessem sido desenhados para ele.

Propomos aqui que esse filme seja revisto daqui a 3 anos. E que seja comparado com um outro roman a clef, como Doutor Fantástico (1964), de Stanley Kubrick. Ele conseguiria resistir por tanto tempo ou será tão fugaz e superficial quanto os personagens que nos apresentou? Pensa diferente? Be my guest.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.