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Quando não gostamos daquilo que não se parece conosco

Todos aqui seguramente já ouviram, quando nós mesmos não pronunciamos, uma sentença que se inicia assim: como pode isso acontecer em pleno século XXI? Começo a coluna desta semana a partir dessa frase, um pouco para me deter no exame do tipo de concepção ou hipótese que lhe serve de lastro, que faça com que semelhante injunção pareça pertinente.

Num primeiro momento, é bom sinalizar que essa sentença pode ser pronunciada por um público que abarca um razoável espectro. Digamos que, seja qual for a amplitude do repertório daquele que a pronuncia, faz-se necessário ter condições para estabelecer uma comparação cronológica entre o que se entende encontrar-se “adiante no tempo”, “mais avançado” do que o que antes ocorria, mais “desenvolvido” ou “evoluído”. E se aqui uso as aspas, é notadamente para sinalizar que essas justificativas estão longe de ser evidentes quando em comparação com os graus centígrados em que a água entra em ebulição considerando o nível do mar. Muito dificilmente conseguiríamos alcançar um consenso para o que seja considerado um avanço ou retrocesso, ainda mais porque estes dois entendimentos dependem de um conjunto de variáveis, sendo os valores defendidos, em uma direção ou outra, os mais implicados na opinião. Mas por que haveria essa aparente concordância em relação ao que se acredita ser mais desenvolvido ou mais atrasado? Defendemos aqui a hipótese de que a defesa de um lado ou de outro dependa muito mais dos motivos políticos que dão suporte às diferentes visões.

O exercício de imaginação que eu proponho nesta coluna é o de supor outras épocas da história, outros tempos, então, em que essa suposta justificativa em relação ao que era tido como atrasado ou avançado nem sequer seria possível. A chamada história contrafactual, acalentada por historiadores como Niall Ferguson ou John Lewis Gaddis, ajudará nessa empreitada. Poderíamos supor que um servo medieval, um asteca ou um felá egípcio, para nos atermos a esses exemplos, tivesse uma ansiedade pelo avanço, melhoria de desempenho tecnológico ou mesmo algum tipo de expectativa em relação ao aprimoramento dos valores culturais, do que se tomava e que se pensava em relação aos outros? Mais do que a tecnologia, o que imperava naquelas épocas era a natureza e o acesso a ela por meio da mística. A expectativa era de que a chuva sempre viesse, que as estações se sucedessem, que o tempo de colheita se fizesse presente com periodicidade. Digamos aqui que essas pessoas não ajustavam o tempo às suas marcas de presença, à alguma sorte de crença positiva, de sucesso ou libertação. O que então teria se alterado em relação às expectativas mencionadas? Por que nos ambientamos a um tempo domado, passível de ser controlado, uma vez que podemos até nos frustrar com os desfechos dos eventos que não se adequam ao que supomos que deveria acontecer?

Nossa hipótese é de que a presunção em relação ao futuro e, em vista disso, a alteração do que até então acontecia e que poderia dar espaço para algo considerado mais avançado ou atrasado tenha exatamente a ver com a concepção de modernidade. E aqui, sem entrar com profundidade nesse conceito, basta que tenhamos em mente que a ansiedade em relação ao futuro, especificamente na direção das transformações tecnológicas, culturais ou sociais, faz parte da própria concepção do que vem a ser o moderno. Já tivemos oportunidade de apontar que a caracterização de modernidade não ambiciona e nem se habilita à imunidade política. O moderno não é neutro como poderia ser uma data ou o horário mostrado num relógio.

Ser moderno é se sentir, ao menos historicamente, up-to-date, em sintonia com seu tempo e, por vezes, adiante dos mais comuns mortais. Essa designação não é exatamente nova, foi primeiramente demarcada por Charles Baudelaire (1821-1867) e seguiu como suporte inclusive para a chamada dialética das vanguardas do século XX. Trata-se então de uma concepção historicamente circunscrita, datada e remetida às intenções políticas, econômicas e sociais de um momento em especial que veio a se consagrar como um padrão mais difícil de ser contraposto.

Assim, nos acostumamos a recontar a história do presente calcados em nossas simpatias e identificações, retomando aquilo que consideramos o ponto inicial. Não damos a devida atenção ao fato de que não podemos nos deparar com personagens do passado que já intuíam o futuro. No mais das vezes, essa interpretação mais se ajusta aos roteiros ou livros mais simplificados que buscam exaltar ou consagrar alguém que tenha se destacado em razão daquilo que pensou e, melhor ainda, que venha a ser tomado como um precursor.

Queremos dizer aqui que o inverso é mais verdadeiro e coerente. Escolhemos aqueles momentos ou personagens do passado que se ajustam às nossas aderências do presente, sejam elas políticas, estéticas ou culturais. Assim, para citar alguns casos e exemplos, não se trata de dizer que Duchamp (1887-1968), Foucault (1926-1984) ou Simone de Beauvoir (1908-1986) foram à frente de seu tempo, mas sim que, posteriormente, criamos identificação com o que eles pensaram, produziram ou escreveram.

Voltemos então para a questão do início desta abordagem: o vício de supor e acreditar que sejamos mais avançados em relação ao passado. Enfatizamos aqui que esse juízo necessita de um critério para que se mostre válido. E qual seria esse critério? Temos que ter algo em mente, um ponto de partida e outro adiante para que sejam comparados. Somos capazes de fazer isso de maneira segura em relação a um automóvel, por exemplo. Leve-se em consideração a segurança, o conforto, o tipo de combustível, se precisa ou não de um motorista. O mesmo em relação a um notebook, se ele tem uma boa performance, se é mais leve ou mais potente. Mas como estender esse tratamento para outros campos da nossa vida, para valores ou julgamentos culturais?

Quando nos surpreendemos com determinados eventos no contemporâneo e manifestamos a nossa perplexidade de ainda ocorrerem, partimos de que tipo de comparações ou de seleção prévia de informações? A dificuldade, para não dizer impossibilidade, de se conseguir triar os acontecimentos não pode ser perdida de vista. Vivemos num mundo que apresenta uma simultaneidade de culturas, afazeres, hábitos e valores que, em conjunto, indicam a presença de situações e contextos já vividos e assemelhados às idades mais antigas – contando aí a própria pré-história, no seu momento em que éramos nômades, caçadores e coletores. Tudo isso convivendo com os fenômenos que mais costumam sensibilizar a muitos de nós e que se manifestam nos gadjets, nos smartphones, nas naves espaciais.

Quem manifesta surpresa com o que julga ultrapassado, não revelará um certo traço de provincianismo em relação ao que entende serem as últimas novidades que já foram por ele intuídas? Lembrando aqui que quem já tomou contato com a abordagem de Tomás de Aquino nos Sete Pecados Capitais bem sabe que a presunção de novidades é uma das filhas da vaidade, ou uma de suas formas de manifestação.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.