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Você é uma pessoa politizada?

A pergunta do título é retórica. Mesmo porque, quem conseguiria responder de modo satisfatório a essa questão? Não teríamos como controlar as variáveis para se chegar a uma resposta que fosse passível de aceitação stricto sensu. Podemos compreender que alguém tenha interesse pela política, acompanhe os jornais, blogs, revistas, enfim, que a tenha como um tema que o mobilize. O mesmo pode ser aproximado de alguém que tenha predileção por filmes políticos, intrigas de bastidores, perdas e tomadas de poder, etc.

Percebemos, todos, situações que são tomadas pela política de um modo mais intenso. Em especial, quando acontecem manifestações, movimentos da sociedade civil, trânsito comprometido, bombas, preocupação com quem está nas ruas, etc. Mas isso dura um tempo limitado. Pessoas existem que acham bom esse tipo de participação e que acreditam que essa politização seja algo positivo, como se todos permanecêssemos mais alertas e vigilantes em relação às atitudes do governo. Por outro lado, podemos também notar que não são todas as manifestações que são consideradas boas do ponto de vista da politização, e para isso concorrem tanto aqueles que participam delas como os que são contrários ao governo alvo de luta ou protesto. Estas variações comprometem e dificultam qualquer perspectiva de definição da palavra politização.

A ida às ruas em massa, quando remetida ao desejo de queda de um ou uma presidente, aproxima-se de fato da política. Mas muitos podem ser os motivos que levam as pessoas à participação. Ressentimento é um deles, ira outro. Ambos os sentimentos são difíceis de separar da política, mas tanto um como outro precisam de um objeto que os amplifique, e a participação coletiva pode fornecer mais estímulos ainda.

Das questões que poderiam ser colocadas hoje, uma delas diz respeito à ideia de continuidade entre o que ocorreu em nosso país durante a ditadura e o que está se manifestando atualmente. Há uma geração que se encontra entre os 65 a 75 anos, que viveu o auge de sua adolescência nos períodos mais intensos do regime militar. Outros, com 45 a 55, tiveram outras reminiscências, seguramente remetidas aos primeiros anos de suas vidas, alguns até o ensino médio. Fora disso, as gerações que se sucederam somente tiveram acesso a essas informações através de testemunhos ou na escola.

Há uma geração dentre nós, nascida nos anos na virada para o ano 2000. Eles estão ouvindo falar de acontecimentos que se deram 50 anos atrás. Aqueles de nós que temos por volta de 50 anos, quando com 20 anos de idade, não tínhamos a mesma intensidade com assuntos ou temas que recuperassem a ditadura de Getúlio Vargas ou relativos à Segunda Guerra Mundial.

Parece que alguns exigem dos mais jovens uma reação que eles nunca poderão ter, uma vez que esse tempo passado não é o deles. Suas questões são outras e suas tensões também. Seria bom que não fossem tão pilhados pelos mais velhos, dado que a lida com o cotidiano já parece trazer uma dose extra de estresse. Penso aqui se uma geração anterior não oprime a atual a fazer aquilo que foi idealizado e que não conseguiu alcançar.

Não creio que esse comportamento ressoe por toda essa geração, mas, seguramente, estamos falando de um tipo de pessoa – tanto os pais quanto os filhos – que pode ser mapeado pelas atitudes e pelo comportamento. Poderíamos, então, nos deparar com tipos específicos de comidas, de filmes assistidos, músicas ouvidas, etc. Enfim, toda uma subjetividade que seria facilmente alcançada.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.