Behavior

Um café com a cultura woke

O momento em que vivemos – tão demarcado pela nossa presença nas mídias sociais, espaço no qual revelamos as nossas opiniões e deixamos claro o que pensamos em relação aos mais variados assuntos – habilitou grandes perspectivas para que sejamos conhecidos pelo que enunciamos gostar ou não. O like diz muito a nosso respeito e, basicamente, é o que desejamos que aconteça.

Mas não é somente isso. Num contexto de ideologização geral e de polarização, nossas escolhas mais prosaicas também são reveladoras de nossos posicionamentos políticos, indicam nossas predileções ou, no mínimo, o que queremos que seja transmitido aos outros de um modo mais coerente. Tudo isso, num contexto balizado pela cultura woke, estimula uma participação quase que bovina, ou seja, já se sabe de antemão que tipo de opinião deve servir como âncora para que passemos despercebidos, evitando qualquer sinal de comprometimento. Não se trata, mais exatamente, de demonstrar um domínio maior sobre o espaço em que colocamos as nossas fichas, mas somente de deixá-las ali, contanto que saiamos ilesos pelo fato de parecermos pensar de acordo com uma maioria virtuosa. Os riscos do cancelamento, da presença de um touro – a face radical das causas boas e carregadas de virtude – estão sempre à nossa espreita.

As grandes produtoras de filmes e os apps de entretenimento por streaming parecem saber muito bem disso. Não que tudo ocorra exatamente como numa sombria teoria da conspiração. Os dados de audiência – os views – atestam se uma produção audiovisual teve bom recall, se a maioria das pessoas assistiu ao vídeo até o final ou, caso não o tenham feito, em que cenas eles pararam de acompanhar. Todos esses indicadores somados são também reveladores de comportamento.

Nessa direção, a narrativa conta com muita atenção e importância. Essas produções se configuram como ofertas de significado – meaning – que ajudarão no estabelecimento de nossas visões sobre os temas e assuntos: darão match. Num ambiente de antagonismo ideológico, identificamos também uma batalha de narrativas, sendo que aquela que escolhermos transmitirá uma mensagem mais clara sobre o que somos, pensamos ou sentimos.

Assim, observamos que alguns filmes ou séries têm pautado questões ou temas que se aproximam das causas sociais, da desigualdade, da injustiça, da crítica ao capitalismo ou de um posicionamento de cunho ambientalista. Outras produções terminam por exaltar o sucesso individual, as qualidades positivas da economia de cunho mais liberal, as críticas à censura, à perseguição política ou ao autoritarismo presente nos países cujos governos são de esquerda.

Pode ser que essas predileções somente concorram e sejam pensadas como reação do ponto de vista da publicidade que damos a elas, e por isso a nossa avidez em demarcar nossas sentenças e juízos, com o máximo de clareza possível nas redes sociais. Importam mais os interesses pessoais do que propriamente os nossos julgamentos mais sinceros.

Nada disso é novo e muitos de nós levamos esses gostos em consideração em conversas sobre o que se viu e o que se assiste. A diferença aqui, no campo da Pesquisa em Comportamento Político, é que a indicação como um dado do filme que se gostou ou não pode, em conjunto com outras afirmações, permitir uma interpretação recíproca quanto ao posicionamento político desta pessoa. Com isso, só as respostas às perguntas acerca dos filmes prediletos podem não dizer muita coisa. Mas uma pergunta como essa, aliada a outras que posam vir a sondar outras predileções – tais como tipo de cozinha preferida, se tai, coreana ou brasileira, por exemplo –, já pode ensejar o aparecimento de algumas hipóteses que sinalizem o comportamento político. Esses dados também podem vir a demonstrar que de fato vivemos numa bolha, nos reconhecemos pelos nossos gostos, nossas concepções de mundo, os filmes a que assistimos ou os tipos de viagem que gostamos de fazer. Todas essas informações, numa época de polarização, podem indicar inclinações e tendências políticas. Podemos elevar a régua em relação à vaidade, quando agregamos todas essas predileções aos modos com que ambicionamos nos diferenciar em público.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.