
Há dois métodos de evitar as desgraças da facção: ou prevenir-lhe as causas, ou corrigir-lhe os efeitos. Os métodos de prevenir as causas das facções são igualmente dois: o primeiro, destruir a liberdade essencial à sua existência; o segundo, dar a todos os cidadãos as mesmas opiniões, as mesmas paixões e os mesmos interesses. O primeiro remédio é pior que o mal (…) O segundo meio teria tanto de impraticável, como o primeiro de insensato. James Madison, O Federalista. São Paulo: Editora Abril, 1973. Original de 1787.
Leio no The Free Press que Nova York acordou no dia 7 de março para o que seria uma tentativa de ataque terrorista com uma bomba caseira (Terror on the Upper East Side, Mene Ukueberuwa, 09/03/2026). Nesse dia, havia uma manifestação contra a presença do islamismo, liderada pelo supremacista Jake Lang e que se realizava em frente à residência do prefeito, Zohran Mamdani. Contudo, houve um conflito mais generalizado quando um grupo de oponentes identificados com o islamismo chegou ao local. Os relatos apontam que dois jovens pertencentes a essa facção conduziram a bomba de mão em mão até ela ser arremessada contra os manifestantes opostos. Presos, os dois militantes, cujos nomes eram Emir Balat e Ibrahin Kayumi, proclamaram o brado Allahu akbar em alto e bom som. E qual não foi a surpresa quando a declaração do prefeito imputou os militantes anti-islâmicos como os autores do atentado. De acordo com Mamdami,
Ontem, o supremacista branco Jake Lang organizou um protesto do lado de fora da Mansão Gracie enraizado no fanatismo e no racismo. Esse ódio não tem lugar na cidade de Nova York. É uma afronta aos valores da nossa cidade e à unidade que define quem somos. O que se seguiu foi ainda mais perturbador. A violência em um protesto nunca é aceitável. A tentativa de usar um dispositivo explosivo e ferir os outros não é apenas criminosa, é repreensível e a antítese de quem somos. Zohran Mamdani, 08/03/2016, op. cit.
A grande imprensa apenas repercutiu essa informação e foi o que se encontrou como resposta. Inútil procurar nos jornais brasileiros que nada noticiaram, tomados que estão pela cobertura do caso envolvendo o STF e o banco Master. Mas creio que nada diriam, mesmo se os ventos soprassem com mais serenidade. Uma mudança de atitude estratégica somente ocorreria se a imprensa legitimada passasse a se dedicar ao exame quase erudito das fontes e do cruzamento delas com o que se mimetiza em informação nas redes sociais e nos seus tentáculos.
Temos nesse caso uma situação que se distingue em estrutura do que conhecemos como sendo uma prática de ação das fake news. Nos deparamos com uma manobra que conta uma história que preserva alguma verossimilhança, mas que não revela o acontecimento, nem a causa e a motivação, ao menos de uma maneira correta. A lógica interna da declaração de Mamdani guarda proximidade com o que a história passada nos conta sobre a relação dos governos totalitários – União Soviética ou Alemanha nazista – com os acontecimentos que revelavam algum grau de risco para a coesão e coerência esposadas.
Além disso, um procedimento assim visa a preservar um só entendimento do ocorrido, mantendo a defesa arraigada de um dos lados e reputando à má fama do outro, o peso da responsabilidade do que não veio a fazer. Para Mene Ukueberuwa, “Mamdani não é o primeiro prefeito a colocar a lealdade partidária sobre a responsabilidade pública. Mas seu fracasso diante do terror é um novo ponto baixo impressionante”. Fato é que se trata de uma figura pública que joga para a sua torcida e conta com o desejo de se iludir de que seus seguidores professam. De certa forma, perante o acontecido, o desfecho e a sua interpretação já estavam predispostos por parte de quem sobrepõe a sua simpatia pelo político por sobre a sua responsabilidade como cidadão.
A escolha de entendimento de eventos dessa natureza deixa claro que os seguidores do político agem como fiéis para os quais até os equívocos devem ser tomados enquanto tais somente para aqueles que lhe são pares – uma versão do que em português se diz “roupa suja se lava em casa”. Trata-se de prosseguir de modo dogmático no que vem a ser um entendimento inercial da política, compreendendo-a como situada entre o bem o mal. Esse comportamento habilita um tempo para se buscar uma alternativa que dê conta de encobrir o que de mais mesquinho veio a ser realizado e com evitar todo tipo de comprometimento.
É por isso que a qualidade do que é ilícito muda de coloração quando se alteram as predileções ideológicas. E é pelo mesmo motivo que o credo de esquerda tem se manifestado de um modo cada vez mais infantil e revelador de superficialidade. Ter-se como favas contadas que um partido de esquerda, uma vez chegando ao poder, virá a trazer ganhos positivos já é por si só uma tentação inglória e injustificável. E lembrando que até no quesito liberdade – a história os comprova – essa aspiração é falsa.
O mais terrível disso tudo, ao menos no caso ocorrido em Nova York, é ter deixado de lado o que veio a ser um atentado contra a liberdade de expressão sem que os verdadeiros algozes tenham sido reconhecidos enquanto tais por aquele que foi eleito para cuidar da cidade. Lembrando que por liberdade de expressão devemos entender o direito dado à manifestação de ideias com as quais não concordamos. E se isso pode ser visto como um problema, cabe refletir sobre o entendimento que se tem do que é ou não democrático. Algo, enfim, muito mais complexo do que produzir um documento oficial trocando a ordem dos fatores.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

