
É dessa maneira que o jornalista Tim Marshall se refere aos grupos religiosos de orientação islâmica que se alojaram no poder do Irã a partir da revolução em que saíram vencedores em 1979 (O Poder da Geografia: o futuro do nosso mundo em 10 mapas. Rio de Janeiro: Zahar, 2022). A Revolução Islâmica culminou com a chegada ao poder de lideranças xiitas personificadas no clero muçulmano. Não estamos falando da República de Platão, mas sim dos líderes supremos cujos nomes mais conhecidos foram o de Khomeini (1900-1989) e do recém deposto Khamenei (1939-2026).
Controverso, o Irã tem representado a oposição maior que se estabeleceu no Oriente Médio em relação ao Ocidente, tendo como alvos os Estados Unidos e Israel. Como se a história recente viesse a comprovar a predominância do acaso, a antiga Pérsia – de acordo com as referências bíblicas – quando liderada por Dario, foi responsável por atuações que demonstraram afinidade à prática religiosa judaica ou, ao menos, possibilitaram que ela fosse professada livremente.
Desde 1935, o nome do país foi substituído para Irã, mas a presença persa ainda se mantêm em alguns aspectos, seja na língua predominante que é a parsi, seja na manutenção de governos fortes e autoritários como meio do impedimento de divisões internas, étnicas ou religiosas. Enquanto o regime dos aiatolás é xiita, os curdos, a segunda minoria mais representativa do Irã é sunita, motivo pelo qual muitos deles foram massacrados quando se revoltaram, ainda na revolução de 1979. Em relação aos curdos, a teocracia iraniana poderia tomar de seu próprio veneno que é ministrado contra Israel em relação aos palestinos, prova maior de que a justiça não está em jogo nos interesses econômicos que terminam em guerra.
Detentor da quarta maior reserva de petróleo do mundo e da segunda em se tratando de gás, o Irã se destaca na comercialização de energia. Ambos os combustíveis fósseis nos fazem lembrar de que, como se viu em Karl Marx, a infraestrutura está em uma condição de superioridade em relação à superestrutura. Um milhão de Gretas, manifestações do Greenpeace e toda a falação da comunidade artística de Hollywood em nada conseguem arranhar a estrutura econômica inaugurada na Segunda Revolução Industrial. Henry Ford e Thomas Edison não se surpreenderiam por terem feito a aposta certa ainda que na virada do século XIX para o XX.
A retirada brusca do poder do líder supremo e de seus seguidores mais próximos demonstra que a ligação entre intensões econômicas e a política, quando em sintonia, fazem o mundo girar. Nesse caso em especial, vale também que se pense sobre as potências mundiais que não estão atuando sob os holofotes midiáticos. Nesse sentido, seria prudente obter informações sobre as relações entre a China, Rússia e o Irã. E o mesmo pode ser realizado quando nos remetemos ao que proximamente veio a ocorrer na Venezuela. Os mesmos combustíveis fósseis podem dar a direção da reflexão.
Acostumados que estamos com a corrupção realizada sob a luz do dia em nosso país, temos uma dificuldade rara em supor que atitudes tomadas por estadistas possam estar protagonizando a dimensão maior que é a da responsabilidade que se tem sobre os destinos de uma nação. E por mais esforço que façamos, esse é um caso de experiência de alteridade que é abstrata para nós uma vez que apenas temos a dimensão de concretude quando vencemos um campeonato mundial de qualquer modalidade ou somos contemplados com alguma premiação cultural legitimada pelo primeiro mundo.
A síndrome do coadjuvante que forma o nosso caráter delimita de modo oportuno a nossa visão sobre a história mundial, o que faz com que apenas levemos em consideração os temperamentos envolvidos e a coloração mais superficial dos acontecimentos. E por detrás das ações presentificadas e que fazem a vida ser fácil para os profissionais da imprensa, subjaz um volume de dados maturados pelo tempo, geografia e história. Aspectos que quando levados em consideração, limitam os movimentos dos grandes jogadores.
Dos eventos que ora presenciamos, os costumes e hábitos quando em pauta, apenas perfazem a casca mais fina das motivações e o preconceito que aqui e ali persistem são meros efeitos correlatos de uma motivação maior. É claro que é preciso estar atento aos riscos imediatos que eles provocam, mas é bom que se perceba que as motivações são outras e que nada próximo da justiça ou de sua negação tem lugar de primazia.
Mesmo que irresponsáveis e alienados acerca das condições de infraestrutura, as gangues religiosas que se mantêm de modo provisório no poder iraniano repercutem apenas indícios do mal uso que fazem de suas reservas econômicas. E é por apego ao poder e vaidade que esses percursos equivocados ganham corpo e espaço em nações que contam com essa diminuta expressividade em relação ao que pretendem ofertar às novas gerações que virão pela frente: o apego ao presente é um mal que abate as culturas tomadas pelo provincianismo.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

