
As ligações entre política e moral bem poderiam soar como dissonantes, até mesmo porque de tão ruidosas que costumam ser, sempre colocam em risco todos os desavisados úteis que as fazem. E nesse pacote, os céticos que beberam Maquiavel com o leitinho da mamadeira seguem o mesmo destino. Em outras palavras menos metafóricas, enxergar lados bons ou maus na política pode bem valorizar quem não merece e detratar quem assim deve ser tomado, mesmo que tais atitudes sejam motivadas pelo acaso.
Fazer das causas políticas um subtexto da moral que se pretende envergar já se encontra no campo cifrado das performances mais ajustadas à publicidade que se almeja imprimir sobre si mesmo. Simples assim: uma série de variáveis não isoláveis remetem-se às predileções por chocolate, pela cor azul, de estudos de meio em matas distantes à escolha de uma ideologia política. Já o que fazemos com cada uma dessas sinas depende mais do tempo e do espaço compartilhados. Contudo, muitos de nós que defendemos a legitimidade da exposição pública de valores políticos, o fazemos a partir da leitura que se decantou por sobre os eventos revolucionários que embalaram as abordagens historiográficas que nada viram algo trágico nisso, mas sim uma espécie de redenção em que até o paganismo é retomado na concepção de que tenha havido uma tal primavera dos povos.
Vejamos um caso específico aqui, recuperado por François Furet (O passado de uma ilusão: ensaios sobre a ideia comunista no século XX. São Paulo: Siciliano, 1995). Como aceitar que a ideologia comunista tenha granjeado espaço entre aqueles que se apresentam como defensores da democracia e que se encontram em permanente alerta contra qualquer sinal de fumaça que sinalize o recrudescimento do fascismo?
Voltemos então aos anos 30 do século passado para recuperar algumas notas que vieram a produzir uma narrativa harmônica do contexto político que ali se manifestava. De um lado, temos a crise de 29 que leva aos maiores insucessos já reputados ao sistema capitalista até então. Motivo de sofrimento para grande parte do planeta, também foi estímulo para o regozijo de alguns cujas afinidades políticas viam na União Soviética a realização das profecias de Marx e Engels. A chegada de Franklin Roosevelt ao poder e a colocação em prática do New Deal, caminharam para o estabelecimento do consenso de que a intervenção do Estado na economia era o que de mais sensato haveria de ser feito: lembremos que já durante a Segunda Guerra Mundial, o governo Roosevelt não contava com opositores, uma vez que ir contra ele seria percebido como uma torcida para a derrota dos EUA frente aos países do eixo, especialmente é claro, o império japonês.
Por outro, temos a ação do nazismo na usurpação da ideologia fascista o que caminhou para que muito do que havia nos ideais de Mussolini em proximidade com o comunismo viesse a ser apagado: esqueceu-se também que o fascismo havia sido uma manifestação de afinidade em sinal contrário ao internacionalismo professado por Lênin. Quando a história não registra discrepâncias, acreditamos naquilo que melhor nos convém. Até então, o fantasma do comunismo assustava somente aqueles que tivessem tido a má sorte de estarem nas fronteiras do espectro soviético ou que tenham se enfrentado na Guerra Civil que se abateu entre 1917 e 1921, depois de o Golpe Bolchevique atingir o seu resultado: a assembleia constituinte foi proibida e no lugar dela estabelece-se a ditadura do politburo.
A língua, a localização e a cultura russas devem ser levadas em consideração quando se pretende averiguar a dificuldade que sempre foi a de tomar contato com o cotidiano daquela nação e de outras nações vizinhas. O exotismo percebido na Europa Ocidental em relação à Oriental foi levado em consideração nas estratégias pensadas na divulgação do que acontecia por detrás da cortina de ferro. Furet recuperou os convites da burocracia de Stalin para a visita de um conjunto razoável de intelectuais, escritores e pensadores franceses, ingleses ou norte-americanos à União Soviética. Quando retornavam aos seus países, tais pessoas criaram o mito de que não se conhecia de fato o que acontecia de bom nos domínios do stalinismo.
Não se trata aqui de reputar a esses eventos a responsabilidade pela conversão do comunismo em credo secular, mas sim de creditar à maneira com que foram combinados, o suporte e guarida para o entendimento de que essa ideologia fosse um refúgio da luz em meio ao que há de obscuro na política. Confesso aqui que a minha afinidade para com essa recuperação do passado tem como motivo a percepção de que os lastros ideológicos sejam muito mais frágeis do que fingem não ser.
Para François Furet,
o sentido mais profundo da ideologia antifascista elaborada pelos homens do Komintern é, realmente, usar como pretexto a divisão bipolar do mundo político feita pelo nazismo para usá-la contra ele como uma arma decisiva. Hitler empurra a União Soviética para o campo da liberdade. Não basta ela ter se tornado, por força das coisas, a aliada natural das democracias. A lógica da ideologia comunista exige também que ela seja democrática (…) assim, a esquerda intelectual americana terá, nesses anos, com relação ao comunismo, um comportamento comparável ao de seu homólogo da Europa ocidental: não gostará da ideia de examinar de perto a situação interna da URSS, ou de pesar a veracidade das confissões feitas pelos acusados nos grandes processos de Moscou (pp. 287 e 328).
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

