
Hoje, depois que exigimos a luz, a atitude do antissemitismo é mais violenta, mais defensiva ainda. É o seu processo que se prepara, e se a inocência de um judeu se comprovar, que insulto para os antissemitas. Então pode haver um judeu inocente? Seria toda uma armação de mentiras a desabar, pois a boa-fé e a equidade são a ruína de uma seita que só age sobre a multidão dos simples pelo excesso da injúria e pela impudência das calúnias. Émile Zola. “Auto de perguntas”, Figaro, em 5 de dezembro de 1897 in J’accuse: a verdade em marcha. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.
Por que os intelectuais têm afinidade pelos temas constituídos no pensamento de esquerda? E por que algumas análises que terminam por se estabelecer em artigos, dissertações ou teses possuem o tom da defesa de um ideário político? Perguntas como essas reincidem no chavão, que de tão pronunciado nos levam ao objetivo de oferecer alguma perspectiva. Mais uma vez, contamos com testemunhos do passado.
Muitos aqui já devem ter topado com obras que recuperam a história dos intelectuais, objeto de estudo que ganhou destaque a partir das contribuições do sociólogo francês, Pierre Bourdieu (1930-2002). E foi através da busca pela mecânica fina que deu suporte à legitimação dessa atividade enquanto herdeira da justiça que se costuma partir do Caso Dreyfus (1894-1906), aquele que veio inaugurar os tristes acontecimentos reveladores do antissemitismo no século XX. É no escritor Emile Zola (1840-1902) que nos deparamos com o que será reconhecido como o arquétipo do intelectual.
Os atributos que irão se colar à expectativa futura quanto aos intelectuais serão: resiliência, exame acurado dos fatos, percepção acertada da justiça e defesa dela de modo inquebrantável, mesmo que isso venha a significar adentrar a seara dos riscos de sobrevivência. Como escritor, Zola envergava o reconhecimento que fazia de sua literatura um meio para que se fosse possível adentrar as mazelas do povo comum – lembremos de obras como Germinal e Naná. Sua indisposição contra o que viu como injustiça no julgamento por traição, expulsão do exército e consequente prisão do Alfred Dreyfus na Ilha do Diabo, deu corpo midiático e repercutiu o seu acerto na identificação das consequências do infeliz preconceito contra os cidadãos franceses de origem judaica.
A opinião pública teve à sua disposição a possibilidade de rever o seu posicionamento na sequência dos eventos que vieram a comprovar que a condenação de Dreyfus foi fundamentada em documentos forjados. E se o Estado veio a reconhecer o seu erro no julgamento que se fez sob sua guarida e responsabilidade, do ponto de vista dos intelectuais, viu-se ali a unção daqueles profissionais cujo ofício os aproximava da revelação da justiça.
Essa será a persona que irá conferir no futuro, as atribuições as quais seriam investidas aqueles que se voltassem para o exercício diuturno do pensamento e que encontraria o seu ambiente natural nas universidades ou no espaço público conferido pela mídia. De tal forma o ofício intelectual irá corresponder às demandas pela verdade e pela reelaboração do que até então usurpava esse lugar de modo inadequado.
Imbuídos desse mister, a classe de pensadores irá se proliferar e os objetos de estudo mais pungentes serão aqueles que irão contar com repercussão social. Seriam aqueles que motivassem leituras e apropriações mais facilitadas e que viriam por compor um cenário beligerante, em que a verdade sempre se encontraria camuflada e no aguardo por alguém que a revelasse.
Digamos que o século passado ofereceu situações bipolares e que promoveram o acompanhamento político generalizado. Nesse sentido, o embate técnico entre os intelectuais ocorrido até então nas torres de marfim, ganhou um público mais amplo. A midiatização da política e da economia ampliaram a oferta de profissionais que viessem a facilitar o acesso a esses assuntos. Os atributos intelectuais padeciam pela baixa ressonância e, no mais das vezes, somente podiam ser percebidos no interior das sociabilidades acadêmicas destituídas de glamour. Temos aqui um indício do que viria a se constituir como uma aversão ao que fosse identificado como privado, em última instância, ao capitalismo: o apadrinhamento do Estado, mais do que representar o resultado da luta republicana, aproximava-se de uma sinecura que escondia o desejo pujante de obtenção de atenção.
Podemos identificar esse matiz a partir do contato primeiro com o marxismo, de longe, a metodologia mais arrebatadora que os intelectuais tomaram contato: realizar a compreensão do conceito de dialética foi um instante formador da autoconfiança e as perspectivas abertas pelo desejo de evidenciar as contradições motivam o primeiro acesso ao que virá a se tornar uma rotina de pensamento dedicado a isso.
O tempo demonstrou que as causas que valiam a pena lutar deram lugar ao hábito e costume, o que os franceses chamam de physique du rôle. Essa é a indumentária que hoje faz de um autêntico antissemita, um pastiche de intelectual público, como se verdade houvesse para ser revelada.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

