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Maquiavel sacaria o nosso mundo em menos de um minuto

E então você conversa com pessoas e chega à conclusão de que há políticos que são bons e outros que são maus. E que, no contemporâneo, em se tratando da tão falada e cantada crise da democracia, deve-se ter cuidado mais exatamente com a depreciação do fazer político e que, pelo contrário, seria mais adequado exaltar a presença daqueles que se destacam no trabalho com a coisa pública, com as estratégias e encaminhamento de soluções: melhor não deturpar a política. Diga-se que, nesse caso, estamos configurando as ações políticas na perspectiva da existência de partidos, de candidatos, das eleições propriamente ditas, bem como da atuação dos representantes eleitos para as mais diversas instâncias.

Não estamos aqui equivocados quando percebemos esses contornos e características do fazer político que envolvem a dialética das virtudes e dos vícios. Sendo que, em geral, os melhores são aqueles que escolhemos e os piores os escolhidos pelos outros eleitores, nesse caso vistos como ignorantes, alienados ou com interesses difusos. Até mesmo o falar em quem se pretende votar ou então julgar um encaminhamento político como exemplar ou terrível já pressupõe uma certa projeção virtuosa de si mesmo. Expressões como “até quando”, “como pode”, “precisamos fazer alguma coisa” e outras assemelhadas refletem um posicionamento de si mesmo no debate público e, em muitos casos, uma exibição do seu melhor lado, o mais virtuoso e afastado dos vícios que são identificados como sendo tributários do opositor.

Mas e quando nos afastamos dessa dimensão legitimada da política e contemplamos a presença dela no cotidiano? E, mais do que isso, quando pensamos na política como um objeto que se configura, se estabelece no nosso dia a dia e que ganha espaço no interior das relações que temos nas corporações e nos ambientes de trabalho. E se eu trago aqui essa referência, é exatamente para poder iluminar um palco em que o fazer político pode ser mais nitidamente percebido – inclusive quem ganha, quem perde e a que grupos eles pertencem. Nesse caso, e de maneira mais direta e sem rodeios, pode-se evidenciar as estratégias, as práticas, os sucessos e os fracassos que são exemplificados em situações bem definidas.

Nessa visada, podemos dispor diversas situações que sinalizam e demarcam os modos de atuação política, não exatamente transparentes, como tem sido moda falar. O fazer político ganha outros contornos quando se clama pela transparência, mais exatamente para se escolher o que fala e se compartilha e o que não.

Vamos trazer aqui dois comportamentos e atitudes políticas e que fazem parte do nosso cotidiano.

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro. Provérbio que nos remete a uma série de situações nas quais nos deparamos com eminências pardas, pessoas que contam, mas que se postam como coadjuvantes, alheias por vezes às estratégias pragmáticas no cotidiano do nosso trabalho. Nos grupos de WhatsApp, são aquelas que não aparecem, não comentam ou fazem KKKK, mas que acompanham cada movimento, cada fala ou interjeição. Esse comportamento nem sempre, mas muitas vezes, pode ser revelador de uma postura de servir-se e aproveitar-se das informações gratuitas que são ofertadas em profusão. Aparência de compenetração e dedicação contribuem para o despiste e uma certa imagem de isenção. Tudo isso pode nada significar – a não ser que você invista no seu feeling e que realize que nunca foi convidado para algum projeto, nem chamado para participar de alguma proposta que bem poderia contar com os seus conhecimentos.

Pessoas que cumprimentamos, para as quais apenas olhamos, sequer levantamos a cabeça ou às quais nos dedicamos efusivamente. Cada um desses sinais especifica situações bem definidas e que podem revelar encaminhamentos e posições políticas. Lembrando que, como foi dito anteriormente, faz parte de uma estratégia não deixar assim tão claro um procedimento ou outro. É assim que parecer cool e bacana pode render muitos frutos, se você envergar bem o seu papel. O mesmo podendo ser dito acerca de uma pessoa que deseja passar a sensação de ser temida. Essa postura pode significar simplesmente despreparo e insegurança, mas pode funcionar como uma armadilha. Enfim, a partir do primeiro dia de trabalho, todos sabemos muito bem de quem devemos guardar o nome e quem sequer nos mobiliza para tanto, os zeros à esquerda. No entanto, algumas pessoas contam, podem estar do seu lado e, por isso, cumprimentos de cabeça são bem-vindos. Outros, sabemos muito bem os nomes, seus currículos, mas sequer nos referimos a eles por motivos diferentes daqueles que nem são notados. Aqui, o não movimentar a cabeça diz mais sobre a intenção de não capitalizar de forma alguma essa pessoa, um opositor político cujo nome nem deve ser pronunciado. Quando muito, se ainda nos fiamos na educação burguesa, nos referimos a eles por intermédio de suas profissões: “bom dia, professor” ou “boa tarde, doutor”. Tudo isso pegando mais forte quando se trata de um professor falando para outro ou um médico abordando igualmente um colega cujo nome nem nos demos ao trabalho de guardar. O pedido de desculpas pelo desconhecimento, quando passa pela justificativa da ausência de memória, é ainda mais cruel e deselegante. Aliás, a fala permissiva sobre os seus próprios erros soa ainda mais terrível, pois configura uma concessão que se faz sobre as suas próprias atitudes, como um criminoso que releva o ato que cometeu, colocando-se no lugar de uma vítima de suas intenções inconscientes. Trata-se então de um tipo perigoso e arisco e, na maior parte das vezes, não tem problema algum de esquecimento.

Tendo em vista essa aproximação com a política nossa de cada dia, por que será que botamos tanta fé, esperança e abstração nas dinâmicas partidárias que têm a sua face mais visível nas campanhas eleitorais e nas estratégias de permanência no poder? A resposta pode ser que, simplesmente, parecer bom e virtuoso seja apenas uma jogada adequada.

Revendo o título dessa coluna, creio que Maquiavel sacasse a estratégia woke em três segundos.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.