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Todes, alunes e querides estariam na Novafala no 1984 de George Orwell?

Vocabulário B. Esta categoria abrangia palavras deliberadamente criadas com propósitos políticos: palavras que não apenas tinham implicações políticas como tencionavam impor uma disposição mental desejável nas pessoas que as usavam. Sem uma real compreensão dos princípios do Socing, era difícil empregar tais palavras corretamente. Em alguns casos, era possível traduzi-las para a Velhafala ou mesmo para palavras do vocabulário A, porém isso em geral exigia longas paráfrases e sempre resultava na perda de certas nuances de sentido. Tratava-se de uma espécie de taquigrafia verbal, frequentemente resumindo grandes extensões de ideias em poucas sílabas, mostrando-se, ao mesmo tempo, mais precisas e eficazes que o vocabulário empregado no dia a dia. George Orwell. “Princípios da Novafala” in 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Todas as citações nesta coluna foram retiradas dessa mesma referência.

Você acha que o pronome neutro poderia ser prescrito na Novafala, em 1984, de George Orwell? Muito a se pensar. Lembrando aqui que, no apêndice da obra, nos Princípios da Novafala, o autor apresentou os vários alfabetos da língua, pressupondo que ela viesse a ser plenamente aceita, isto é, falada e ouvida, somente no ano de 2050.

Bom, é bem sedutor que aproximemos sim a obsessão contemporânea com a evolução moral de cada um a partir das expressões corretas que temos que nos convencer a usar. Disse contemporânea, mas não é bem assim. Ao menos desde o século XVIII tomamos contato com propostas semelhantes e que também tinham por objetivo romper com costumes orais que denotassem algum estado de coisas que se pretendia ver como superado. É assim que aqui podemos recuperar, embora de uma maneira não exaustiva nem excessivamente didática, a mudança dos nomes dos meses após as revoluções francesa e russa. E em se tratando desses dois eventos históricos, também se fez notar a introdução da expressão cidadão ou camarada para enfatizar uma ruptura à política que antes se apresentava.

Pois bem, nas décadas finais do século passado, observamos a retomada dessa proposta, ainda que nenhum tipo de ruptura maior fosse percebida, ao menos não como o caso das duas revoluções de que falamos. Mesmo assim, configurou-se numa crença, no início um modismo – o que talvez nunca tenha conseguido se distanciar plenamente – de que melhoraríamos moralmente se passássemos a usar as palavras mais ajustadas às intenções ideológicas que manifestávamos.

A Novafala era o idioma oficial da Oceânia e fora concebido para atender às necessidades ideológicas do Socing, ou Socialismo Inglês. Em 1984 ainda não havia quem o empregasse como meio exclusivo de comunicação, tanto oralmente como por escrito. Os editoriais do Times eram redigidos no novo idioma, mas era um tour de force que só especialistas conseguiam executar. Previa-se que a Novafala substituísse completamente a Velhafala (ou o inglês padrão, como o chamamos) por volta de 2050.

Rapidamente, percebeu-se também que aquelas pessoas que não usassem essas expressões cifradas seriam postas sob suspeita, uma vez que poderia ser somente por ignorância, ou por oposição mesmo. Contudo, essas novas palavras foram compondo um glossário conhecido somente por iniciados, o que dificultava saber ao certo as posições ideológicas daqueles que não as usavam. Lembrando aqui que, no apressado dos julgamentos, ignorantes e opositores foram excluídos conjuntamente do convívio de quem dominasse o tal vocabulário. Tudo isso sendo feito com boas intenções, com o ideal de correção e reeducação de quem por acaso pensasse diferente.

O objetivo da Novafala não era somente fornecer um meio de expressão compatível com a visão de mundo e os hábitos mentais dos adeptos do Socing, mas também inviabilizar todas as outras formas de pensamento. A ideia era que, uma vez definitivamente adotada a Novafala e esquecida a Velhafala, um pensamento herege — isto é, um pensamento que divergisse dos princípios do Socing — fosse literalmente impensável, ao menos na medida em que pensamentos dependem de palavras para ser formulados.

Avançamos bem nessa prática no século XXI, e eu tenho algumas hipóteses sobre os motivos disso ter ocorrido assim. O ativismo nas redes sociais seguramente é um deles. Trata-se de uma participação política que guarda poucas relações com o que ocorria décadas atrás. Salvo num aspecto: elas continuam a ser ruidosas. Mesmo que todo esse barulho tenha mais a ver com a divulgação de si próprio do que da causa em questão. Assim, o uso de expressões específicas que tenham sentidos denotativos é o mais atraente, uma vez que fecham um grupo de entendidos. Interessante aqui é perceber que se trata de um ativismo que não se deseja de fato que “pegue”, que seja conhecido por outros, mas sim dar força àquela pessoa que passa a ideia de estar na patota de quem pensa de certa maneira: é um pensamento-estilo. Quando ela se torna mais divulgado, deixa de ser hype.

O vocabulário da Novafala foi elaborado de modo a conferir expressão exata, e amiúde muito sutil, a todos os significados que um membro do Partido pudesse querer apropriadamente transmitir, ao mesmo tempo que excluía todos os demais significados e inclusive a possibilidade de a pessoa chegar a eles por meios indiretos. Para tanto, recorreu-se à criação de novos vocábulos e, sobretudo, à eliminação de vocábulos indesejáveis, bem como à subtração de significados heréticos e, até onde fosse possível, de todo e qualquer significado secundário que os vocábulos remanescentes porventura exibissem.

Empobrecimento intelectual. Há que se pensar nisso. O hábito de procurar expressões que melhor se ajustem ao contemporâneo – algo próximo de escolher palavras que combinem com a cor de seus cabelos – transparece algum tipo de indigência ao nível do pensamento. É bem provável que isso explique por que as piores ideias vêm da Califórnia, como Frank Furedi nos disse em sua lecture aqui no LABÔ: em nenhum lugar conseguimos ver tamanha intimidade entre pensamento e grife como no leste dos Estados Unidos, não por acaso onde se encontra Hollywood. Todes ou alunes são expressões que vestem tão bem como a moda fast-fashion. E nem precisa pensar muito para usá-las.

A palavra livre continuava a existir em Novafala, porém só podia ser empregada em sentenças como: “O caminho está livre” ou: “O toalete está livre”. Não podia ser usada no velho sentido de “politicamente livre” ou “intelectualmente livre”, pois as liberdades políticas e intelectuais já não existiam nem como conceitos, não sendo, portanto, passíveis de ser nomeadas. Por outro lado, embora fosse vista como um fim em si mesma, a redução do vocabulário teve alcance muito mais amplo que a mera supressão de palavras hereges: nenhuma palavra que não fosse imprescindível sobreviveu. A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento, e a redução a um mínimo do estoque de palavras disponíveis era uma maneira indireta de atingir esse propósito.

Finalmente, há o desejo oculto de invadir privacidades, buscar delatores ou dedurar, perseguir e expor pessoas em praças públicas virtuais. Essa sendo a hipótese mais próxima do reconhecimento de Winston Smith e Julia no ano de 1984.

Com base na exposição acima, fica evidente que em Novafala era praticamente impossível expressar, a não ser de modo muito incipiente, quaisquer opiniões que divergissem da ortodoxia. Podia-se, claro, dar vazão a heresias de tipo extremamente vulgar, como se fossem uma espécie de blasfêmia.

Mas e se no passado recente as pessoas não fossem assim tão obcecadas por mantras como “lugar de fala” e passassem a usar expressões julgadas no contemporâneo como passíveis de serem canceladas?

De fato, boa parte da literatura do passado já estava sendo submetida a esse processo. Por uma questão de prestígio, parecera desejável preservar a memória de certas figuras históricas, desde que suas realizações fossem adaptadas à filosofia do Socing. Diversos escritores, como Shakespeare, Milton, Swift, Byron, Dickens e alguns outros estavam sendo traduzidos; quando a tarefa estivesse encerrada, seus textos originais seriam destruídos com tudo o mais que restava da literatura do passado. Essas traduções eram difíceis e demoradas, e não se imaginava que estivessem concluídas antes da primeira ou segunda década do século XXI.

Utopias e distopias seguem sendo irmãs gêmeas.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.