Behavior

A esquerda vai abraçar a causa da família e da tradição?

Fazer política eleitoral é um pouco como pescar. Ao pescar, você acorda cedo e vai para onde estão os peixes – não pra onde gostaria que estivessem. Joga-se a isca (leia-se: uma coisa que eles queiram comer, não “opções saudáveis”) na água. Quando os peixes percebem que estão fisgados, talvez ofereçam resistência. Não ligue: afrouxe a linha. Eles vão acabar se acalmando, e então você poderá recolhê-los devagarinho, com cuidado para não os provocar desnecessariamente. Já a abordagem dos liberais identitários consiste em permanecer em terra, gritando para os peixes sobre os equívocos históricos que o mar lhes infligiu e sobre a necessidade da a vida aquática renunciar ao seu privilégio. Tudo isso na esperança de que os peixes confessem coletivamente seus pecados e nadem até a praia para serem apanhados com rede. Se esta é a sua atitude em relação à pesca, melhor virar vegano. Mark Lilla. O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 94.

Você já pensou em tomar o mercado como referência para muitas das coisas que normalmente catalogamos como sendo externas a ele? Pois bem, essa proposta ganha corpo na medida em que nos encontramos, em meio à cultura do compartilhamento nas redes sociais, o palco para as transações comerciais nos mais diferentes campos. E a política segue sendo a principal vitrine, ao menos para um grupo bem definido de pessoas. Devemos aqui compreender que a moeda política não é legitimada ou reconhecida de uma maneira semelhante por todos. Vai daí que o modo com que a abordamos termina por transmitir nossos trejeitos, vícios de comportamento ou maneirismos para outros grupos assemelhados. Assim, os nossos ativos são reconhecidos enquanto tais pelas pessoas que se parecem conosco. É bastante crível supor então que nos mostramos – as nossas virtudes, o nosso melhor lado, qualidades positivas – para seres com os quais compartilhamos o mesmo espaço virtual ou presencial.

É um sonho supor que consigamos atravessar fronteiras rumo a lugares desconhecidos e com pessoas que pensem diferente de nós. Mais do que possibilitar a diversidade – um assunto-moeda na metafísica woke – permanecemos somente entre iguais. Quando muito, as diferenças são percebidas na sociabilidade familiar, aqueles para os quais a pregação é presa fácil da intimidade forçada.

Nas redes sociais, a demonstração de virtude é um ativo. Não digo nem a virtude, ela própria, uma vez que o que mais importa é a maneira com que se veste o papel na autoexposição. E não que isso seja realizado por tentativa e erro, muito pelo contrário. Num contexto específico em que os parâmetros são ofertados por muitas pessoas, em que das marcas à educação de filhos e comportamento com os pets tomamos contato com os modos corretos de ser, expor-se adequadamente é tudo. Acredito que seja por isso que nos deparamos com homens-marca, pessoas dedicadas a si mesmas, partindo do rigoroso critério que têm em relação ao que se espera moralmente de um hamburguer ou de um saco de lixo.

A política vai se entrelaçando com esse tema, na medida em que ela tende a se encostar em tudo o que possa render dividendos futuros. Virtude segue sendo o principal produto de sua vitrine. Esse capital já foi disputado de um modo mais severo em tempos passados, mas, nos últimos 40 anos, tem se estabelecido como destaque das hostes aparentadas com a esquerda. Não é difícil perceber o porquê. O aparecimento histórico da esquerda guarda ligações com um contra-ataque, com uma visão estratégica de luta contra a classe dominante, assim identificada e facilmente percebida por meio do ressentimento. Não é necessário que recuperemos essa história para notarmos o capital simbólico da esquerda como ligado às boas e fraternas causas. E num contexto mais amplo em que se percebe que o antigo bom-mocismo, o bom-tom, a etiqueta e os hábitos saudáveis, tudo isso de alguma forma conversa com uma herança pagã da esquerda, as virtudes para se exibir, se aproximando dessa perspectiva. É por isso que, hoje, até nas marcas se pode encontrar um subproduto de Che Guevara, oferecido com gelo e limão.

No entanto, sendo o embate político travado na arena das virtudes, quais as pautas que estão sendo alinhadas no campo do compartilhamento? Vimos aqui que parecer bom é um ativo de esquerda. Mas como a direita tem se comportado? Percebemos que aos poucos foi sendo estabelecida uma metafísica na linha do orgulho de ser de direita. Há um tipo de colagem que também recupera aspectos aparentemente díspares, mas que terminam por forjar uma persona. Sendo assim, a recuperação do sertanejo passa pelos atributos do contato com a terra e com os animais – pela criação –, bem como pela alma do homem solitário, que palmilha de sol a sol as “terras desse nosso Brasil”. Uma idealização ao nível das Pastorais pode ser um caminho – uma picada seria a melhor palavra– para uma melhor caracterização. Esse ser assim constituído se aproxima do “gigante adormecido”, muito trabalha, é quieto e não reclama, não tem luxos e é próximo do que quer que se assemelhe ao espartano. É o indivíduo tarimbado, sendo tarimba o nome que se dava aos rústicos estrados de couro entrelaçado em que dormiam os soldados ou viajantes do passado brasileiro, e que marcavam as suas costas. Note-se que aqui também nos aproximamos de outro ser que se desenha por sobre uma metafísica igualmente balizada pela abnegação, pela alegria contida, a saudade de casa e da família, o abridor de fronteiras e caminhos transmutado em caminhoneiro. Muito orgulho há aqui nessas paragens.

A liberdade vai se personificando na propalada sensação de desafio silencioso das convenções, do comer ao ar livre, da ausência de cerimônia e do desconhecimento das regras de etiqueta. A exaltação da simplicidade é um produto desse sentimento difundido de liberdade. Estamos aqui a um passo de dizer o que se quer, não importando as repercussões ou constrangimentos. O orgulho então se manifesta na ausência de pudor com o que se fala e no cansaço com o resignar-se diante das pessoas estudadas que se julgam superiores. O ressentimento dá, assim, também o seu ar da presença.

A ponta que se manifesta nas redes, mesmo que imbuída de todos esses traços, é composta de assertividade, self made News, daquele indivíduo que se informa a partir de suas próprias fontes e que aprendeu a jogar no campo das esquerdas, forçando as notas e carregando nas tintas para enviesar sua narrativa. A disputa ali sendo a de identificação para maiores compartilhamentos e engajamentos.

Os temas? Família, como contra ofensiva às pautas de diversidade de gênero e o aborto. A religião se encontra por perto e sua versão relevante é a do cotidiano, da crença silenciosa, mas que se manifesta detidamente na pauta dos costumes. A segurança, por motivos óbvios, mas fácil de se colocar em mira, seja pelo uso da estatística de números pequenos ou pela insondável, mas eficaz, sensação de insegurança. As soluções se corporificam também em assertividade e energia, dedos em riste e a apologia da liberdade na posse e uso de armas, elemento importado da cultura norte-americana – a mesma que vende com sucesso os chapéus de cowboy e a grandes caminhonetes movidas a óleo diesel, sonho de consumo do peão de boiadeiro Brasil afora. O ser politicamente incorreto ou do direito de falar o que pensa sem medo da ofensa ou da agressividade: se ficarmos quietos, nossos filhos irão se perder.

No momento em que escrevo, notamos que essas pautas também recebem o olhar das esquerdas, sendo então a hora de sinalizar que nos aproximamos de uma direitização geral. Com isso nos perguntamos sobre quais seriam os ativos da esquerda nos dias de hoje. As pautas identitárias perderão o seu espaço para aquelas que mais se aproximam da família, da religião e de uma mais correta orientação de costumes?

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.