Behavior

Das épocas e dos períodos idealizados

Em janeiro de 1960, Marc viajou para fazer uma reportagem sobre um novo tipo de sociedade comunista, em construção na China popular. Voltou para Sainte-Maxime, em 23 de junho, no meio da tarde. A casa parecia deserta. Entretanto, uma garota de uns 15 anos, completamente nua, estava em posição de lótus no tapete da sala. “Gone to the beach…”, fez em resposta às questões dele, antes de recair na apatia. No quarto de Janine, um enorme barbudo, visivelmente bêbado, roncava atravessado na cama. Marc aguçou o ouvido; chegaram-lhe gemidos e grunhidos.

No quarto de cima, reinava um fedor assustador; o sol, penetrando pelas vidraças, iluminava violentamente as lajotas em preto e branco. Seu filho engatinhava desajeitadamente, resvalando, de vez em quando, numa poça de urina ou de excrementos. Piscava os olhos e gemia sem parar. Percebendo uma presença humana, tentou fugir. Marc tomou-o nos braços; aterrorizado, o pequeno tremia.

Marc saiu de novo. Numa loja próxima, comprou uma cadeira de bebê. Escreveu um bilhete para Janine, subiu no carro, prendeu a criança na cadeirinha e partiu em direção ao norte. Na altura de Valência, bifurcou para o Maciço Central. Caía a note. De vez em quando, entre duas curvas, dava uma olhada no filho que dormitava no banco de trás; sentia-se invadido por uma estranha sensação.

(Michel Houellebecq. Partículas elementares. Porto Alegre: Sulina, 2008, p. 31.)

Quantas e quais são as possibilidades de releitura do passado? Talvez infinitas. Mas não exageremos. Alguns períodos são bastante retomados e contam com poucas alterações nas abordagens. Por vezes, algumas fontes históricas são relidas e mobilizadas por modas passageiras e que influenciam no tema que será novamente vistoriado.

Não subestimemos as eras mais próximas e que contam com gerações que ainda privam da sociabilidade com as mais jovens. Mas essas gerações não podem ser tão antigas. Assim, alguém que tenha entre 58 e 78 anos nos dias de hoje tem uma recuperação, ao nível da memória, que cobre as décadas de 60 e 70 do século passado – sendo desnecessário retomar que a apropriação da memória se dá de várias e distintas maneiras, para isso concorrendo o acesso que se teve aos produtos da cultura, sejam eles abstratos ou materiais.

Toda essa introdução para apontar que eu tenho aqui um período bem definido, no qual desejo focar: a década de 60. Quero abordar uma obra da literatura que tem esse momento como formador dos personagens protagonistas, que viveram a sua infância na França e nos Estados Unidos por esses anos. Trata-se de Partículas elementares, de Michel Houellebecq, publicado na França no ano de 1998 e entre nós em 2008.

Francês, nascido em 1956, Houllebecq tem sido razoavelmente traduzido para o português – o que sinaliza a percepção de que haja aderência junto ao público leitor nativo. Para tanto pode ser que tenham contribuído suas obras mais recentes, Submissão (publicado simultaneamente na França e no Brasil, em 2015) e Serotonina (lançado em 2019, também em ambos os países). Essas duas obras são costumeiramente mencionadas como antecipadoras do ataque ocorrido no Charlie Hebdo e do movimento de protesto dos gilet jeune (coletes amarelos), na França.

Para mim, ao ler Houellebecq pela primeira vez, o que me veio à mente foi a proximidade de estilo com Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), escritor e médico francês, lembrado pela sua aderência radical ao nazismo e ao antissemitismo e autor de Viagem ao fim da noite (1932). Mas é mais exatamente em relação ao estilo de sua narrativa e à maneira com que descortina desejos e anseios humanos, sem qualquer tipo de constrangimento, que julgo haver proximidade entre ambos os autores. Trata-se de uma literatura adulta, pouco concessiva e que vasculha as mentiras e hipocrisias havidas na comédia humana. Faz parte desse panteão o escritor norte-americano Philip Roth (1933-2018), que também demonstrou envergadura e desprendimento para dispor os dilemas por vezes mais exóticos e contundentes que cercam a experiência humana nos campos dos afetos e do enfrentamento da maturidade e envelhecimento. E, em se tratando da recuperação dos eventos da década de 60, Partículas elementares pode ser aproximado de A pastoral americana, obra de Roth, publicada primeiramente em 1997.

Mas como é a recuperação desse passado específico na obra de Houellebecq? Esqueça os filmes apologéticos que você já viu, que procuram estimular os espectadores através do trabalho conjunto de som e imagem, sempre na tentativa de fazer parecer que o óbvio se renova. Não, a década de 60 em Partículas elementares não tem glamour. É um tempo como tantos outros, com a agravante de que alguns jovens das sociedades mais ricas do planeta julgaram-se liberados de toda sorte de amarras. Na prática, quem se esmerou nessa fé aproximou-se de um destino trágico que colocou em risco os seus filhos, especialmente quando bebês, e a si mesmos, por conta de uma miríade de excessos.

Os vários personagens que desfilam pela obra parecem zanzar de um lugar para outro numa manifestação constante de acídia: às vezes suspeitamos que estão procurando alguma coisa que os tirem da inércia. Em outras situações, percebemos que eles não conseguem sair dela. Assim, a curiosidade, aliada à saúde e disposição, vão dando lugar ao vazio que se instala e que é percebido nas impressões e nas falas ao longo da narrativa.

A retomada então desse momento mais deixa transparecer que se tratou de uma época bastante tensa e preocupante, principalmente quando se leva em consideração a constância com que se deixavam para lá as obrigações mais básicas, como a necessidade de se cuidar de uma criança, pagar contas e assumir responsabilidades.

Com isso, queremos apontar que o período em questão perde quando somente percebido a partir de lentes ou palavras enternecidas. Por vezes, o que nos chama a atenção é a qualidade dos produtos de cultura da década de 60, que de modo bastante claro foram fortemente aproveitados pela indústria de entretenimento que bebeu dessa fonte. Nessa direção, a idealização tinge os eventos com os matizes que melhor agradam os observadores. Para tanto, conta o fato de termos experiências mediadas pelos que viveram esse passado. Uma das últimas cartas que se lança é trocar em moedas as suas experiências passadas, como se elas de fato tivessem permanecido intactas naquilo que primeiramente foi visto como uma manifestação de virtude.

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.