
A audiência pode nos predispor a termos mais interesse na qualidade do conteúdo que pretendemos apresentar? Pode bem ser que sim. Não precisamos ser experts em comportamento para perceber que um público desinteressado pode influir na dedicação que teremos quanto ao que levaremos a ele. Não seria equívoco pensar aqui que essas dúvidas nos aproximam das tensões havidas entre Platão e os sofistas. Naquele caso, pesava na avaliação platônica o fato de que o mérito do que seria oferecido pelos sofistas modificava de acordo com a plateia que iria acolhê-lo, motivo pelo qual o filósofo grego os chamava de embusteiros: nada havia de verdadeiro na retórica sofista e somente se buscava o envolvimento do público.
E se prosseguirmos um pouco nas conjecturas sobre expectativas de Platão, o mais correto seria ajustar o que se levaria a essa audiência como meio para que ela alcançasse o conhecimento que lhe fosse cabível. E se ela somente se pautasse pelo que é concreto, os exemplos a serem ofertados deveriam ser dessa natureza. Recuperamos aqui a República e a disposição geral de que o ensino – a Paidéia – somente viesse a acontecer em relação àqueles que tivessem a necessidade de distinção entre o bem e o mal, ou seja, que fossem suscetíveis à kalokagathia. E se educação formal houvesse para os servos, ela seria fundamentada na cópia uma vez que essa prática daria conta da produção do que se repete e é necessário à preservação dos corpos assim como são as roupas, os calçados e a alimentação.
Faço essa introdução como modo de preservar o itinerário do que pretendo abordar aqui. Meu foco está nas notícias internacionais, em especial, em relação à dedicação com que são abordadas nas mídias brasileiras. Falo então de conteúdo, de sua divulgação, de quem o produz e em relação a quem o recebe. O tema que me mobiliza é o das guerras que ora ocorrem e sobre as quais, do ponto de vista do que acabei de dizer, tenho muitas perguntas, dúvidas, incertezas e quase nada de aproveitamento.
E se parto do princípio de que o tom da divulgação das notícias referentes às guerras somente tem ligações com a expectativa que se tem sobre os leitores, eu consigo supor um perfil definido de como eles são imaginados. O público consumidor de notícias é disperso de um modo que permanece como beija-flor parando por instantes num ponto para seguir para outro e assim por diante. A atenção sendo fluida, evita por pouco que ele tome contato com uma escrita indecifrável ou suas variações para que algum contraste fosse estimulante. Não há interesse algum em informações objetivas do tipo quando, onde e como. Esses dados devem cansar o leitor e por isso eles não são colocados e quando o são, pode ser que sirvam para se alcançar o número mínimo de toques obrigatórios. Do ponto de vista da capacidade de interpretação tem-se como parâmetro um verdadeiro desastre e o que se escreve já vem com juízos sobre certo e errado ou bem ou mal. Todos os recursos que se remetam à geografia devem ser abandonados, pois nas palavras-chave que mediam a atenção não se encontram mapas e coordenadas. Nada deve ser disposto que venha a retirar o leitor de seu sono dogmático e o que se escreve nem de perto passa pela hipótese da prática cética. Supõe-se somente uma confirmação para quem assim a deseja ou uma aversão para quem assim se manifesta.
Lembrando que dentre as notícias internacionais, a aspiração maior é que elas se situem no campo das celebridades, dos influencers e do que se disse e que causou. Aspirar por atenção em relação a uma guerra, somente se ela predispor uma associação pré-existente e, nessa direção, o antissemitismo e a política norte-americana sempre ocuparão o protagonismo. Fala-se bem ou mal, mas nunca se esgota a perspectiva de se remeter a quem lidera e de tal forma é essa obsessão, que ficamos sem saber se ela existe por admiração incontida, ódio ou desejo ferrenho de ser aceito.
A infelicidade contraditória maior é que ao se deixar de abordar quem não está na liderança, confirmamos com franqueza de que nem se vale a pena perder tempo. Quantas guerras e conflitos ecoam por aí sem que ninguém sequer se dê conta de suas ocorrências? Uma vidraça quebrada em uma casa em New York chama mais a atenção que um tanque assolando uma multidão em Bengali. Triste isso, não? A se crer pelo que acompanhamos no desfile das notícias, nem um pouco.
O leitor é esse ser que acorda de madrugada para mais exatamente ler o que lhe inspira em ódio e agressividade e a mídia é feita levando em consideração a sua imagem e semelhança. E tão tolo ele é que sequer sabe que a receita do que lhe deixa furioso pode ser feita por bots elaborados por algoritmos e tudo isso, Made in China. Mas o que importa?
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

