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A falta que Nietzsche nos faz

“[o jaburu…] a ave que para mim simboliza nossa terra. Tem estatura avantajada, pernas grossas, asas fornidas, e passa os dias com uma perna cruzada na outra, triste, triste, daquela austera, apagada e vil tristeza.” Capistrano de Abreu, epígrafe de Retrato do Brasil (1929), de Paulo Prado.

Simulamos uma nação a partir de feriados cujos acontecimentos que lhes forjaram a oportunidade sequer nos recordamos. Despontamos entre outros povos uma vez que tendo chegado o lugar na fila, nos demos ao trabalho de costurar uma bandeira que ficou entre uma cópia dos Estados Unidos e uma variação geométrica da que tivemos sob o Antigo Regime. Fizemos um concurso para que uma letra fosse encaixada na música do hino nacional, o que veio a acontecer em 1922, no centenário de uma independência que havia sido proclamada através de um surto bipolar. Das datas consagradas à pátria, pouco ou quase nada é reconhecido. E se cultura é um conceito vago, a coisa somente piora em ausência de sentido quando nos referimos ao nosso país: o esculacho em trajes de gala faz protagonizar a nossa preocupação maior com a aparência.

Adestramo-nos ao protocolo e entregamos o básico em se tratando de um esboço em que o nome é democracia. Pierre Bourdieu bem poderia ser o nosso sociólogo oficial, de tal modo foi capaz de distinguir comportamentos e saberes a partir do aprendizado que se faz em relação a possuir a habilidade de pegar os talheres corretos ou usar a farda adequada que dá acesso às academias que por aqui se proliferaram. O domínio da etiqueta une os espectros que transitam entre a legalidade e o crime de tal forma que se tem dificuldade de demarcar contrastes.

A dialética se pronuncia no Brasil na alternância de lideranças equivocadas e adeptas da virada de mesa, prometendo o que não irão cumprir e aumentando o número de seus seguidores por meio de contratos de gaveta. Assim, podemos variar entre esquerda e direita com a finalidade de se locupletar no que a abstração do Estado pode oferecer. É o que explica o fato de chamarmos de gratuitos os serviços de educação ou saúde públicas.

E é munido do sentimento apátrida que seguimos a carregar nas costas os desfeitos aqui realizados. Temos uma dificuldade imensa de entender os modos através dos quais a corrupção acontece. São tantos casos, um após o outro, que quando nos encaminhamos para o esquecimento de um, uma nova situação nos é apresentada. É dessa forma que o primeiro a arremessar uma pedra tende a ganhar o protagonismo, sendo ele de esquerda ou direita, o que é um detalhe de menor importância e impacto, pois a ideologia não faz bem ao pragmatismo. Na política, a borra mãe já oferece a diferença entre os coronéis: ou cordeais ou os de linha dura. Não nos vemos como condenados a escolher, mas sim à acídia que nos faz a quase todos, insipientes e amantes do luxo brega. Dizem que alguns de nós possuem uma tara pelo BDSM político que por aqui se manifesta.

Sobre a direita pesa o passado de uma vez ter alavancado o rompimento de uma ordem pactuada por eles próprios: “a bola é minha e não tem mais jogo” pode também ajudar na nossa compreensão. Muito mal fez para o Brasil, o grupo militar ter sido alçado ao patamar do pensamento, ainda que se discuta se o positivismo de fato o seja. A posse de armas justificada pelo monopólio do uso da força teve em nosso país a sua presença pouco contestada, ao menos o suficiente para que não fosse inviabilizada.

Já a esquerda tem o beneplácito perpétuo de quem se afeiçoe pela virada de mesa light, o hay que endurecerse que caiu tanto no agrado de uma parcela da população mais arejada, estudada e que aprendeu a conjugar corretamente os verbos e que arrisca aqui e ali, uma poesia. E se coloca uma música nela, então, esqueça e siga para o abraço. A nova lenda urbana é acreditar que temos contínuas manifestações que evidenciam a luta de classes. O álibi está em interpretar no fracasso dessas iniciativas a presença subliminar de uma prática revolucionária que se antecipa ao presente dos tempos. Nutrirmos expectativas positivas em relação ao coletivo é o que nos faz ir mais ao fundo do poço do cinismo.

Monumentos erigidos por apadrinhamentos, nomes de avenidas que perpetuam os mesmos personagens de um clássico fla-flu entre família e a existência de obras que personificam os três poderes bem compõe o cenário de arremedo que nos faz figurar entre as nações do planeta. Nossos piores dias são aqueles da pasmaceira, do cotidiano comum em que nada chama a atenção ou que pareça estar fora do lugar.

O inominável cuja brisa leve parece conceder a normalidade é o momento em que, por definição, tudo o que nos corrompe e apequena ganha viço e poder. A longa duração nos define como um lugar em que o mal ajambrado dá suporte e justificativa para o nada que somos enquanto paródia de organização social e política.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.