Behavior

Sonhar com os melhores tempos idos: quando o passado se ajusta ao gosto do freguês

Entre a multidão de fatos históricos, alguns existem, e são de longe a maioria, que nada mais provam além da sua condição de fatos. Há outros que podem ser úteis para chegar-se a uma conclusão parcial, por via da qual o filósofo fica capacitado a julgar os motivos de determinada ação ou de algumas das características particulares de uma personalidade; tais fatos dizem respeito apenas a elos individuais de uma cadeia. Aqueles cuja influência se estende pelo sistema todo e que estão correlacionados de um modo tão íntimo a ponto de imprimir movimento às molas de ação, são muito raros; e ainda mais raro é encontrar um gênio que saiba distingui-los em meio ao vasto caos de acontecimentos a que estão confundidos para considerá-los em si, desentranhados do restante. Edward Gibbon. Declínio e queda do império romano. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 16.

Tempos ansiosos como os nossos colocam diferentes gerações na expectativa de uma redenção. E, para tanto, faz-se comparações com situações anteriores e que são escolhidas e triadas para que nos deparemos com o pior e o melhor, mesmo que esses sejam mediados por afetos.

Já tivemos a oportunidade aqui de mencionar o papel da imaginação quando da tentativa de se conectar fatos históricos com a intenção de elaboração de uma narrativa. A epígrafe do historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794) toca também nesse aspecto. Afinal, como aceitar que um encaminhamento lógico de fatos venha a ser melhor do que outros? Pode ser que a prova do tempo passe a conferir mais legitimidade a uma explicação em detrimento de outra. Ou então que se trate de uma narrativa que possua melhores justificativas do que outras. Quem aprecia um livro de história tem isso em mente, quando se experimenta boas associações de ideias.

Mas a imaginação histórica depende fundamentalmente de repertório, de um conhecimento mais amplo sobre vários temas – não somente os históricos, mas também os que se aproximam da literatura. Um ingrediente a mais julgo que seja a abordagem devida ao ceticismo. Ganhamos muito em termos de aprofundamento e abertura de perspectivas quando supomos cenários e jogamos com contrários. Quanto mais nos afastamos do afeto – que se relaciona com credos ideológicos – melhor nos aproximamos de uma explicação mais convincente do passado histórico.

No entanto, difícil para o contemporâneo talvez seja a humildade praticada por um historiador que supõe que a história que elaborou esteja equivocada nas causas e consequências por ele apontadas. Sobre isso, o trecho citado de Gibbon também faz um alerta. Creio que essa dificuldade se deva em parte às explicações que se configuram em mantras e raramente são questionadas. Vem daí a crença mais prepotente de que uma determinada narrativa guarde plena identidade com o que de fato aconteceu.

Essas perguntas e reflexões desenham um quadro que está muito distante da abordagem corriqueira que é feita do passado e da história, sendo que elas se aproximam do fazer profissional do historiador. Contudo, a história tem como material e referência os acontecimentos do passado, inclusive o mais recente. E, por vezes, é o presente que nos provoca para a busca de matrizes nos tempos idos.

Mas temos outras tensões que se revelam em relação à retomada do passado e elas também sinalizam a presença da polarização afetiva, do ponto de vista da política. As narrativas históricas seguem sendo pouco imunes às investidas ideológicas de amplo espectro e ajusta-se o fato ao interesse de quem fala. A imaginação que então entra aqui não é a mesma que abordei acima, mas sim nasce em meio às confusões e interesses ubíquos.

Mais sensato seria deixar o passado quieto e abster-se de dar opiniões a seu respeito. Ou, então, ler em profusão as obras de história que abordem o período de seu interesse. Esse contato pode estimular a boa imaginação de que falamos. Quem teria interesse e tempo para isso?

Então fácil, mesmo que terrível, é se valer da explicação histórica como se de fato ela viesse a ser. Num contexto de polarização, fala-se da história como se ela fosse exclusivamente política, ou seja, como se desse oportunidade ao convencimento ou à conversão. Não me refiro aqui às fake news, neologismo para o que sempre ocorreu no passado, mas especialmente às tentativas mais alentadas de produção de explicação do passado. Deveríamos sempre, guardar uma distância de segurança em relação a elas, e ao menos supor que possamos estar errados. Como crer que isso seja possível no contexto político contemporâneo?

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com