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O que os políticos fazem para chamar a nossa atenção?

Uma pergunta desse tipo pode nos conduzir à retomada da história, na direção de perceber distinções e modos de atuação. Essa questão não é nova e o contato com o passado costuma configurar essa preocupação, mesmo antes do culto à democracia, nascido, como se sabe, no século XVIII, período em que se retomou a experiência havida em Atenas no século V. a.C.

Antes disso, filósofos consagrados à política, como Maquiavel, já haviam se detido ao tema, ainda que a concepção de público incorporasse mais a preocupação com o povo e não com a opinião pública. Em O Príncipe, quando Maquiavel se pergunta se é melhor para o líder ser amado ou temido, vemos com clareza que sua atenção está voltada à repercussão das atitudes do mandatário. Não deixa de ser uma preocupação com o modo como o povo confere significados ao que se obtém nas informações políticas. Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, de maneiras opostas, também nutriram expectativas em relação ao povo. No entanto, temos autores mais próximos de nós que abordaram, de forma direta, a manifestação política em uma via de mão dupla, focando tanto nas ações políticas ante a busca por votos quanto na qualidade do envolvimento do leitor.

Comecemos por Amusing Ourselves to death: public discourse in the age of show business (Divertindo-nos até a morte: discurso público na era do show business), de Neil Postman (New York: Penguin Books, 1985). Postman então se remetia à mente tipográfica, ou seja, um tipo de disposição de participação política nascida na cultura da leitura de textos em jornais ou livros. E dava como exemplo os debates havidos entre Abraham Lincoln e Stephen A. Douglas, no ano de 1854. Num caso em especial, os debatedores acertaram as seguintes regras: Douglas teria 3 horas de fala, seguido de igual tempo para Lincoln. Entre as colocações de um e outro candidato à presidência dos Estados Unidos, Lincoln propôs que o público fosse para casa jantar, para depois retornar ao debate.

E se Neil Postman comparava o discurso público de matriz política de uma mente tipográfica com o período que ele chamou de era do show business – marcadamente ligado à estrutura de captação de atenção por meio da TV – Byung- Chul Han o fez de modo semelhante. Em sua última obra publicada no Brasil, Infocracia: digitalização e a crise da democracia – Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2022, recuperou Postman para apontar que “as mídias eletrônicas de massa destroem o discurso racional marcado pela cultura livresca.”

Tanto Postman quanto Han identificam modos de atração pelo tema da política que seguem de acordo com a proposta de cada meio de comunicação. Mas os autores não esquecem que o público vai se modificando naquilo que pode despertar a sua atenção. E nessa linha é válido levar em consideração o que desperta interesse numa era em que a mensagem política é transmitida no mesmo meio em que se divulgam imagens, vídeos ou memes sobre os mais variados assuntos.

Pode ser que a democracia entronize a figura do povo como autônomo em suas escolhas e que parta da concepção de maioridade em Kant. Nesse sentido, há uma superestimação da capacidade de formação de um critério e julgamento a partir dele. Trata-se de uma intenção bastante idealista, então. Para nós, muito próximos do primeiro quarto do século XXI, a realidade política se encontra nas redes sociais, que, como sabemos, são dominadas por algoritmos sempre interessados em devolver mais do mesmo a cada um de nós. A atenção e o tempo dispensados num celular podem ser medidos pela quantidade de informações parecidas que recebemos. Assim, no caso do Tik Tok, uma informação de que um candidato à presidência sofreu um acidente de helicóptero capta a sua atenção pelo tempo necessário para que você passe a receber mais informações favoráveis sobre ele. Esses conteúdos não estão ligados às propostas ou a algum tipo de agenda política a ser cumprida no consequente mandato. O que é apresentado para o usuário guarda ligações com uma trend – tendência – talvez iniciada alguns minutos antes. Assim, o candidato pode aparecer dançando, para enfatizar o seu lado gentil; um outro político conhecido de outro país pode também dar o ar de sua presença, comendo comidas populares de rua; um esportista pode aparecer sendo amável e educado com uma fã e assim por diante.

As redes sociais hoje expressam com clareza o que se entende como democracia, liberdade ou igualdade. Nelas encontramos o desejo de se promover, de aumentar o número de seguidores e a exibição de si próprio como o mais virtuoso. As eleições, a estrutura política, as ações dos parlamentares ou do executivo somente chamam a atenção da maioria quando cruzam as fronteiras e se encostam nas agendas identitárias ou na pauta dos costumes. Aparentemente, qualquer opinião pode ser capitalizada pela política, e o que se faz é causar ruído. Faz-se política nas redes sociais e se procura chamar a atenção com qualquer tipo de tema que atraia o público, podendo variar do grotesco ao desumano.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.