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Quando rasa, a narrativa do passado vira trend de TikTok

O cenário político costuma ser descrito por meio de distinções binárias – heróis e vilões, triunfos e desastres, inocentes e culpados, dominadores e dominados –, precisamente numa época em que há muitas zonas cinzentas e em que praticamente não existe debate sobre outras opções. Na linguagem coloquial, “politizar” implica criar tensões num espaço binário, quando na verdade é justamente o contrário; no sentido mais nobre do termo, politizar quer dizer discutir sobre as diversas opções, tornar inteligível a complexidade dos assuntos, procurar alternativas… Daniel Innerarity. A política em tempos de indignação: a frustração popular e os riscos para a democracia. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p. 136.

Sempre que possível e que se faça necessário, Alexis de Tocqueville é retomado aqui. Sobre ele, não se pode dizer que tenha sido um visionário, uma vez que esse termo guarda mais proximidade com as falas de marketing que tudo contaminaram, inclusive a reflexão que se fazia sobre a política.

Não é demais relembrar aqui que o pensador francês foi sensível o bastante para auscultar os mais discretos ruídos provocados pelo agito democrático. Agitos, movimentos, dissonâncias e ecos, tudo isso vem disposto na interpretação que Tocqueville fez da democracia. Ou melhor, das alterações nada sutis provocadas no povo que vive sob a democracia.

E se “igualdade” é uma palavra cujo significado é visível e palpável – aprendemos logo cedo a perceber a existência de privilégios onde não deveriam existir –, a liberdade se traduz num conceito abstrato, muito distante da crença de que somente a perdemos quando submetidos a uma ditadura ou quando somos presos e privados do convívio público.

O paradoxo aqui é que se faz necessário, num regime democrático, que as pessoas sejam capazes de possuir um critério que viabilize as suas escolhas. Além disso, é preciso que se volte para a liberdade entendida como um bem supremo. No entanto, somente seríamos capazes desse feito, se fôssemos mais compenetrados, céticos e menos preconceituosos – aquele tipo de preconceito que nada tem a ver com a imaginação moral de Edmund Burke.

Innerarity tem Tocqueville em mente quando aborda a maneira simplificada de se pensar a política no contemporâneo. A propalada crise não seria então da democracia, mas das pessoas que deveriam mantê-la em pé. A sensação de que as remissões à política sejam inspiradas no show business, na ausência de qualquer rigor, não seria algo surpreendente para Tocqueville.

O que talvez o chocasse fosse a constatação de que não somente as pessoas sem estudo formal tenham dificuldades de adentrar as reflexões sobre a política, mas sim e predominantemente a camada dos intelectuais. Aqui pode pesar o fato de que pouco se estuda e mais se requenta – recicla já é um despiste chique – o que foi estudado há mais de 30 anos.

Mas, da mesma forma, identifico nesse comportamento a distância em relação à espessura da história, haja vista que, a esse respeito, o mais longe que se chega é a década de 60. Esse período vem sendo mistificado e respaldado muito mais por se tratar de uma experiência vivida por muitos dos personagens que estão presentes na cena política e cultural que compartilhamos. Proximamente, ele será esquecido e creio então que será superado por outras décadas, também próximas da experiência de vida dos futuros agentes.

É esse o cenário que me ocorre quando leio as distinções binárias aludidas por Daniel Innerarity. Fosse outra a abordagem, trataríamos o tema da política com mais distanciamento, de maneira mais ponderada e sem manifestação de defesas e ataques nos moldes das torcidas mais aguerridas de futebol. Na polarização, um lado depende do outro, sendo essa a imagem ideal e aguardada por quem está concorrendo a um cargo majoritário.

Estamos bem longe das guerras religiosas havidas na Europa dos séculos XV e XVI, ainda que próximos das tentativas de extinção de povos e etnias. Esses casos não se aproximam do que hoje ocorre na política, em meio ao antagonismo com que nos deparamos, uma vez que de um lado ou outro do espectro tomamos contato com políticos profissionais, sempre abertos aos acordos inimagináveis.

Esse tipo de costura não é percebido por grande parte dos eleitores, principalmente aqueles que operam no modo binário, como acima se disse. Assim, interessa às campanhas manter e promover a polarização. Esse modo de atuação, pode ajudar a entender o número crescente de eleitores que sequer comparecem às urnas, por não verem grande distinções entre os participantes das eleições. Para o cidadão comum, as eleições podem se traduzir em uma proposta sem sentido ou consequência.

Já os eleitores com maior nível de educação formal encontram tempo para participarem animadíssimos de trends nas redes sociais. Fazem isso por se julgarem mais conscientes, preocupados e ciosos com a democracia, manifestando tudo isso numa grande apresentação de exibicionismo moral. Sendo esse um tema para as próximas colunas.

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.