Behavior

Se as eleições fossem decididas por sorteio, teríamos menos vergonha alheia?

Já lhe ocorreu pensar nessa hipótese? Se já, você se aproxima de Jason Brennan, autor que esteve conosco em uma das LABÔ Lectures. No livro Agains’t Democracy (Princeton University Press, 2017), Brennan apresenta a hipótese acima para poder compará-la ao que ocorre na prática no dia das eleições.

Há muito se sabe que, nas democracias maduras, a abstenção cresce seguidamente. Nesses casos, vale supor que as pessoas se cansam da política ou que não veem aplicação dela no seu cotidiano. Quanto mais a vida está ganha – ou mesmo quando se está na luta pela sobrevivência –, menos nos importamos com a política. Mas aparentar consciência política e indignação cola bem em algumas panelinhas.

Pensando dessa maneira e prosseguindo com essa hipótese, a política pode atrair, mais por necessidade de autoexibição num grupo do que pelo gosto em si. Percebemos como é difícil que alguém defenda a eleição de um candidato no qual não se escolheu votar – o que seria o caso de simplesmente apreciar o jogo da democracia. Para quem gosta de política, qualquer resultado é atraente, pois ele vem justificar os fundamentos da própria política. E se você ama a democracia, a alternância de poder é um objeto de estudos que deveria apaixoná-lo!

No entanto, não é o que vemos acontecer, e a política, em especial no momento da escolha, infantiliza o eleitor que vota, que persiste em sua ladainha, em atacar as eleições como meio de tirar proveito delas ou que se coloca como mais virtuoso por julgar-se como do lado correto da contenda. Ainda de acordo com Brennan, o aumento da participação política, ao invés de trazer progresso moral ao cidadão, o aproxima da perspectiva de aceitar a corrupção como algo necessário, inclusive para fazer aquilo considera ser o bem.

A pergunta que abriu esta coluna obtém a sua pertinência na ausência de um respaldo mais seguro para justificar as escolhas políticas ou as abstenções. Em relação à política, caminha-se de acordo com os episódios momentâneos. Novas identificações surgem e guardam empatia, mais por necessidade ou conveniência do que por qualquer motivo que possa ser justificado de maneira mais racional. Penso que nossa intenção de voto poderia ser silenciosa e discreta – mesmo porque nunca sabemos ao certo as consequências da nossa escolha.

Para um eleitor típico, a escolha de quem receberá o seu voto passa bem longe de qualquer suporte racional. E, para a felicidade de quem disputa as eleições, a emoção segue sendo o item principal, o critério de escolha de em quem se vai votar. Podemos então refletir sobre o sorteio como meio de resolver as eleições. Seríamos desincumbidos do ônus da escolha, ou de termos que buscar justificativas para nossas taras mais mesquinhas, e sequer nos daríamos ao trabalho de montar o figurino que melhor exibisse de modo calculado o que gostaríamos de representar em público, sair vestido de bandeira ou de Guevara. Continuaríamos alheios ao processo que nos leva a escolher um ou outro lado do espectro político, do mesmo modo de sempre, mas sequer teríamos a necessidade de forjar uma persona que viesse a justificar as nossas escolhas em público.

Se as eleições fossem decididas por sorteio, a política não nos faria reféns e nem seríamos cumplices compulsórios da justificativa de sua existência. Poderíamos então ser menos risíveis na busca por toda sorte de aparências que nos tornassem solenemente mais dignos da figura que pretendemos envergar: fazer crer que julgamos a política como uma entidade que nos torna mais virtuosos e coerentes não se ajusta ao cinismo nosso de cada dia. Estaríamos afastados então da persistência na infantilização e do ridículo de parecermos preocupados e com todo o peso moral do mundo em nossas costas.

Despojados dessa tarefa, acompanharíamos o dia do sorteio do mesmo modo de sempre, porém sem a necessidade de fingir racionalidade. As tensões entre os distintos pontos de vista seguramente diminuiriam e somente lamentaríamos ou não a sorte, como de resto fazemos quando jogamos em alguma loteria.

A mídia seguiria fazendo o seu papel habitual e se empenharia na escalada do espetáculo. Os debates poderiam continuar a existir, mas com a contundência se configurando de um modo diferente. As falas e justificativas dos candidatos seriam vistas como meios para tranquilizar o cidadão quando da eleição de um ou outro concorrente. Se assim fosse, poderíamos nos afastar do burlesco e falar sobre o que de fato importa. Conseguiríamos, assim mesmo, encontrar espaço para a vergonha alheia?

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.