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Por que as fake news e as teorias de conspiração despertam tanto o nosso interesse?

A racionalidade discursiva é ameaçada, hoje, também pela comunicação afetiva. A gente se deixa afetar demais por informações que se seguem apressadas umas às outras. Afetos são mais rápidos do que a racionalidade. Em uma comunicação afetiva, não prevalecem os melhores argumentos, mas as informações com maior potencial de estimular. Desse modo, fake news, notícias falsas, geram mais atenção do que os fatos. Um único tuíte que contenha fake news ou fragmentos de informação descontextualizadas é possivelmente mais efetivo do que um argumento fundamentado. Byung-Chul Han. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Editora Vozes, 2022, p. 37.

Byung-Chul Han é um autor que tem marcado presença neste espaço semanal, mesmo porque, em suas obras, costumamos nos deparar com insights e conceitos que foram nomeados por ele, mas cuja presença, de alguma maneira, já pressentíamos. Isso quando já não os usávamos. Filósofo na acepção da palavra, Han move o seu olhar para temas que ainda estão se desenhando, mas que ganham concretude a partir de sua visada. Não creio que seja um autor cujo texto seja fácil de ser compreendido, cumprindo notar que a sua origem na filosofia se deve aos estudos sobre a fenomenologia de Heidegger.

No entanto, na leitura constante de seus escritos, percebemos a sua aproximação com os frankfurtianos, em especial Adorno e Benjamin, bastante mencionados. E no caso de Infocracia, sua última publicação no Brasil, destaco as referências a Michel Foucault, George Orwell, Aldous Huxley, Neil Postman e Hannah Arendt, dentre outros. Em particular, as menções aos três primeiros autores se devem à sua percepção de que abandonamos o regime disciplinar, demarcado nas obras de Foucault, por um regime de informação, ou seja, um capitalismo da informação, em que não há mais isolamento, mas todo um incentivo a falar sobre si próprio e à exaustão. Já sobre as distopias que mencionou, aproxima-se de Huxley, que vaticinou que gostaríamos de ser controlados, contanto que nos afastássemos do sofrimento e nos tornássemos mais felizes, enfim, o credo utilitarista mais raiz. Postman e Arendt são citados por anteverem os riscos à democracia; num caso, por conta de mimetizarmos a linguagem do entretenimento, e, no outro, por não mais tomarmos contato com o outro nas redes sociais, mas somente conosco, nossas crenças mais arraigadas, identitárias e incontestes que repercutem nas câmaras de eco. Uma palavra se faz necessária acerca da teoria da ação comunicativa, também mencionada em relação a Jurgen Habermas. Se o outro está desaparecendo e somente me volto para aquilo com que eu já concordava antes, sou condenado a replicar a mim mesmo nos posts ou nos likes. Assim, a ação comunicativa se esvanece e leva consigo uma parte significativa do conceito esperançoso de Habermas.

Feitas essas ressalvas e remissões, interessa-me aqui aprofundar o ponto de vista do filósofo, em especial o seu ponto de partida expresso na citação acima, e o que julga ser um problema provocado pelo ambiente econômico e cultural externo ou uma fase do capitalismo neoliberal. Byung-Chul Han não demonstra empatia pela disposição humana em permanecer embevecido por suas próprias opiniões e sentenças, e não nos parece que tenha identificação com o repertório que dá sustento ao conceito de natureza humana.

Inicio pela racionalidade discursiva. Percebo que nela o autor confessa a sua crença no melhor dos mundos o que, na tradição europeia, se constitui no Iluminismo. Digo isso somente porque a preocupação de Han é com a degeneração da democracia em infocracia, um verdadeiro “tsunami de informações” que nos afeta por todos os lados. Ora, fora da teoria e do aparato habermasiano, em que situação histórica real o autor pode tomar contato com racionalidade na política? Creio que em várias situações passadas, dependendo dos personagens envolvidos, pode-se vislumbrar maior ou menor racionalidade. Mas nesse caso estaríamos falando de atores envolvidos diretamente nos fatos decisivos. No entanto, na democracia moderna, como supor que a racionalidade discursiva não tenha sido abandonada desde sempre? Fosse diferente e, como já dissemos, poderíamos até votar em um desafeto somente porque o julgamos mais bem preparado que o representante do nosso partido de afinidade.

Em relação aos afetos, nada parece removê-los do centro das escolhas que fazemos na democracia, e que até podemos julgar como racionais. Han tem razão em apontar a novidade das fake news, uma vez que jamais tivemos uma tamanha articulação entre imagens tiradas do contexto associadas a um sem-número de narrativas díspares, mas que se aproximam do ponto de vista de um conteúdo com sentido e pronto para fazer efeito. Assim, gestos, cores, gírias ou danças podem vir a reforçar a nossa simpatia preexistente.

Ora, “um único tuíte que contenha fake news ou fragmentos de informação descontextualizadas é possivelmente mais efetivo que um argumento fundamentado.” Mas quando não foi assim? Nossas predileções anteriores ditam o critério de nosso acolhimento do que iremos apontar como uma verdade ou uma mentira política. Impossível supor que um eleitor militante venha a lastimar uma inverdade que o seu candidato disse, mas que tenha se mostrado útil como arma política. Outro ponto relevante é pensar no que de fato é aproveitado pelo indivíduo que foi alvo de notícias falsas. Se as mentiras são contra o seu desafeto político, deixe para lá. E se forem contra aquele em quem irá votar, nada o preocupará, a não ser somente procurar lançar contraofensivas em suas redes sociais.

Em relação à disposição humana para a mentira, nada de novo no horizonte. Torcidas, mentiras, ataques e destruições de reputação fazem parte do fazer político em sua essência. Saber o quanto você suporta tudo isso é um bom termômetro para aferir se você gosta ou não desse campo e profissão. Muito mais do que os ideais que você possa ter, e que foram tornados protagonistas pelo marketing de entretenimento, que, como sabemos, transforma em estultice aquilo que toca. Uma pergunta final: será que fingimos virtude quando nos surpreendemos com a violência na política?

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.