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A política imaginária

É mais fácil perceber a presença da política quando ela se insere em uma experiência circunscrita em um pequeno espaço. Nesse contexto, fazer política é cuidar do que é coletivo. Mencionamos aqui uma ação concreta em que a responsabilidade recai sobre todos que vão usufruir das benesses compartilhadas ou que vão ter no caso de alguma dificuldade que atinja a todos.

Aprende-se na prática o que vem a ser um trabalho comunitário, cooperativo ou filantrópico quando se tem a oportunidade de conviver em um lugar em que a participação é direta. Filmes como A Vila (Night Shyamalan, 2004) exploram esse cenário que repercute a presença coletiva nas decisões sobre o que se vai plantar, se um templo será construído ou se é o momento de fazer uma biblioteca.

Essas experiências seguem sendo retomadas por autores de outras áreas e contextos, como por exemplo Maurice Halbwachs, autoridade no campo de estudos sobre a memória. É dele a constatação de que a história se inicia quando a memória viva de um grupo desaparece. Em outras palavras, aquilo que é feito e refeito e compartilhado por gerações não necessita que venha a ser escrito uma vez que não há a necessidade de ser lembrado.

Para o que nos importa aqui, trata-se de atentar que quem vive em pequenas comunidades, protegidas e distantes das demandas da modernidade, sequer tem condições hábeis para tomar a política como um objeto de estudos, uma vez que não se faz metanarrativa daquilo que não se tem consciência reflexiva. E por que haveria de ser diferente?

Robert Wuthnow, em The Left Behind: Decline and Rage in Small-Town America (Princeton University Press. 2018), abre horizontes ao descrever a importância das cidades pequenas na formação da opinião pública nos Estados Unidos. O livro contribui para que melhor se compreenda as raízes do conservadorismo em locais como esses em que os vínculos afetivos são mais fortes e que a necessidade do zelo para com as instituições concretas age e retroage sobre os vivos.

Parece difícil assimilar essa situação, pois o que hoje contemplamos é a ideia de política a partir dos problemas que são causados por ela. Resta dizer que precisamos de algo tão material quanto o dia das eleições para mais diretamente mencionar que estejamos em meio à política. E nos jornais, a política é complexa demais para ser devidamente acompanhada e por isso estamos sempre na busca pelo que explicite corrupção ou algum tipo de ilicitude.

Um pouco desse cotidiano ganha seus contornos no Príncipe (1532) de Maquiavel, uma obra que se lê para realizar a manifestação do comportamento de quem tem a responsabilidade pelo comando de um governo, bem como daqueles que são comandados. E uma das sensações na leitura dessa obra é exatamente a da recuperação dos rumores que são provocados pelos excessos de um líder que a tudo se apropria ou que pouco decoro exibe. Há percepções semelhantes quando se toma contato com o Federalista (1787) e com a Democracia na América (1835), duas obras em que o fazer político nos é apresentado com as cores vivas da realidade mais crível. O risco do faccionalismo abordado por James Madison nos remete de modo direto ao que foi incensado como um fenômeno do século XXI, a saber, a polarização afetiva. E Tocqueville nos sopra a vida quando caracteriza as atitudes, as disposições cotidianas e a ausência da metafísica nos cidadãos nascidos na democracia.

A política somente se torna abstrata quando nos dirigimos a ela na terceira pessoa e quando nos manifestamos como se ela fosse uma entidade que contasse com objetivo próprio e autônomo. Essa percepção ganha em nitidez quando se recupera os modos através dos quais a palavra democracia vem sendo usada por muitos. O uso naturalizado dessa expressão vem a eximir quem a pronuncia como se ela não dependesse do compromisso daquele que assim se manifesta. Lembrando aqui que estamos imersos em palavras cujos sentidos são explorados como se desvinculados fossem de qualquer lastro mais crível.

Meu palpite é que a política, do modo que a vemos hoje, guarde proximidade com o que foi desenvolvido no Iluminismo francês, época em que esse fazer foi projetado e idealizado em relação a um futuro imaginado. É bem característico do racionalismo francês ter buscado conceitos que viessem a demarcar o percurso do que poderia ser realizado, mesmo que exemplos fossem impossíveis de serem concebidos. O idealismo ali presente manifestou a sua força nos hinos e nas causas, mas se afastou do ambiente prático que viu surgir a participação política quando lastreada pelo pragmatismo.

E me parece que quando se fala de democracia ou política muito distantes estamos do que de fato conta e é provável que apenas se trate de isenção das responsabilidades e das consequências de nossas escolhas.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.