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Por que a mídia é apaixonada pelo Irã?

Uma imagem que tem aparecido nas redes sociais é aquela em que aparece uma pessoa cujos dizeres são mais ou menos esses: cansei de ser especialista em tal assunto e agora eu sou sobre esse. A personagem em si parece ter sido produzida por IA e, como tem sido comum, não guarda associações que demonstrem coerência com o que está sendo atribuída a ela: poderia se tratar de alguém esperando que o café chegue até ele ou na sala de espera do dentista. Os assuntos que dão oportunidade a esse meme são aqueles que estão no topo das menções, como pandemia ou guerras em que estejam implicados Estados Unidos ou Israel, uma vez que outras guerras são boring e não contribuem em nada para a lacração. Outras tragédias, quando em continentes que não chamam a atenção, sequer são mencionadas. A se crer pela exibição de sabedoria nas redes sociais, o que se sabe sobre a África, América Latina ou Oceania, continua o mesmo que foi aprendido nos jogos de tabuleiro. Quanto às nações citadas acima, os trendings topics formam o cidadão no doutorado sobre o assunto. E como estamos sendo devorados pelo consumo de baixo esforço sobre tudo e todos, o nível de conhecimento anda abaixo do que se supunha ser o que rolava na Idade Média, aliás, sempre um parâmetro de coisa atrasada e a comparação padrão estabelecida por quem caiu no conto do vigário da modernidade.

A se crer na literatura medieval que chegou até nós, Geofrey Chaucer (c. 1343-1400) daria um pau no beautiful people de hoje que enfrenta o tédio lendo o caderno de cultura dos fins de semana. Mas infelizmente não é só disso que se trata. A vontade maior que é a de ganhar tempo nas novidades, antecipando-se ao que já se sabia, piora tudo e faz de qualquer assunto uma presa fácil para o lado que se enviesa. Nesse aspecto, política, astrologia, modas urbanas e mandingas ocupam o mesmo lugar no percurso epistemológico.

Vejamos aqui o caso da guerra contra o Irã. E vamos partir de uma fonte: Iran’s Rise and Rivalry with the USA in the Middle East de Mohsen M. Milani (London: Oneworld Publication, 2026). Entendidos em viés podem buscar dados sobre o autor ou sobre a editora, somente para aliviarem a consciência por mais um livro não lido por preguiça. Mas, deixando de lado essa gente chata e inoportuna, o que me resta aqui além de recomendar essa obra, é apontar que se trata de uma abordagem a partir de dados objetivos. E eles existem.

O Irã se destaca como uma potência militar no Oriente Médio e que possui armamento de ponta, inclusive com a possibilidade de construção de artefatos atômicos. A presença dessa nação pode ser percebida nos países que foram ou que ainda estão em sua órbita de atração. A Síria da dinastia Assad era dependente do Irã mesmo sendo um país de maioria sunita. Bashar Al Assad era chiita, assim como o poder teológico estabelecido em Teerã. A importância desse país para o Irã era geográfica, como meio de armar a milícia Hesbollah nascida e criada no Líbano. Da mesma forma, era a partir da Síria e do Líbano que chegavam as armas e munições para o Hamas, instalado na Faixa de Gaza, na fronteira com o Estado de Israel. O Yemen, nação que fica ao sul da Arábia Saudita, também é um satélite do Irã e atua com perspectivas de ataques, tanto contra Israel quanto a própria Arábia Saudita.

Em sua história iniciada na Revolução islâmica de 1979, o Irã contou com a leniência de dois presidentes norte-americanos, Jimmy Carter e Barack Obama. Em duas situações, na ocorrência da revolução em si e no acordo que foi feito entre Estados Unidos e Irã em relação à não utilização de material radioativo, esses dois líderes mexeram no tabuleiro da mesma forma que Donald Trump agora, com a diferença de que os dois primeiros atuaram na criação da tirania que hoje se consagra em solo iraniano. E aconteça o que vier, os presidentes futuros irão se aproveitar da nova configuração geopolítica que está sendo gestada no Oriente Médio.

Quando falamos do Irã moderno, falamos de um país que aprendeu em parte tanto com o comunismo quanto com o monoteísmo islâmico. Trata-se de uma nação que para sempre terá um discurso de vitimismo e (pasme!) de pacificação. A Foreign Affair de abril deste ano pode ser muito instrutiva nessa direção ao dar voz a um emérito professor da Universidade de Teerã, M. Javad Zarif, que assinou o artigo How Iran Should End the War: a Deal Tehran Could Take. A se crer no que ele fala, o Irã é indestrutível e somente oferece a paz. Nenhuma menção evidentemente a todo tipo de trapaça ocorrida e financiada pelo Irã onde quer que se configure um risco de abalo institucional. Aviões sequestrados, bombas em embaixadas, homens bomba, o sete de outubro em Israel, tudo isso tem a mão do Irã e sobre esse tema não há dúvidas. No entanto, Zarif fala com desfaçatez que o Irã não provocou a guerra atual e que os Estados Unidos e a “entidade sionista” são os únicos responsáveis pela agressão.

É desse tipo de persistência no absurdo que pensei quando associei o aprendizado com práticas bebidas no contato com a esquerda institucional. Lembremos aqui, que o pragmatismo soviético deu as caras no Oriente Médio no período inicial da Guerra Fria, sendo que o secularismo daquela infeliz região do globo deve um tanto ao comunismo. A persistência na negação do óbvio e do silêncio em relação ao contraditório tem a assinatura da política de Stalin no Cominform, o Estado-Maior comunista sobre o qual não poderia pesar uma dúvida sequer, sob o risco de ser notado como uma prática de revisionismo. Resta lembrar aqui que, após o acordo realizado entre a União Soviética e a Alemanha nazista em 1939, os partidos comunistas existentes em nações como Estados Unidos, França ou Inglaterra, ficaram proibidos de se posicionarem contra a Alemanha sob o risco de serem banidos como punição pelo desvio ideológico. No Irã, temos um elemento a mais que é o religioso que, de modo surpreendente, a mídia tende a deixar de lado em suas análises. A mídia ama o Irã!

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.