Behavior

Os geniosos consumidores de notícias

Não está sendo fácil acompanhar as notícias que nos chegam a partir da imprensa. Buscar informações era algo que se fazia com interesse e curiosidade. A sensação de surpresa sobre os acontecimentos se somava às outras que eram o de acompanhar um evento que se iniciara. Experimentava-se a percepção de que poderia se ter mais oferta de dados sobre o ocorrido e, então, buscava-se correspondência em pesquisas indiretas, sobre a história, cultura ou sociedade relativa aquela ocorrência.

Uma coisa era a descrição dos fatos em si, o quando, onde e como, e outra eram as interpretações que eram realizadas. Jornais da grande imprensa possuíam correspondentes em várias capitais do mundo. E era assim que acompanhávamos a aferição da pressão social em um país que acabasse de passar por um golpe político, por um atentado terrorista ou queda de avião. Os detalhes nos chamavam a atenção uma vez que saciavam e estimulavam a imaginação. E, com o tempo, sabia-se os nomes dos políticos, dos partidos ou dos grupos terroristas, tudo isso a partir de uma série de informações que eram aceitas enquanto verdade acerca do que acontecera. Dividíamos as pessoas entre aquelas que consideravam verdadeiro o que era noticiado e as outras que colocavam em dúvida a chegada do homem à Lua ou a morte de Elvis Presley. Um detalhe que não passava desapercebido: observadores mais atentos e que acompanhavam um jornalista em especial notavam as diferenças de seus desempenhos em relação ao conteúdo se eles escrevessem nos jornais ou se tivessem gravado um vídeo para a TV. A queda de qualidade era visível uma vez que a imediatez característica da TV mal conseguia resumir o que de importante tinha acabado de acontecer. E uma vez saciados com as informações sobre o ocorrido, prosseguíamos para a interpretação: por que aquilo teria acontecido? Sendo essa uma das primeiras de nossas perguntas que apontavam para um horizonte mais largo e abstrato.

Eram outros os leitores e outras as responsabilidades quanto à oferta de informações. Diga-se que em nosso caso e de nossa história, o acompanhamento de notícias no período da abertura política, então nos finais da década de 70 e início dos 80, coincidia com um consenso entre os leitores, ao menos aqueles que se destinassem à grande imprensa que mencionamos aqui, a que publicava todos os dias e aquela que somente ia às bancas nos finais de semana. E, em se tratando de uma quase unanimidade, o fato de que os jornalistas eram contra a ditadura tomava-se contato com narrativas que vinham em oposição ao que era oferecido pelo governo.

Essa satisfação poderia ser explicada pela ausência de nossa experiência frente à prática democrática, no seu sentido mais formal. Mas, nem todos. Os mais velhos já conseguiam se indispor com essa empatia pela fala de oposição, mesmo porque, eram mais cientes dos altos e baixos oferecidos pela política nacional. Mas não era exatamente o que acontecia com muitos de nós que buscávamos alguma frente para dar credibilidade. E no mais, desdenhávamos da sabedoria acumulada com o tempo por sermos vaidosamente apegados às nossas crenças que então julgávamos inéditas. O mais perto do relativismo político que tínhamos tomado contato era A Revolução dos Bichos, de George Orwell, obra que se tornou uma referência em orientação política mesmo que num futuro mais distante.

Porém, nada dessa atmosfera seria viabilizada a partir do momento em que enfileiramos alternativas distintas do ponto de vista ideológico e que nos apresentaram situações que por vezes se repetiam, como por exemplo, os escândalos. Algo foi questionado e compreendido e que sinalizava que a permanência de um mesmo grupo partidário no poder indicava a persistência de práticas ilícitas. Mais ainda: a alternância no poder não significava que tivéssemos nos afastado desse quadro repetitivo. Difícil então acomodar-se às escolhas de sempre, como se elas não fossem cacoetes ou como se não fossem somente oportunas. Além disso, é preciso observar que algumas ideologias costumam ser mais permeáveis à corrupção uma vez que algumas posições podiam ser interpretadas como necessárias para que o sistema viesse a se quebrar. O que distingue uma liderança revolucionária de um capo de uma organização criminosa é uma pergunta a ser feita.

Essa experimentação da prática democrática, formalizada na periodicidade das eleições e na avaliação dos desempenhos políticos, bem poderia nos predispor à constatação de que a mídia contemporânea vive da defesa daquilo que suas fontes lhe oferecem, o que compromete qualquer aspiração pela objetividade. De tal forma, no lugar das informações, nos encontramos hoje com assentimentos às doutrinas defendidas pelos partidos políticos. Lê-se hoje em grande medida o que já se sabia antecipadamente e o que causa irritação já se percebe a partir do título das matérias. A sensação que temos é a de que muitos dos que escrevem têm por finalidade a defesa de seus empregos futuros nos mesmos grupos a que pertencem. Não se trata então de noticiar sobre o que se aspira por ser conhecido, mas sim de defender um espectro e de se atacar o outro.

Penso que há um tipo de soberba adquirida com experiências anteriores o que fez com que se parecesse que jamais incorreremos no mesmo equívoco. No nosso caso, os erros seriam devido a termos nutrido boas expectativas quando da ocorrência do golpe militar. A mais completa ausência de nuances termina por simplificar o critério e não se admite diferentes matizes. Na história mundial, essa sabedoria recai sobre a crítica de prontidão a tudo o que venha dos Estados Unidos ou que venha a ter uma disposição ocidentalizada.

Essas certezas que mais se configuram em estratégias que atestem a esperteza por não mais cair em contos do vigário têm incomodado e afastado os antigos consumidores de notícias que somente se dão conta de que nada mais há de objetivo nas informações que são divulgadas. No lugar delas, somente nos deparamos com um apanhado de dados que satisfazem uma mesma persona, aquela que já sabia de antemão o que iria ler, de tal forma as notícias nos enchem de tédio.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.