Behavior

Como vencer o desejo de se exibir em público e mendigar a atenção dos outros

Toda indigência intelectual pode ser camuflada com roupas e gestos escolhidos para fazer efeito. Esses acessórios costumam se configurar em conhecimento, uma vez que poucos sabem o que isso significa.


É preciso ter muito cuidado com quem mais se autoproclama como defensor da liberdade.


Só se deve falar sobre democracia com quem leu Alexis de Tocqueville.


Quando se é jovem, a política pode ser envolvente e fonte de erotismo. Ser percebido pela retórica, ser fotografado, saciar a vaidade forte e inconsciente. Após os 60 anos, a política é sintoma da acídia e pode ridiculamente se configurar em nostalgia, ainda que não proclamada, da juventude.


Se não ficamos quietos e sempre temos algo para postar, o fazemos porque temos algo a contribuir ou somente para falar de nós mesmos?


É possível fingir indignação da mesma maneira que se finge admiração por um ditador. Os de esquerda sempre levando vantagem, por razões e motivos que dizem muito a respeito de nós mesmos.


Quem é o leitor mais idealizado e desejado? Aquele que concordaria com você ou o que ficaria mais irritado?


Para o medíocre e provinciano, toda atitude é solene, como que demarcando um permanente upgrade.

Há quem exiba o conhecimento como uma credencial que lhe permite fazer parte de um clube restrito e privado.


Do passado, escolhemos com precisão aqueles que serão os nossos ídolos. E projetamos essa imagem com a dedicação de quem escolhe a melhor roupa para o domingo.


Por que será que somos tão dedicados a saber o nome de determinadas pessoas? Por que sabemos quem deve ser cumprimentado ou não? Por que chamamos todos os outros pelas suas ocupações?


Ideal seria que sempre pudéssemos ter por perto quem nos advertisse se estamos sendo ridículos.


Seria bom que mantivéssemos as nossas simpatias políticas somente para nós mesmos, do mesmo modo que fazemos com o que consideramos deselegante para se expor publicamente. Mas, se exibimos nossas visões sobre a política, o fazemos para a autoexibição. Nada é tão importante assim para que façamos de graça.


Com que direito julgamos que se pode perguntar a alguém em quem ela irá votar? Se o fizemos, não foi para saber obter a resposta, mas sim para dar oportunidade de nos exibirmos e manifestarmos nossa sabedoria.


Seria estimulante acompanhar ao menos 20 minutos de um dia daquela pessoa que se apresenta como defensora da democracia e da liberdade.


Leitores de um livro só costumam exibir as lombadas dos seus livros naquilo que chamam de biblioteca. Costumam também se gabar de que uma mudança é difícil pois terão que transportar 23.432 livros. A precisão aqui trai o provincianismo mais arraigado.


As vezes, os trocadilhos somente escondem o mais triste desconhecimento sobre as coisas. Costumam assolar pessoas que, de maneira pouco suspeita, foram atraídas pela poesia concreta, aquela que dispensou o autor do domínio das rimas e métricas.


A virtude é um dos produtos mais baratos que encontramos por aí. Ela é fornecida de graça, não fosse o valor que quem a comercializa atribui a si próprio – geralmente muito inferior ao que a etiqueta diz.


Envelhecer sem parecer ridículo é uma das coisas mais difíceis que se tem pela frente, principalmente para aqueles que têm a si mesmos como referência de moral e costumes.


O século XXI nos dispensou de parecermos santos com uma arma, uma granada de mão e o braço esquerdo para cima com o punho fechado. Hoje, o lugar da aeróbica política é a rede social.


Quem era taxado como herege na inquisição sabia bem como a virtude é uma potência para aqueles que querem fazer de sua exibição um espetáculo sanguinário. O indivíduo assim é recompensado pelo sofrimento do outro. Ganha-se espaço social dessa maneira.


Domina-se a habilidade da escrita somente para poder conter a vontade de se retirar do mundo, abandonando todas as coisas que se julgam importantes, mas que de fato nada mais são do que planilhas de excell que expõem as virtudes e a si mesmos.


Todo medíocre ama planilhas.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.