Behavior

Somos uma espécie viciada na produção de sentido – ou por que nos julgamos tão importantes

Imaginemos alguém que tenha encontrado um ponto de ancoragem no passado e que o tome como o ápice de atribuição de sentido e de provimento de valores virtuosos em direção à posteridade. Continue a imaginar, mas agregue agora o elemento estético, aquele que embala os sentidos através de sons articulados, escalas cromáticas e linhas. Situe essa pessoa como tendo vivido uma parte disso tudo, ainda que como discípulo de quem lhe pareceu que o introduziria no beautiful people. Tendo todos esses ingredientes misturados lentamente, finalize com um toque de provincianismo.

Esse bem poderia ser o cenário de introdução à exumação da modernidade, porque é dela que falamos desde o início. Sendo que o que mais me mobiliza aqui é a percepção de que o moderno trouxe, de modo inédito, a perspectiva da consciência de seu próprio tempo. E não de um tempo qualquer, diga-se. Mas sim o melhor deles, o que mais expectativas trouxe em âmbitos que, apesar de muito distantes entre si, acabaram por ser conjugados: o progresso tecnológico e o dos costumes. Essa fé também confere suportes à expressão “à frente de seu tempo”. Como não compreendê-la somente como um instrumento de retórica? Qual a possibilidade de julgarmos uma expressão como essa como sendo resistente à lógica? Não temos sequer a possibilidade de saber o que será útil, como ideia, nas décadas e séculos que virão pela frente. No entanto, seguramente, o que quer que esteja remetido à sobrevivência irá contar.

Essa posição era inimaginável em outras épocas em que os marcos seriam aqueles mais concretos, tais como o nascimento de um futuro rei, o início de uma nova dinastia ou a vitória em uma batalha digna de ser lembrada. Ainda que tudo isso fosse embalado pela contingência e pela compreensão de que catástrofes poderiam acontecer.

Havia também sabedoria na crença de que os acontecimentos apenas ecoavam os ciclos que se repetiam perpetuamente. O protagonismo humano era menos exaltado que as estações, que, em seu constante movimento de nascimento, amadurecimento e morte, ofereceriam mais significados do que os feitos dos homens.

Essa abordagem bem menos agressiva nos aproximaria das outras espécies, uma vez que não nos julgaríamos superiores e tampouco na proa e na liderança dos acontecimentos do porvir. A crença de que nossas escolhas e ações fossem resultado da determinação e do humor dos deuses não era de todo o mal, uma vez que poderia limitar o nosso potencial mais destrutivo.

Some-se a isso o receio de que pudéssemos ofender os deuses com a hybris, o excesso de crença em nós mesmos, como se fôssemos autossuficientes e tivéssemos o domínio sobre as escolhas acertadas que faríamos sobre o futuro. Seres assim, com essa visão de mundo, seriam seguramente menos vorazes a respeito do meio ambiente, do extermínio das espécies vivas ou da própria destruição da natureza.

Mas a consciência de si próprio no mundo e a supervalorização de que sejamos capazes de superação trouxeram possibilidades inéditas e sequer imaginadas. Se éramos mais contidos em relação à publicidade de nossos feitos, e somente nos envaidecíamos daquela ferramenta que, uma vez concebida, aumentasse a produção agrícola ou fosse mais letal na luta pela sobrevivência, deixamos de sê-lo na medida em que passamos a crer em uma metafísica de superação.

As diferentes visões cosmológicas aqui dispostas foram retomadas apenas para permitir a constatação de que elas são meras interpretações elaboradas por um ser necessitado de produção de sentido. Nessa equiparação, temos um explícito potencial de ceticismo. Em que devemos acreditar? Será que as distintas apropriações de seu próprio tempo dizem respeito tão somente às necessidades humanas de uma elaboração teleológica? A modernidade seguindo, então, como aquela visão que mais corresponde à vaidade humana.

Gosto de pensar nas distintas maneiras como já nos percebemos no mundo, a nós mesmos perante os outros. Acredito que essa exploração nos aproxime do ceticismo em relação às mais recentes crenças seculares de redenção. Quantas vezes já tivemos certezas que foram trocadas por dúvidas para que estas novamente se tornassem motivo de crença?

Creio que o contato diário com a história passada tenha como saldo a percepção de que muito dificilmente conseguiríamos justificar progressos ou atrasos no campo do pensamento. Mas entendo também que essa posição seria constituída em respeito àqueles que se foram, ainda que há milhares de anos. A maioria dessas pessoas deveria estar fazendo o melhor que podiam, você não acha?

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.