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História concisa das causas sociais ou por que nos tornamos tão bonzinhos e confiáveis

O título acima é uma promessa, mas bem poderia ser uma proposta a ser encaminhada. Proponho então alguns marcos que podem auxiliar nessa elaboração. Seria possível nos depararmos com fontes que dessem suporte para a pesquisa e para a apresentação de um produto na forma de uma narrativa? Acredito que sim, e vou levantar aqui algumas perspectivas e possibilidades.

Vamos partir de uma comparação. Não houve uma época passada que tenha produzido uma história acerca de nós mesmos e que tenha se configurado como quase hegemônica. No contemporâneo, encontramos uma metafísica em cada esquina. Contemplamos narrativas sobre nós em várias escalas. Definimos a melhor política ou sistema de governo que melhor se ajusta a nossa platitude. Encaminhamos os modos de comportamento superiores e somos obsessivos com as causas. Demonstramos capacidade incomum na criação de temas que nos aproximam da mansidão e da generosidade.

Em público, somos a favor da distribuição de rendas, defendemos que homens e mulheres sejam iguais em absolutamente tudo e usamos réguas de cálculo que medem as vantagens, os abusos ou privilégios. Entoamos o mesmo mantra em relação aos preconceitos raciais ou étnicos de toda sorte. E ainda temos tempo hábil para proteger a fauna e a flora: ao olharmos a nossa geladeira tomada pela mata, podemos ficar em dúvida em relação a quem de fato é o predador.

Não fomos sempre assim, nem tínhamos esse roteiro a ser seguido por cada um de nós, e que é bastante inspirado na última série sobre heroísmo e causas sociais lançada ontem na Netflix. Enfim, não encontrávamos o script de nosso papel, assim, em qualquer boteco, escola ou publicidade lacrimogênia. Nem digo falsa, por não querer ser redundante.

Claro que havia tentativas de metafísicas oficiais, do tipo “o brasileiro é um povo ordeiro” ou “os norte-americanos têm a liberdade e a igualdade como uma referência intocável”. Mas conseguíamos produzir antídotos para isso, seja por meio de uma crítica mais sisuda ou da comédia. Rir de si próprio sempre foi um bom negócio.

Nessa investida do rir de si próprio, abríamos espaços para a contradição e nos humanizávamos, uma vez que apresentávamos, um pouco que seja, a nossa mentira e hipocrisia: um canalha que se reconhece enquanto tal está a quilômetros de distância dos seres intocados e bonzinhos que o cercam como percevejos. Por vezes, endereçávamos ao interlocutor a dúvida acerca da confiança em nós. Atualmente, estamos muito distantes de expormos as nossas mazelas, muito pelo contrário. Até mesmo porque elas não cabem bem na selfie que projetamos ao mundo. A não ser que seja por uma boa causa.

As causas sociais, quando não praticadas no sentido aristotélico do exercício cotidiano, viram qualquer coisa, até uma das tentativas de se vencer o tédio. Mas podem também ser moedas trocadas em público. Entre brancos de classe média, tem pegado bem transparecer preocupação social. Não custa nada, os patrões gostam, incentivam, todos ficam bem na fita e não se trata de nada difícil. Pode-se ir a um restaurante vegano e fazer isso. Pode-se ir ao cinema, sendo um filme cult. Uma peça de teatro ou a um show em prol das vítimas de qualquer lugar do mundo. Pode-se montar uma aula nessa direção, um ciclo de palestras, enfim, muita coisa que evidentemente funcionará melhor para você do que para o público-alvo da sua fala: já há um acordo tácito que envolve a aceitação da defesa de causas sociais que nada alteram no horizonte e a vida segue, mantendo os prejudicados de sempre sem que nada seja feito por eles.

E tudo isso sendo feito de casa, o que também ajuda a capitalizar a si próprio a partir do domínio de uma nova tecnologia. Melhoramos nisso, e nem precisamos, como no passado, visitar doentes ou nos sacrificar com algum tipo de ajuda que envolva contatos imediatos. O fato é que, com raras exceções, costuma-se inclusive zoar de quem tem essas preocupações e está ligado a alguma denominação religiosa.

Mas existem algumas dúvidas. Advogados, professores, jornalistas, publicitários, intelectuais, engenheiros e médicos estão todos do lado do bem. E há algo esquisito nisso tudo, visto tratar-se profissões cujo foco é outro e não especificamente as causas sociais. Estávamos acostumados, até algum tempo atrás, com profissões que estavam diretamente remetidas ao mercado das causas, como padres ou freiras, além daqueles profissionais ligados à filantropia.

Aristóteles, novamente citado aqui, não autorizaria a definição do ser somente pelo acidente, caso que está nos chamando a atenção aqui. Mas se postar do lado inconteste do bem e das boas causas não é uma finalidade em si, porque estamos cercados de pessoas tão abnegadas e boas, sempre preocupadas com as mazelas dos outros?

Duas sugestões finais:

A atmosfera de defesa das causas sociais, pela fraqueza de quem o faz, enfraquece as próprias demandas. E não que elas não existam e não possam ser defendidas. Mas há uma distância entre promover a si mesmo aproveitando-se das causas ou trabalhar diretamente no encaminhamento da solução dos problemas sociais. Dependemos da existência de vítimas e trabalhamos para o mundo continuar o mesmo: nossa criatividade na geração de novas vítimas e algozes excede qualquer tentativa realizada no passado.

Não diga em público que as grandes corporações foram pressionadas a abordar o tema das causas sociais, ou de que seja uma conquista dos movimentos socias o fato dessas narrativas terem alcançado as mídias. Tudo isso virou assunto de marketing na mesma medida que campanhas de automóveis, de produtos animais ou cigarros eram um hit no passado.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.