
Páginas e páginas estão sendo escritas sobre a crise da democracia e, de tal forma, temos a sensação de que há um defensor dela em cada esquina. Na verdade, o início disso tudo se deu nos Estados Unidos, como sabemos, a partir da eleição de Donald Trump. Não contentes em pautar as notícias no seu próprio país, os Estados Unidos invadem o noticiário de grande parte do mundo.
Já tivemos a oportunidade aqui de observar a presença de temas ou de lógicas narrativas que nos chegam a partir país e que, por essa razão, o nível de explicação ou entendimento tem sido cada vez mais baixo. Alguns sinais dessa percepção são encontrados na produção cultural que nos chega da América, como as séries e filmes produzidos recentemente: clichês de justiça social e de engajamento nas causas das minorias. Neste espaço, também temos apontado o espírito woke que faz de cada habitante dos Estados Unidos um herói na luta pela liberdade e pela democracia.
Nessa direção, A lot of people are saying: the new conspiracism and the assault on democracy, dos autores Russell Muirhead e Nancy L. Rosenblum (Princeton University Press, 2020), constitui mais um exemplo dessa situação. Trata-se de um livro cujo propósito é desvendar o que os autores chamam de uma nova teoria da conspiração, que se caracteriza pelo fato de dispor juízos sem a mínima preocupação com a existência de sentido ou lógica. Bastando que a informação seja verdadeira o suficiente: se não é totalmente falsa, pode conter alguma verdade.
O principal objetivo desse novo tipo de conspiração seria então promover um ataque às instituições através da busca pelo abalo na confiança fragilizada que se tem sobre elas. Diferente então das teorias da conspiração mais clássicas – os autores citam o assassinato de JFK ou a queda das torres gêmeas – nada há passível de produzir uma narrativa fornecendo um sentido paralelo, mas somente um ataque que funcionaria como um jab de direita – não é letal, mas traz complicações. Deslegitimação e desorientação são duas expressões usadas com frequência pelos autores.
Mas a leitura do livro nos leva a alguns questionamentos. Para aqueles de nós que pensam em casos semelhantes vividos no Brasil – tais como a ascensão das fake news, o uso da internet para a promoção de dúvidas sobre a apuração dos votos ou o comprometimento da justiça eleitoral – que não se aguarde por qualquer tipo de menção. Para os autores, as únicas democracias que preocupam, em virtude do tipo de ataque promovido pelas novas conspirações, são aquelas representadas pelos Estados Unidos e por alguns países da Europa, como o Reino Unido. Vejam que o título então nos engana, uma vez que primeiramente pensamos se tratar de uma pesquisa generalizante. Mas não, somente são aventados casos sobre a história recente dos Estados Unidos. Para os autores,
Democracy in the United States and Europe is threatened in ways few imagined possible only a short time ago. Many of us assumed that democratic foundations laid after World War II and consolidated with the Berlin Wall in 1989 were unshakeable. Now they look less resilient. To some eyes, they appear fragile. As defenders of constitutional democracy, we find ourselves on the defensive. (p. 166)
Esse aspecto nos leva a outro que gostaríamos de tratar aqui. A percepção de que as conspirações contra as instituições peguem sem ter nenhuma espécie de lastro. Ora, é bom que se observe que a relação dos cidadãos para com o Estado não é somente de confiança. Esquecemos da tensão existente entre ambos e que se manifesta nas queixas aos serviços públicos, no mal uso dos recursos obtidos com os impostos e na percepção que temos acerca da corrupção, quando protagonizada por agentes públicos.
O problema então desse tipo de abordagem se dá na medida em que se idealiza os personagens participantes dessa história. De um lado, os defensores da justiça, da democracia e da liberdade, do outro, os promotores das conspirações que apenas deslegitimam a democracia. E, finalmente, o povo americano, puro e ingênuo que crê em tudo o que se fala.
Mesmo que encontremos na obra uma menção à paranoia, quando os autores falam do que pode conceder legitimidade à crença nas conspirações – intencionalidade, proporcionalidade e viés de confirmação – pareceu-nos que a escolha da abordagem e a própria lógica interna da obra é o que mais se aproxima da paranoia – como se sabe, um ingrediente que costuma ser notado como presente no american way of life.
A presença das conspirações baseadas nas fake news e na ausência de qualquer lastro mais significativo confirmam a percepção de Alexis de Tocqueville, de que a democracia, paradoxal e infelizmente, se fundamenta na crescente incapacidade humana de reação ante a estupidez.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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