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E se não déssemos a mínima para as redes sociais?

O Shitstorm tem causas múltiplas. Ele é possível em uma cultura de falta de respeito e de indiscrição. Ele é, antes de tudo, um genuíno fenômeno da comunicação digital. Assim, ele se distingue fundamentalmente das cartas de leitores, que estão ligadas às mídias escritas analógicas e que ocorrem de modo expressamente nominal. Cartas de leitores anônimas acabam rapidamente no cesto de lixo de redações de jornal. Uma outra temporalidade caracteriza a carta de leitor. Enquanto se a redige esforçadamente à mão ou com a máquina de escrever, a exaltação imediata já desvaneceu. A comunicação digital, em contrapartida, torna uma descarga de afetos instantânea possível. Já por conta de sua temporalidade ela transporta mais afetos do que a comunicação analógica. A mídia digital é, desse ponto de vista, uma mídia de afetos. Han, Byung-Chul. No enxame (p. 11). Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2018. Edição do Kindle.

Mídia de afetos nos parece um modo bastante adequado de se referir ao contexto que vivemos à exaustão nessas primeiras duas décadas do século XXI. Não que os afetos não se imiscuíssem no fazer político desde sempre. A história nos oferece inúmeros exemplos dessa situação, que inclusive costuma catapultar a política para o protagonismo dos assuntos e temas. Não é diferente do que ocorre atualmente.

Penso, no entanto, na surpresa que o shitstorm ainda causa nas pessoas que creem na possibilidade de existência de boa-fé nas falas e informações trocadas na mídia em geral. Não creio que tantos tenham lido e refletido sobre as considerações kantianas sobre a razão prática, mas intuo que a expectativa otimista tenha sido bebida nessa fonte inconsciente, que aliás parece ter chegado a nós a partir de uma outra manifestação da corrente. É isso que me ocorre quando noto a indignação – um afeto do bem – nas falas daqueles que se indispõem com as bobagens propagadas nas redes sociais. Como se fosse possível retificá-las.

É evidente que esses assuntos despertam a pauta da necessidade ou não do controle das opiniões e juízos manifestados na internet. E, como se trata de um meio ubíquo, envolve muitos, gera engajamento e participação ativa. Inútil apontar que quem propaga um elo da corrente amplifica o acesso à informação. Não fosse assim, talvez não houvesse a própria existência dessas plataformas – sendo que a sua própria razão de ser é exatamente a armação de barracos e encrencas. Quanto de informação construtiva – nos moldes que Kant acharia legal – é buscada na internet?

Poderia se apontar, com igual pertinência, como se fazia nos inícios da internet, que as redes sociais democratizariam a participação política, colocando a régua mais para perto da imensa população alijada de intervenções mais diretas e efetivas. Esse raciocínio, diga-se, era tomado pela mesma expectativa kantiana, ou seja, de que as redes sociais poderiam dar suporte à efetiva presença popular na tomada de decisão. Palavras e expressões que hoje parecem pura fantasia, mas que despertaram a credulidade de muitos especialistas na passagem para o século XXI.

Pode ser simplesmente que tenhamos sido apressadamente iluministas quando do surgimento do aparato das redes sociais, e não dado atenção ao que elas poderiam facultar em relação à produção de correntes de ódio, de difamação ou linchamento. O contato diuturno com a tecnologia, bem como as narrativas baratas que colocam a história como rumando à libertação de nossos melhores potenciais, podem ter contribuído para isso. E bem pode ser que estejamos muito próximos de repetir essas atitudes agora, quando se pensa sobre a inteligência artificial. Somos suscetíveis aos últimos lançamentos das big techs.

Vejamos, aqui, esta outra passagem da reflexão de Han:

A sociedade da indignação é uma sociedade do escândalo. Ela não tem contenance, não tem compostura. A desobediência, a histeria e a rebeldia – que são características das ondas de indignação – não permitem nenhuma comunicação discreta e factual, nenhum diálogo, nenhum discurso. A compostura, porém, é constitutiva para a esfera pública. A distância, porém, é necessária para formação da esfera pública. As ondas de indignação indicam, além disso, uma identificação fraca com a comunidade. Desse modo, elas não formam nenhum Nós estável, que apresentasse uma estrutura de zelo pela sociedade como um todo. Também o zelo do assim chamado cidadão enraivecido não é [um zelo] por toda a sociedade, mas sim, em larga medida, um zelo por si mesmo. Por isso, ele se desfaz de novo rapidamente. Han, Byung-Chul. No enxame (p. 15).

Digamos que os afetos encontraram um bom meio de proliferação, uma vez que as redes sociais se estruturam na possibilidade do anonimato. Além disso, pessoas que defendem o que enviam e querem promover o ódio e outras que são radicalmente opostas a essas atitudes compartilham o mesmo material. Mais uma vez, não que isso não ocorresse em outros tempos de ódio promovido, seja na Idade Média ou, mais recentemente, nos totalitarismos existentes no século passado.

O ponto que poderíamos almejar alcançar seria aquele em que conseguíssemos permanecer imunes às tentativas de engajamento e que déssemos menos importância ao que é veiculado nas redes sociais, especialmente a respeito dos juízos morais, dos costumes ou da política. Seríamos capazes disso?

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.