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O mito do precursor e o fetiche dos fatos

Autor pouco conhecido por aqui e que não figura nas bibliografias das disciplinas de Filosofia ou Ciência Política, Leszek Kolakowski (1927-2009) teve duas obras recentemente traduzidas para o português: Principais correntes do marxismo (Editora Vide, 2022) e A modernidade em um julgamento sem fim (Civilização Brasileira, 2021).

Neste espaço, vou me deter no segundo livro e, em especial, em um capítulo: “Fabula mundi e o nariz de Cleópatra”. A proposta do autor nesse rápido texto ensaísta foi a de colocar em discussão o que podemos aqui chamar de o mito do precursor. No início, Kolakowski se pergunta sobre uma afirmação atribuída a Schiller, de que a nossa imagem do passado é uma projeção do presente. Então, de acordo com Leszek:

acreditar nela inteiramente não é apenas afirmar, junto a Schiller, que o significado dos acontecimentos de tempos passados é medido por aquilo que consideramos ser sua importância ao formar nosso próprio mundo; que eles fazem sentido apenas quando vistos dentro da estrutura de certa ordem teleológica que impomos a processos históricos e que não se torna aparente a partir de um simples exame dos fatos. É também acreditar que o que chamamos de fato, ou evento, não é mais do que uma construção arbitrária, e, como consequência, que a distinção entre verdade e falsidade se torna turva: qualquer construção, qualquer seleção, qualquer “estrutura” (pois são as “estruturas” que definem os fatos, e não o contrário) é tão válida e tão boa quanto qualquer outra. (p. 328)

Na sequência desse parágrafo, e no texto como um todo, Kolakowski procurou desvendar o que havia de evidência nessa afirmação, e o fez trazendo e ofertando expressões que possibilitam a nossa compreensão, além de abrirem espaço para a nossa própria imaginação sobre o caso. É assim que, se aceitarmos que o julgamento do que sejam os fatos ou eventos é aleatório, uma vez que caberá ao presente decidir o que são ou não, nos libertamos do fetiche dos fatos. Este sendo o mote do juízo emitido pelo filósofo Blaise Pascal: “se Cleópatra houvesse tido um nariz menor, toda a face da Terra teria mudado.” Por que perderíamos tanto tempo na identificação e na diferenciação do que seja ou não um fato? Poderíamos então optar pela fabula mundi, a saber, criar um passado artificial que venha a dar significado ao presente.

É então na proximidade com a fantasia que nos deparamos com o que eu chamei de o mito do precursor, tão banalizado no Ocidente quando se busca algum tipo de mediação, na direção de uma continuidade, entre o passado e o presente. Trata-se de um clichê que mais pode ser percebido como um sintoma da ausência de qualquer tipo de pensamento, mesmo que – e até por isso – possa contar com o respaldo do senso comum. Filmes, best-sellers, matérias jornalísticas e afins se servem desse mito à vontade. Quer identificá-lo? Fácil. Basta notar se você aceita com tranquilidade a pertinência de frases como “uma mulher a frente de seu tempo”, “ele foi um visionário”, “esse personagem anteviu as discussões que somente iriam florescer dois séculos depois”. E, para ser mais específico, quando identificamos a existência de conceitos como o feminismo, o racismo ou a liberação sexual em épocas muito antigas, nos momentos em que nada havia que desse suporte a essas aspirações. A crença na validade no prefixo proto também traduz esse entendimento, cabendo aqui apontar que Mary Wollstonecraft é aceita como uma protofeminista ou que Spartacus como um protocomunista.

A discussão disposta por Kolakowski nos apresenta um quadro em que o que quer que tenha ocorrido no passado, na miríade de contextos ou situações, dependerá do presente para que seja ou não alçado à condição de fato. Quase poderíamos dizer que algumas das personagens que nos chegam do passado como notadamente importantes já sabiam disso quando ainda estavam vivas: eram extemporâneas como o pensamento de Nietzsche. Uma época está apenas esperando que determinada pessoa surja, mesmo que somente se chegue a essa conclusão depois do aparecimento propriamente dito de tal criatura.

Creio não ser inútil apontar aqui que, pelo contrário, são os acontecimentos do presente – o dispositivo hegeliano do zeitgeist ou o espírito de uma época – que pesam na justificativa da lembrança ou do esquecimento de algo que tenha vindo do passado. No contemporâneo, a justificativa para uma ou outra escolha costuma ser encontrada no interior das chamadas guerras culturais. Assim, os feitos de Leonardo da Vinci são legitimados por darem suporte ao positivismo e ao mito do progresso. O mesmo acontecendo em relação aos de Henry Ford, Thomas Edson ou Steve Jobs. E se saímos desse campo de expectativa evolutiva e migramos para o criativo meio da cultura, nos deparamos com alusões a quem quer que seja que tenha sido o precursor da liberdade, da democracia ou da diversidade em geral.

E por que temos essa ocorrência tão banalizada? De acordo com Kolakowski:

Privada de toda a continuidade e direção, a história seria inútil; mas nossa cultura, para que possa existir, deve torná-la útil, deve esculpir sua identidade a partir do passado e assimilar esse passado, se apropriar dele como um passado dotado de significado e identidade contínua, de maneira que ele se pareça com o passado subjetivo de um ser humano. (p. 335)

A fabula mundi ou o passado artificial a que me referi acima é o que fazemos todo o tempo, criando um passado com o qual tenhamos ou não identificação, para o bem ou para o mal. Podemos então concluir que os mortos somente estarão a salvo se jamais forem lembrados, sendo essa uma triste e insana sina que a modernidade nos legou.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.