Behavior

Para onde foram os mais puros e idealistas?

Quando os julgamentos e escolhas políticas são tomados pelo crivo moral, temos uma situação em que o critério de escolha deveria levar em consideração a diferença entre o bem e o mal. E sendo o bem e o mal percebidos como absolutos, nossas opções deveriam variar constantemente, ou seja, muito dificilmente poderíamos manter fidelidade a um candidato ou a um partido em especial. Mas não é isso que ocorre, e o que mais percebemos é a permanência sob o abrigo de decisões tomadas há muito tempo. Sendo assim, preservam-se os gostos, as taras ou os tiques nervosos. No entanto, a polarização política incita os mais envolvidos a se servirem dessa roupagem e, no mais das vezes, ataca-se ou aproxima-se de quem quer que seja que lhe pareça adepto do mal ou do bem. E como exatamente essa configuração pode ser notada em nosso país? Acredito que com certa facilidade.

Tomemos os arranjos que são feitos para possibilitarem a governabilidade, uma realidade que, no Brasil, somente vem à tona após o resultado das eleições. O modo de operação de eleitores que se consideram razoáveis é o de demonstrar bastante jogo de cintura para suportar os dilemas morais daqueles que foram os seus candidatos escolhidos e, de modo recíproco, rigor para as posturas dos opositores.

De forma semelhante ao que falamos em relação ao bem e o mal, fosse a democracia um valor absoluto por aqui e defenderíamos a posse de candidatos pelos quais sequer temos um pingo de empatia, mesmo que quando eleitos eles viessem a flertar com opções autoritárias. Teríamos confiança nas instituições, nas leis e em sua aplicação, ou coragem para o enfrentamento nas ruas: situações assim ocorrem em profusão nas democracias do primeiro mundo. E a mesma reação teríamos com quem tivéssemos escolhido e que também viesse a demonstrar algum tipo de inclinação para ditaduras e afins. Mas não é o que ocorre.

No arco das nossas escolhas, muito dificilmente iríamos nos deparar com a racionalidade, uma vez que elas próprias nada mais são do que resultados de mimetismo: somos verdadeiramente hábeis em parecermos densos e moralmente preocupados com as escolhas políticas que fazemos, quando na verdade aceitamos os piores equívocos e ilícitos daqueles aos quais nos mantivemos fiéis. E isso muito mais pela inércia pragmática que nos torna reconhecidos. Manter qualquer tipo de independência é caso perigoso, de perder amizades ou o emprego: poucos nos dirigem a palavra quando caímos seriamente no conto de fadas de marketing que é o de buscar a sua autonomia e seu verdadeiro ser interior.

Creio que expressões dessa natureza possam ser explicadas pelo fato do Estado brasileiro ser uma abstração. Penso aqui nas alusões de Sérgio Buarque de Holanda ou Raymundo Faoro, aqueles que refletiram sobre os modos de se conviver com o aparato do poder público de um modo subjetivo ou através do patrimonialismo mais óbvio. Eu falo de São Paulo, capital, o lugar que no Brasil melhor conseguiu fingir ser do Primeiro Mundo. E percebemos o nível desse fingimento na hipocrisia e no provincianismo das elites paulistanas, acostumadas que são com manobristas, seguros de automóveis e serviços de delivery de lugares caros.

Amigos que vivem mais distantes daqui me relatam o quanto se pode depender do Estado para ter água corrente ou serviço médico por perto. Nesse Brasil, as escolhas políticas são vinculadas às expectativas mais cotidianas e pouco há o que se exibir. O mesmo não acontecendo nos locais mais ricos, ainda que em ambas as situações se note a dificuldade de se pensar o Estado como um ente objetivo, feito e moldado pelos que vieram antes de nós de modo a poder inclusive nos defender e proteger. Não é disso que se fala.

Deixando de lado a categoria de pessoas que dependem dos ventos soprados pela política, muitos de nós nos ligamos à iniciativa privada e não dependemos tanto assim do Estado. Temos planos de saúde privados, além de muitos outros serviços pagos. Tais pessoas são então envoltas por um outro tipo de alienação que se manifesta na impostura da preocupação com a política, mais notadamente quando da proximidade das eleições. Quem além dos políticos profissionais permaneceria em constante vigília ideológica?

E se nem o bem e o mal ou a democracia são suportes para a sustentação das nossas causas políticas, o que sobra no lugar?

A satisfação por exibir aquilo que se julga ser uma virtude, de demonstrar desapego em meio a um contexto de materialismo mais cruel e a sensação de privar da companhia de algumas poucas pessoas que dominam um dialeto chique e pomposo. E se dependemos das nossas orientações políticas para galgar e manter posições, não deveríamos nos surpreender com o que podemos fazer com ela e muito menos com o que se faz a partir dela quando se está ocupando um cargo público. Corromper-se por aqui pode ser caso rumoroso ou simplesmente um estilo de vida.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.