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A máquina do caos ou por que as redes sociais amam as baixarias

Quanto mais experiência temos no uso das redes sociais, mais somos capazes de perceber do que exatamente elas são feitas, quais são os objetivos das Big Techs e qual é o seu principal ativo. Algumas dessas informações têm sido oferecidas nos novos lançamentos editoriais sobre o tema. Esse gênero de publicação deixa transparecer o interesse na caracterização do funcionamento das redes sociais e conta com a curiosidade de um público que vem crescendo. Eu tenho essa percepção, até mesmo porque alguns lançamentos chegam a sair quase que simultaneamente com a publicação no país de origem.

De tal forma, em meio à tanta oferta, nos deparamos com um desequilíbrio no que diz respeito à qualidade das obras. Algumas delas possuem um ou dois argumentos e os repetem à exaustão, focando mais nos vários exemplos empíricos de casos que justifiquem as intenções dos autores. Isso faz com que alguns desses títulos tenham mais páginas do que precisariam ter e eles se tornam um tanto repetitivos. Mesmo assim, a leitura constante possibilita a percepção de alguns insights interessantes e que alimentam perspectivas de pesquisa.

Um pouco disso tudo se encontra em A máquina do caos: como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo, obra do jornalista Max Fischer (São Paulo: Todavia, 2023). Iniciemos aqui por uma informação que costuma rebater a baixa estima nacional quando do contato com uma obra que foi escrita nos Estados Unidos: o livro contém um capítulo inteiro sobre a ascensão de Jair Bolsonaro e seu uso dedicado das redes sociais. Isso já constitui um fato inovador, uma vez que o autor sabe onde o Brasil fica no mapa. Mas é na dissecação de alguns procedimentos nas redes que o livro alça voo. Vejamos aqui alguns deles.

Acompanhamos o caso de uma mãe preocupada com a vacinação periódica de seu filho – e isso num contexto pré-covid. Ela procura a escola e nada lhe informam. Vai até as autoridades superiores e nada. Fica sabendo que a classe política vem se esquivando de fazer algum comentário sobre o assunto. A mãe sabe que as pesquisas convencionais apontam que a maioria do povo americano é favorável à vacinação. O que ela não sabia era que nas redes sociais se dava exatamente o contrário. E deu-se conta de que quem quer vacinar os seus filhos não faz consultas na internet. Quem inunda as redes com perguntas e ativa o algoritmo de confirmação são exatamente as pessoas que apresentam algum quadro de paranoia em relação às vacinas. Assim, nas redes sociais, o que bomba mesmo são os que atacam as vacinas – o que explica o temor dos políticos em abordar o tema –, mesmo porque o estado da Califórnia (cuja opinião pública é forte e beligerante) é o que mais se manifesta como contrário à vacinação.

Segundo o autor, os algoritmos amam a discórdia, pois é ela que gera engajamento, sendo que a pasmaceira não interessa a ninguém. Visto por esse ângulo, o funcionamento das redes está voltado para a boa recepção de baixarias e teorias da conspiração de todo tipo, seja o terraplanismo ou a crença de que Hillary Clinton fazia parte de uma rede internacional de pedofilia. Se a conspiração tem espaço na internet, e são as minorias que geram engajamento, temos um gap que ocorre entre realidade presencial e a digital.

Duvida? Experimente falar de uma trend radical para um público presente e teste se as pessoas estão de fato assim tão envolvidas como parecem. Muitas vezes elas sequer têm noção do que você está falando, até porque nem todos gastam tanto tempo nas mesmas trends de sua bolha. É interessante notar que, quando permanecemos muito tempo navegando pela internet, e especialmente indo de uma rede social para outra, construímos quase uma realidade paralela que guarda pouca ligação com o mundo de carne e osso.

Ora, se o engajamento é o foco, uma vez que ele gera rendimento na forma de lucro, passamos a contar com profissionais habilitados em perceber o que mais agride, gera ressentimento e ódio. É quase como dizermos: nada pessoal, mas vou te humilhar e te execrar em praça pública! É disso que Max Fischer trata quando nos oferece expressões como reverberação moral, termos morais-emotivos ou vontade de castigar os transgressores. Podemos dizer então que temos uma situação em que as plataformas buscam explorar o pior que há em nós, especialmente quando numa atmosfera de conflagração e polarização: a política perfazendo o habitat perfeito.

Na medida em que conseguimos manter alguma distância dos rumores mais agressivos que se manifestam na política – se isso for possível, certamente – observamos possibilidades de pesquisa nos objetos de comportamento político. Um deles que me intriga e atrai diz respeito à seguinte situação: o mais sanguíneo opositor e que gera engajamento nas redes alimenta a campanha de quem? A se considerar a reflexão contida em A máquina do caos, os extremos se amam de paixão e os mais dedicados partidários podem estar fazendo campanha para quem mais gostam de odiar.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.