
O furor de falar, de escrever sobre a religião, sobre o governo, é como uma doença epidêmica, que contamina um grande número de cabeças entre nós. Os ignorantes, como os filósofos atuais, caíram numa espécie de delírio. Que outro nome dar a essas obras que nos sobrecarregam, das quais a verdade e o raciocínio estão proscritos, e que só contém sarcasmos, zombarias, contos mais ou menos escandalosos? (Abade Dinouart. A arte de calar, 1771)
Lê-se com proveito a História do silêncio: do renascimento aos nossos dias, de Alain Corbin (Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2021). Nos reencontramos ali com a envergadura da historiografia francesa que concedeu um espaço para remissões à literatura ou mesmo para os ensaios, procurando se deter no que possa iluminar o objeto que se encetou.
Nessa obra, o silêncio é visado à moda fenomenológica, a partir dos lugares em que se manifesta. Temos a recuperação do nosso estar, em meio aos quartos que revelam a intimidade, o que no passado costumava se apresentar com discrição. Baudelaire “clama o desejo de estar, à noite, enfim refugiado no seu quarto, escapando da grande infelicidade de não poder estar só” (Baudelaire, Le spleen de Paris, apud Corbin, p. 18)
Assim também nos portamos em relação aos objetos: “cada objeto tem em si uma realidade, que está para além da palavra que o designa. Essa essência só pode ser encontrada por intermédio do silêncio. Voluntariamente, o homem cala quando vê um objeto pela primeira vez”. (Picard, Le monde du silence, apud Corbin, p. 28)
Há o silencio da natureza, observado com atenção por Henry Thoreau: “o silêncio sozinho é digno de ser ouvido. Ele tem profundidades e uma fecundidade que variam como as do Sol.” E desejando ser mais bem compreendido, ele analisa o efeito do feno sobre o silêncio, bem como a textura dos musgos. (Thoreau, História natural de Massachusetts, apud Corbin, p. 41.)
Corbin nos dirige para as buscas do silêncio, ou seja, as práticas para alcançá-lo entre os séculos XVI e XVII: “nesta época, o silêncio era condição necessária para toda relação com Deus. A meditação, a oração interior e, até mesmo, toda a prece exigiam-no. A tradição monástica transmitiu, desde a antiguidade, uma ars meditandi, que saiu dos claustros no século XVI, constituindo, desde então, uma disciplina interior acessível aos leigos”. (Corbin, pp. 79-80)
Dentre as várias referências com as quais tomamos contato, uma se sobressai e requer um exame mais dedicado. Trata-se de A arte de calar, escrita pelo Abade Dinouart, (São Paulo: Martins Fontes, 2001; a primeira edição é de 1771). Dinouart compôs um tratado que se aproxima da tradição do moralismo francês, no qual também encontramos La Bruyère ou La Rochefoucauld. A palavra arte – no título – designa habilidade, domínio ou disposição para melhor conter a volúpia imposta pela natureza humana. Em relação a esse aspecto, mudam os temas, mas a proposta dos moralistas continua a mesma: o que podemos fazer para acertadamente refrear os nossos instintos em sociedade?
Em Dinouart, tomamos contato com ensinamentos que nos facultam perceber a inconveniência do falar à vontade sem se preocupar com o decoro em relação aos outros e a nós mesmos. O autor explicita a sua ascendência estoica e, portanto, vê no comedimento do silêncio uma forma de comunicação que se traduz em eficiência. A esse respeito, o capítulo que trata das diferentes espécies do silêncio ganha relevo:
Existe um silêncio prudente e um silêncio artificioso. Um silêncio complacente e um silêncio de zombaria. Um silêncio espirituoso e um silêncio estúpido. Um silêncio de aprovação e um silêncio de desprezo. Um silêncio político. Um silêncio de humor e de paixão. (Dinouart, p. 15)
Na segunda parte de sua obra, o Abade discorre sobre o ato de escrever. Um dos princípios vale a menção no contemporâneo: “só se deve deixar de deter a pena quando se tem algo a escrever que valha mais do que o silêncio”. (Dinouart, p. 60)
Autores dessa envergadura transparecem proximidade com o que permanece imune às modas que aspiram pela nossa redenção. É por isso que acredito que demorariam 15 minutos para entender o mundo contemporâneo, uma vez que dariam pouca atenção aos ruídos excessivos que produzem as tecnologias.
De acordo com os autores que apresentam A arte de calar, Jen-Jacques Courtine e Claudine Haroche:
A arte de calar pode convidar a refletir sobre essa histerização da escrita, ligada ao desenvolvimento do individualismo e do narcisismo contemporâneos; a resistir às injunções de ter de escrever; mais amplamente talvez resistir à obrigação imposta a cada um de se exprimir. Porque a obrigação de falar ou escrever hoje é mais forte e mais geral do que o imperativo de calar (…) Assim, um risco se anuncia, um perigo se define: que se instalem, sobre o fundo de uma indiferenciação de tantas vozes que clamam sua singularidade, um silêncio de convicções, uma indiferença ao pensamento. (pp. XXXIV, XXXV)
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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