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Como estará o mundo em 10 anos?

VIDENTE: César!
CÉSAR: Quem me chama?
CASCA: Mandem calar-se todos. Em silêncio!
CÉSAR: Quem me chamou agora em meio à multidão? Ouço uma voz gritar, mais alta que as fanfarras: “César!”. Bem: César se virou para escutar.
VIDENTE: Teme os Idos de março.
CÉSAR: Este homem, quem é?
BRUTO: Um vidente, que diz: teme os Idos de março.
CÉSAR: Tragam-me este vidente. Eu quero ver seu rosto.
CÁSSIO: Um passo à frente, amigo, e vem falar com César.
CÉSAR: Repete o que disseste há pouco. Fala, agora.
VIDENTE: Teme os Idos de Março.
CÉSAR: Ele é um sonhador. Vamos em frente. Sigam.

William Shakespeare. Júlio César. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2018. pp. 46-47.

Especular sobre o futuro é uma atitude arriscada para o historiador. Já são muitos os inconvenientes em se topar com o passado, uma vez que ele jamais se assentará. Contudo, não há segurança o suficiente para se servir do que já aconteceu com vistas a supor como será o futuro – e o mais frequente é incorrer na soberba. Casos recentes demonstraram isso em relação a se presumir que não teríamos mais pandemias ou guerras.

Mas os historiadores sabem como se precaver e saciar a sua curiosidade abordando o futuro como um objeto de estudo que, sob a luz da história, ganha novas atribuições, significados e expectativas. Esse é o caso da obra de Georges Minois, História do Futuro, publicado pela Editora Unesp em 2015 (o original francês é de 1996). Através desse trabalho, ficamos sabendo que as previsões nos dizem muito sobre os contextos, ambientes e atmosferas vividos no instante de suas concepções. Para o autor:

O homem de hoje conhece tanto o seu futuro quanto o caçador de Neandertal, e essa incerteza é sem dúvida mais cruel para ele do que era para seu distante ancestral, porque sua necessidade de saber aumentou proporcionalmente à sua dominação sobre o meio ambiente. O homem pré-histórico queria saber se mataria a caça, e provavelmente sua curiosidade acabava aí. (pp. 9-10)

Na antiguidade, acompanhamos um momento em que diferentes formas de adivinhação conviviam entre si e se diferenciavam de um povo para o outro. A leconomancia era a consulta através do óleo; a teratomancia, a partir de deformações; a oniromancia, por meio dos sonhos; o harascupismo, se servia das entranhas dos animais. Tais práticas satisfaziam os interesses e isso pode ser explicado pela ausência de outras mediações: as predições não conheciam rivais que surgiriam muitos séculos adiante, embasados no método dedutivo, na confirmação empírica, no uso da estatística ou da análise de riscos.

Entre os gregos, os cínicos, céticos e epicuristas destoavam na crença nas previsões por motivos diferentes, mesmo que não tenham se estabelecido – diga-se, até hoje – como um grande contraponto à ambição humana de acreditar e depender das profecias. Em geral, havia uma única concordância: os adivinhos estavam mais preocupados em ganhar dinheiro. É possível supor uma aproximação com a moda do coaching de nossa época – sendo que o que se convencionou chamar por autoajuda também não se encontra tão longe assim.

Mas se no Renascimento ou no Iluminismo nos deparamos com vaticínios positivos em relação ao futuro – isto é, se seguirmos orientações morais, virtuosas ou lastreadas pela razão e que se encontram no gênero das utopias – os séculos XX e XXI nos ofertaram um número razoável de distopias. Excetuando os casos específicos em que os acontecimentos eram desesperadores, tais como o nazismo, o stalinismo, as bombas atômicas ou os morticínios em massa provocados por economias planificadas, podemos nos perguntar por que esse gênero de narrativa ainda faz sucesso entre nós.

Pode ser que a identificação ganhe relevo a partir do medo provocado pelas tecnologias, inteligência artificial, big data e afins. Aparelhos percebidos como habilitados por um moto-próprio costumam estimular a nossa imaginação, até mesmo pelo fato de ignorarmos como funcionam. Os dispositivos sem fio têm ocupado um significativo lugar nesse quesito. Além disso, somos suscetíveis à apreensão provocada pelo receio de que percamos os nossos empregos substituídos pelas máquinas. Esse era o vaticínio dos luditas no início do século XIX britânico, ainda na primeira Revolução Industrial.

Recupero aqui, em outra chave, a estética que inaugurou uma visão trágica sob as cores do movimento gótico. Ali, de acordo com diversas abordagens, nos encontramos com o desejo de evasão que ganha relevo a partir do estranhamento com o período em que se vive. Somos igualmente envolvidos pelo tema da morte e seus vários matizes, odores e estados que se manifestaram amplamente no gótico. A personificação da degenerescência – que tanto suporte dará para o assim conhecido racismo científico – se estabeleceria como uma tensão entre os que se julgavam bem-nascidos.

Esse grau de pessimismo que foi expresso por Edgar Allan Poe, Mary Shelley, Robert Louis Stevenson ou Bram Stocker ainda se mantém entre nós, ainda que através das narrativas que geram engajamento nos streamings. Assim, sob outras vestes, o macabro e o soturno traziam para perto dos leitores e, de modo verossímil, uma interpretação negativa do presente – consequentemente, do que poderia acontecer no futuro. Essas obras, especialmente aquelas em que se manipulava uma formula química ou uma ação humana de controle da natureza, delinearam metáforas que lançavam sombras em relação ao futuro.

Quem tiver mais interesse sobre esse tema, consultar The Future is Gothic: Elements of Gothic in Dystopian Novels, tese de doutorado defendida por Amy Cartwright, na Universidade de Glasgow em agosto de 2005.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.