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O cinismo é a coisa do mundo melhor partilhada

“O capitalismo é o que sobra quando as crenças colapsam ao nível da elaboração ritual e simbólica, e tudo o que resta é o consumidor-espectador, cambaleando trôpego entre ruínas e relíquias.” Mark Fischer. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020, p. 13.

Deixe-me apresentar Mark Fischer a vocês. Britânico de boa cepa, daquela que produziu pessoas que partiam para o enfrentamento e na defesa de algum tipo de pensamento que permanecesse para além da publicidade de si próprio. Nascido em 1968 e falecido em 2017, Fischer era filósofo e professor em Goldsmiths, Universidade de Londres. Para quem não conhece a Inglaterra, é necessário apontar que ainda é possível se deparar com alguma coisa próxima do old school e que se afasta da midiatização de si próprio, mesmo nesses tempos em que um influenciador digital vale mais do que Shakespeare. Talvez o rico passado gótico, tema da coluna passada, ainda dê o ar de sua presença. Ao menos os castelos, o tempo eternamente nublado/chuvoso e os pubs estão ali para nos lembrar de tudo isso.

A obra a qual eu vou me referir aqui foi publicada originalmente em 2009 e uma vez que estamos em 2023, podemos dizer com segurança que, entre essas duas datas, há uma profusão de informações supérfluas, especulações sem objeto, as mesmas guerras de sempre, crises econômicas. E a pandemia, este sim um grande tema e que ficará na história. E, em se tratando de história, Fischer teve tempo de vida para compartilhar a crise do subprime, a grande recessão dos anos 2007/2008. Esse acontecimento ecoa em seu texto, inclusive a saída dessa recessão deve ter dado sentido ao título da obra.

Do ponto de vista das referências teóricas, Mark Fischer recupera o percurso estabelecido pelos autores que refletiram o pós-modernismo, ainda nas décadas de 70 e 80, entre eles, David Harvey, Jean-François Lyotard e Fredric Jameson. Tem-se aqui, o referencial do autor quando toma o mundo como destituído dos sentidos anteriormente existentes no contexto dos séculos XIX e XX. A epígrafe que coloquei acima sintetiza essa interpretação. Michel Foucault, Deleuze e Guattari também fazem parte do percurso teórico de Fischer, em especial naquilo que anuncia como a disciplinarização dos corpos e na sociedade de controle. Há espaço para um autor bastante publicado em português: Richard Sennett que, como se sabe, identificou na corrosão de caráter e no viver a prestações, uma proximidade para com o conceito de crise das metanarrativas bebido em Lyotard. Já a visada marxista contou com a retomada de um autor bastante mencionado no livro: Slavoj Zizek. Finalmente, na literatura, é Franz Kafka que acompanha o autor em sua análise, mesmo porque, no capitalismo tardio, a burocracia ocupa a função de esfarelar o que antes possuía algum significado concreto.

Essas balizas teóricas, fazem a moldura do que Fischer sinalizou como Realismo Capitalista. Em suas palavras,

“Trata-se mais de uma atmosfera abrangente, que condiciona não apenas a produção da cultura, mas também a regulação do trabalho e da educação – agindo como uma espécie de barreira invisível, bloqueando o pensamento e a ação. (…) Não é preciso dizer que o que conta como “realista”, o que parece possível em qualquer ponto do campo social, é definido por uma série de determinações políticas. Uma posição ideológica nunca é realmente bem-sucedida até ser naturalizada, e não pode ser naturalizada enquanto ainda for pensada como valor, e não como fato”. pp. 33- 34.

Pode-se perceber nessa passagem, a presença do conceito de ideologia, que inclusive é bastante citado ao longo da reflexão. Digamos que até aqui, nada há de tão renovador assim. Contudo, é nos insights de Fischer que a obra ganha envergadura. Ainda mais quando pensamos em 2009, ou seja, distantes do que viria a se legitimar como boas causas e lutas, mesmo que envoltas na mais enfática manifestação de cinismo.

Dentre os temas debatidos por Mark Fischer, acompanhamos o destaque que concede à mercantilização da educação que se dá a partir da burocracia e do cumprimento de ordens superiores simplesmente porque são ordens superiores. Essa dinâmica se encontra na expressão inglesa TINA (there is no alternative – não há alternativa) que faz o coordenador de um curso transparecer preocupações sociais e aparentar ser simpático – aqui o cinismo – para tão somente desumanizar-se cumprindo com eficiência aquilo que lhe foi ordenado que fizesse. As metas de desempenho, de frequência e de retenção de alunos, ocupam o primeiro lugar nas prioridades, naquilo que Fischer chama de stalinismo de mercado. De acordo com o autor:

“O cinismo da conformidade é ingrediente fundamental: a do ‘jovem senhor’ de ideias progressistas diretamente trazidos dos anos 1960, ‘que não acredita realmente’ no processo de auditoria que faz cumprir com absoluta diligência. Essa denegação, esse deslocamento, sustenta-se na distinção entre atitude subjetiva interna e comportamento exterior, discutida anteriormente: por dentro é antipático, até contestador, frente àqueles procedimentos burocráticos que supervisiona: por fora, conforma-se a esses procedimentos perfeitamente. É precisamente esse desinvestimento que permite aos trabalhadores continuarem a realizar um trabalho sem sentido e desmoralizante”. p. 94.

O cinismo se manifesta no comportamento que busca se orientar pelo tema do momento: uma causa social que melhor combine com os óculos e a camiseta. No passado recente, outras modas ocuparam o lugar das causas.

Ubiquidade é uma expressão que bem capta o instante em que vivemos e que Fischer soube bem percebê-lo, mesmo que numa perspectiva ensaísta. De forma semelhante, o “declínio da historicidade” pode nos ajudar a compreender a existência de uma técnica de exploração de cenários cuja proposta é, como sobreviver em um apocalipse zumbi. A diferença, no entanto, é que o realismo capitalista se manifesta com honras prestadas à conjuntura histórica. A naturalização do cinismo e a desumanização que lhe faz coro é uma de suas consequências mais notáveis.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.