
Olavo Bilac, talvez o nome mais significativo nas duas primeiras décadas do século XX, produziu uma vasta obra, poética e oratória, de patriotismo ufanista em torno do país, resumindo seu momento mais importante na época da Primeira Guerra Mundial, quando se arvora em líder de uma campanha nacionalista. Uma de suas imagens mais notáveis, entre a enxurrada de registros poéticos e oratórios ufanistas, é aquela que, justamente, identificava a pátria com a mãe e a mulher primeva, “astuta e forte, a grande mãe das raças, Eva”. Mas, nas suas cartas e escritos privados, referia-se sempre com mau humor ao Brasil como mais uma “cafraria portuguesa”: e, escrevendo de Paris a Max Fleuiss, chegava, não raro, a perguntar num tom insolente: “Como vai essa terra ignóbil?”. Além disso, ao ler outra carta escrita por Bilac em Paris, em 1904, e endereçada a Coelho Neto, podemos notar uma necessidade de definição de patriotismo, talhada sob medida, mas apenas para uso privado: “Aos vinte e cinco anos, quando pensava que tinha de sair de Paris, chorava de raiva. E hoje não posso passar aqui quatro meses sem ter saudade da porcaria, do mijo, da estupidez, do mexerico, da safadeza da pátria” (…) “o patriotismo é como um reumatismo, é um achaque da velhice”. Elias Tomé Saliba, “A dimensão cômica da vida privada na República” in Nicolau Sevcenko, (org.), História da Vida privada no Brasil, República: da Belle Époque à Era do Rádio, Volume 3, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, pp. 340-341.
E possível que imaginemos as sensações provocadas num brasileiro que tenha visitado Paris nos inícios do século XX. Penso aqui em alguém que tivesse algum tipo de idealização em relação ao Brasil, então uma jovem República que tinha inaugurado um daqueles eventos que geram expectativas de que sejam definidores de uma nova era para a nação. Note-se aqui que a expectativa de regeneração gerada pela erupção da República seria a primeira de muitas que se seguiriam, culminando na aspiração por uma modernização redentora.
Podemos supor que essa pessoa tenha se maravilhado com o que viu, com a sucessão de palácios, praças ou pontes sobre o Sena. Mas não somente isso. Fosse ela mais interessada, perceberia a presença das discussões acaloradas sobre os direitos do cidadão e de como tudo isso repercutia em meio a opinião publica há muito praticada nessa cidade.
Tais impressões não se alteram tanto assim para aquele que visita Paris na atualidade. Ainda hoje, não é possível deixar de lado a lembrança do nosso fracasso enquanto nação. Temos que continuamente buscar o que quer que seja que rebata ou anule esse sentimento de inferioridade. Para quem se percebe às voltas com os temas que passam pela cultura artística ou literária, nada resta senão camuflar a sensação de desconforto com injeções cavalares de ufanismo, de esquerda ou direita. Lembrando que essas orientações no Brasil têm como critério de escolha um uni-duni-tê com feições ideológicas
Resta para a direita, apegar-se às cores da nossa bandeira, no mais, um símbolo postiço tal como o nosso hino e os demais adereços que são propostos para que nos envaideçamos de viver aqui – o verde das matas, o amarelo do nosso ouro e outras baboseiras mais. Inútil dizer como tudo isso se parece frágil e que muito dificilmente encontramos algo passível de ser tomado com orgulho e remetido à nossa identidade enquanto nascidos no Brasil. Estamos longe de qualquer consenso em relação ao nosso passado e somente procuramos nele, o que quer que seja que possa ajudar no fingimento de que sejamos um povo virtuoso.
Para os adeptos de esquerda, o ufanismo se encontra na valorização daquilo que se julga como culturalmente excluído, posto que perseguido ou objeto de preconceito. A busca se vale da baixa estima, mas logo é colhida pela economia da vítima, o que pode garantir acessos a formas melhores de sobrevivência. Creio que seja por isso que busquemos aqui, no contato com as redes sociais locais, exaltar a nossa história, o passado ou aquilo que julgamos bom a partir de um senso comum. Falamos de nossos músicos, compositores, autores, artistas, produtores ou diretores de cinema ou teatro, como se fossem os melhores, mesmo que não conheçamos os outros como meio de comparação. Extravasamos assim, o nosso sentimento inercial de plena ausência de valor e significado.
Sugiro aqui que ambos os lados desse espectro evitem sair do Brasil, especialmente em direção a qualquer um dos países mais ricos da Europa. Uma visita sequer a um museu de grande porte nos mostra uma situação que nos apequena, quando não nos envergonha. Mas não é somente isso. Tal como Bilac, tomamos contato com o nosso fracasso enquanto nação e somente podemos nos dar conta de que somos um arremedo, uma maquete mal acabada que nos lembra diuturnamente de que somos um projeto inviável.
A esperança que resta aos brasileiros é a munição necessária para que se continue a perpetrar a expectativa em relação a um futuro melhor. Os eventos políticos epifânicos, que periodicamente lançam às ruas milhões de pessoas são a prova de que ainda se alimenta algum tipo de esperança em relação ao país. Deve ser com grande entusiasmo que muitos que ocupam os lugares da elite política no Brasil devem acompanhar esses instantes dramatizados, não importando se são a favor ou contra as suas posições. Na política brasileira, não se há governo ou oposição, mas sim um acordo tácito de se manter tudo como sempre foi.
No Brasil, poderíamos aspirar por livrar-se dele próprio, o que infelizmente nunca acontecerá.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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