
O ano de 2024 começa com boas notícias vindas do mercado editorial. A filósofa Susan Neiman terá sua mais recente obra publicada em português, saindo aqui pela editora Ayiné (Belo Horizonte, MG). Trata-se de A esquerda não é woke cuja tradução foi feita pelo professor Rodrigo Coppe Caldeira. A primeira edição desse livro, em inglês, é de 2023, o que é mais um ponto positivo, uma vez que temos acesso em português a um tema que não tem recebido muito destaque como objeto de estudo e pesquisa. Pode ser que o assunto woke não tenha provocado uma dedicação reflexiva por ser exatamente uma fachada ideológica que interessa aqueles que desejam somente se autoproclamar como críticos das mazelas raciais e de gênero para que tudo permaneça como sempre foi. Lembremos aqui que as Big Techs, as Big Farmas, bem como a indústria de entretenimento radicada nos Estados Unidos, todas elas se tornaram gay friendly, defensoras da igualdade de gênero e de raça. Temos até o caso de uma gigante da área dos brinquedos que conseguiu emplacar uma boneca de plástico que despertou para a consciência feminista. Mais woke que isso, ainda está para nascer.
Como professor percebo que as máscaras woke estão sendo percebidas por um público mais amplo, aquele que acha estranho que adultos tiozões saiam por aí falando todes, amigues ou querides. Alguns chamam esses revolucionários de Instagram de esquerdomachos. No entanto, há controvérsias e elas se manifestam nas falas de pessoas que acreditam que bem ou mal, se as grandes corporações se dedicam às causas raciais ou de gênero, esses problemas são compartilhados para um público maior e que estaria alijado da importância desses temas. A se crer nesse argumento, a publicidade de um perfume, um fast food, um automóvel ou cerveja iria contribuir para erradicar o mal do mundo, ao menos em relação aos preconceitos de gênero e raça, diga-se, os que mais são dramatizados pela pequena burguesia do capitalismo. Não que, de fato, esses problemas não existam e que não devam merecer a nossa atenção e dedicação. Mas o que autores como Susan Neiman e Olúfémi O. Táíwò, (Elite Capture: how the powerful took over identity politics and everything else, Chicago, Haymarket Books, 2022) apontam é que esses problemas foram cooptados pelo mercado mais exatamente para que tenham seus sentidos e significados esvaziados e distanciados de qualquer possibilidade de reflexão adulta, sendo que o “capitalismo woke, ao sequestrar essas demandas, vê os lucros aumentarem significativamente”. O que você acha que Lênin, Mao Tsé Tung, Fidel ou Stalin pensariam sobre as causas sociais defendidas pelas multinacionais do capitalismo hegemônico? O espírito woke bem se ajusta às ocupações que dependem dos vislumbres de metafísica, mesmo que baratas. Assim, o mercado do entretenimento ou da educação – universidades sempre na vanguarda – podem parecer críticos do sistema e até de esquerda, uma vez que isso pode tornar o seu público mais cativo. Atores e professores sabem bem disso e mentem tanto que até acreditam que estejam do lado das boas e necessárias causas sociais. Qualquer governo totalitário teria orgulho de pessoas assim.
A contraintuição se realiza na procura por estabelecer a dúvida em relação a esse funcionamento que parece válido, mesmo que os sujeitos reais dessa oração não se sintam reabilitados. Herdeira da tradição Iluminista, Susan Neiman recupera o universalismo, a justiça e o progresso como possibilidades reais que se impuseram respectivamente ao tribalismo, o poder e à ruína. Para a autora, o woke nada mais é do que um movimento reacionário que se opõe ao enfrentamento daquilo que deve de fato mudar. Quando nos identificamos e nos emocionamos com uma publicidade de fim de ano, mais próximos estaremos de nos tornarmos idiotas úteis.
Vejamos Neiman aqui:
O que é confuso no movimento Woke é que ele expressa emoções tradicionais da esquerda: empatia pelos marginalizados, indignação perante a situação dos oprimidos, determinação de que os erros históricos devem ser corrigidos. Essas emoções, no entanto, são prejudicadas por uma série de pressupostos teóricos que, em última análise, as minam. Teoria é um conceito tão nebuloso e moderno que já foi usado até para lançar uma linha de moda, mas se a palavra hoje não tem um conteúdo claro, ela tem um rumo. Neiman, Susan. Left Is Not Woke (pp. 5-6). Polity Press. Edição do Kindle.
Mas o envolvimento também se dá através de aspectos psíquicos e emocionais, como vemos a seguir:
Táíwò argumenta que o trauma, na melhor das hipóteses, é uma experiência de vulnerabilidade que proporciona uma conexão com a maioria das pessoas no planeta, mas “não é o que me dá um direito especial de falar, avaliar ou decidir por um grupo”. (apud Elite Capture, p. 20) Ele argumenta que a valorização do trauma leva a uma política de autoexpressão, em vez de mudança social. Neiman, Susan. Left Is Not Woke (p. 18). Polity Press. Edição do Kindle.
Finalmente, é significativo quando nos deparamos com dois intelectuais de matizes ideológicas radicalmente distintas que se encontram irmanados na origem do que Neiman aponta como woke. Ambos se colocam contra o universalismo, o Iluminismo e o progresso. Escreveram obras em que, pelo contrário, clamavam pela chegada ao poder sem que concessões pudessem ser realizadas. Tratam-se de Carl Schmitt (1888-1985) e Michael Foucault (1926-1984). O primeiro foi um proeminente intelectual do nazismo. O segundo, de acordo com Susan Neiman, é o padrinho da esquerda woke.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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